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17/12/2017

O desescolarizado aprende pela TV?


Chegamos a pensar, ao menos nos anos setenta, que a escola poderia ser substituída pelos mídia. A tese atingiu seu clímax com um seu defensor, Ivan Illich, e veio para o campo propriamente filosófico com o alerta contido no A condição pós-moderna, de Lyotard. Talvez só agora, nessa época em que a TV é de fato uma realidade tanto do campo quanto da cidade, e que os setores semi-escolarizados podem responder a ela por meio da Internet, é que possamos avaliar a pertinência de um tal assunto.

Por esses dias a Rede Globo tentou encetar uma campanha de esclarecimento, de educação. Soltou vários programas no sentido de educar as pessoas para a noção de arte e de gênero, além, é claro, do que já faz cotidianamente em suas novelas, seguindo um padrão cultural de defesa da democracia liberal, direitos de minorias, direitos humanos e correlatos. O aríete liberal-educativo chegou a um ponto bastante audacioso no programa Fantástico, no domingo de 09/10/2017. O Fantástico deu uma aula popular sobre a arte, sobre o nu, desvinculando o episódio da performance da obra de Lygia Clark do MAM de qualquer manifestação sexual ou “pedófila”. Em seguida, abordou também de forma didática, de maneira feliz, as questões de gênero. Mostrou que criança brinca sem se deixar formatar por pensamentos adultos fora de ordem: um menino vestido de branca de neve gritou “eu sou o Hulk”. Crianças brincam de cavalo sem precisar de cavalo, somente um cabo de vassoura. Sabíamos disso. Mas os adultos jovens de hoje, cavalgados mentalmente pelo preconceito, não sabem disso. A Globo buscou ensinar.

O caso é que a reação contra a Globo, devido a esses dois programas, se fez sentir logo em seguida, como está hoje ocorrendo. Os desescolarizados e semi-escolarizados, bem caracterizados por seus perfis no Facebook e outras redes sociais, passaram a gritar contra a Globo e o Fantástico. Com o cone na cabeça, atuaram para valer! Todo tipo de mentira e desentendimento vingou. E vinga! É como se tivéssemos a prova de que a TV informa, mas não educa, coisa que até o anos 80 falávamos, mas não pudíamos constatar como agora. A manifestação desescolarizada ou semi-escolarizada mostra-se arredia ao aprendizado. Falta-lhe um pré-requisito, só possível com a disciplina da escola, a “formação”. Só a formação permite que alguém receba novas informações. Essas vítimas do preconceito rechaçam os conceitos. Não querem ouvir o que a Globo ensina e, então, acontece algo muito interessante: reagem contra a imprensa, pela direita, de modo semelhante à esquerda reagiu quando Lula foi denunciado. É como se tudo isso tivesse detonado um grito do tipo: “imbecis do mundo, uni-vos”. Um espectro paira sobre o Brasil, o da ignorância.

Talvez campanhas televisivas possam educar. Mas elas são limitadíssimas num país em que a formação básica não chegou para muitos. Vejam o que quero dizer: já imaginou tentar explicar para essas pessoas que atacam o MAM que os gregos iam todos nus para ver as Olimpíadas? Já pensou em como dizer que não era um festival esportivo e, sim, uma cerimônia religiosa? A nudez era para se apresentar aos deuses da maneira mais simples possível, sem adereços ou hierarquias da roupa. Tentar ensinar isso para desescolarizados ou semi-escolarizados, como? Na universidade pública atualmente, se falarmos para evangélicos que havia um filósofo grego que se masturbava na Agora, é o mesmo que dizer para alunos marxóides, ontem e ainda hoje, que eles são antas que pronunciam a palavra “neoliberalismo” sem saber o que significa. Em ambos os casos, os alunos  vão reclamar na reitoria!

Há um fosso entre nossas elites intelectuais e a patuleia. E a patuleia tem aumentado demais. É muita gente que nunca foi a um museu, a um teatro, nem mesmo ao cinema! Mas é muita gente que nunca passou por uma escola efetiva, aquela escola pública que ao menos as classes médias tinham, nos anos cinquenta e sessenta. Foi aquela escola pública pudica, aparentemente punitiva, que pode encetar a liberdade pedida nos Sixties. Foi aquela escola que permitiu que a esquerda materialista tivesse na oposição a ela padres cultos. Ora, agora estamos diante de aficionados de Lula-ladrão lutando contra evangélicos incultos. Que decadência! Nessa hora, a mídia parece ser apenas um palco de conversa de surdos. E a Globo em seu novo, mas não recente papel, se vê impotente. Justo ela que era tida o Quarto Poder, agora se mostra como real, a realidade da imprensa liberal: fala-se muito mas educa-se menos que se desejaria.

Não estou dizendo que o mundo não tem solução sem escolas, embora também esteja dizendo isso, de certo modo. Estou dizendo que o Brasil passou da medida possível de ter desescolarizados e semi-escolarizados. Do modo que estamos, uma campanha para usar camisinha, pela TV, não vinga. Nada mais que é esclarecedor vinga. O público está aquém de entender o Jornal Nacional. E muitos de nossos ministros de estado e prefeitos de grandes cidades já são esse público tosco.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 09/10/2017

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8 Responses “O desescolarizado aprende pela TV?”

  1. Antonio Jorge de Souza Menezes
    31/10/2017 at 09:13

    Quando paro para refleti em um texto como o acima, me pego sem palavras. Organizar as ideias em meio ao turbilhão de informações e opiniões é tarefa difícil para qualquer pessoa. Por muitos anos, a mídia era considerada por muitos como o centro de manipulação da informação. A notícia era veiculada conforme a conveniência de poucos. Hoje, há quem defende um raro momento de lucidez da Rede Globo de Televisão.

    Certo autor disse em uma ocasião: “você pode deixar de confiar em alguém que tenha te traído uma vez, mas seria imprudente deixar de confiar em todos por causa de um só”. A maioria das informações vinculadas na emissora citada são direcionadas para seu próprio interesse. Quando vemos notícias como esta, falando sobre gênero, sexo, etc, há quem pergunte: Será que não existe alguma mensagem nas entrelinhas?

    Portanto, não julgo desescolarizados ou semiescolarizados por seus atos, mesmo porque, como diz seus próprios títulos, são pessoas que não tiveram ou não quiseram o conhecimento capaz de dá-los discernimento. A maioria dessas pessoas acreditam na informação sem ao menos fazer uma pesquisa mais profunda sobre o tema.

  2. 14/10/2017 at 21:09

    Por favor, professor, dê uma olhadinha no triste e medonho vídeo do prefeito regional de Pinheiros, na capital paulista, um tal de PAaulo Matias, a respeito da exposição do M.A.M E, sobretudo, sobre a rede Globo e seu programa dominical, o FAantástico. É dele que o professor está falando neste momento.

  3. Luciano
    10/10/2017 at 12:58

    A reação irracional da direita me assustou. Cheguei a ler a globo sendo chamada de tv marxista. As pessoas não querem estudar, soh querem berrar, xingar, acham que escola/universidade é lugar de doutrinação, aplaudem agressão contra professores. São uns mentecaptos e se orgulham disso. Se orgulham da ignorância que exalam. Tristes tempos.

  4. LMC
    10/10/2017 at 11:34

    E o Padre Marcelo todo Domingo
    na Globo?Essa gentinha reclama?
    Não,claro que não.

  5. Marcelo Diaz Pontes Rabel
    10/10/2017 at 11:24

    Eu só sei que poucos vão a exposições de arte, muita gente não sabe o que é arte. Somos infelizmente um povo que talvez não possa se dar ao luxo de entender o que é a arte intelectual, devido ao sofrimento de boa parcela da população que ganha muito mal e sofre vários tipos de abusos na vida cotidiana.

  6. 10/10/2017 at 02:43

    Me lembrou a reportagem da Globo feita no domingo explicando facilmente a exposição do MAM, mas mesmo assim não adiantou não, Malacheia e Infeliciano se mostram cada dia mais burrinhos dizendo bobagens.

  7. João Paulo
    09/10/2017 at 18:59

    Seria exagero dizer que a reforma do ensino médio deve piorar ainda mais tudo isso?
    Abraço

  8. Jonas Coelho
    09/10/2017 at 15:45

    Será que se escola básica tivesse melhor qualidade as coisas no país estariam diferentes? Porque vejo que parece que estamos regredindo, certo puritanismo com o corpo não se via nem na época da ditadura.

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