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22/09/2017

O aluno pobre e burro


No passado, quando um aluno era pobre e não estudava, o que os professores da escola pública diziam para ele era claro e direto: “você é o que não tem outra saída, ou estuda ou vai continuar na pior”. De uns tempos para cá, as chamadas “políticas de minorias” e “políticas de identidade”, necessárias no âmbito da quebra de preconceitos e fundamentais para uma sociedade menos cruel e mais liberal, pegou uma via torta, e que atrapalha bem os velhos ideias educacionais. Imbuídos desse tipo de política, os professores começaram a trocar a frase dirigida ao pobre, e encontraram essa nova: “você precisa de um diploma, ou vai ficar na pior”.

A fixação pelo diploma sem que exista ensino, no Brasil, vem de longe. Somos uma sociedade que valoriza antes o exame que o ensino, e nisso aprendemos a sempre darmos importância ao final e não ao percurso. Num determinado momento, que começou no final dos anos setenta e que agora chegou ao auge com a participação pessoal de Lula, o percurso foi considerado de fato desnecessário, o que vale é o final, o último dia, o diploma. Lula passou anos falando que não tinha diploma, deixando transparecer que queria um. Depois, obteve um monte de diplomas: deputado, presidente e “Dr. Honoris Causa”. Nunca soube o que é estudar para ter diploma. Um bocado de gente se acostumou com essa sua mentalidade, que deu o tom para a política: escola é para dar diploma, o resto é resto. Num país onde até professor acha que existe auto-didata bom, Lula se elegeu e, se não roubasse tanto, talvez pudesse ainda se eleger.

A escola hoje, para os pobres, quer dar diploma. Aprender e fazer a prova não vale. Vale “passar”, pegar o diploma de qualquer maneira. Os pobres precisam ser ajudados de modo a ter diploma, eis aí o lema de nossa política educacional capenga. Ou seja, se um professor empurra o pobre para estudar, ele é visto como o seu algoz. O pobre “precisa trabalhar”, “não tem tempo”, “não pode ficar reprovado”. O pobre precisa do diploma. É a inversão total de tudo que há no mundo. Em outros países o pobre ainda é visto como quem vai melhorar se puder aprender mais, não ficar com mais diplomas. A escola deve ser cursada, pois ela é lugar de aprendizado. Diploma é sua consequência, não o seu tudo.

A Reforma do Ensino Médio de FHC-Lula-Dilma-Temer é exatamente o cume dessa política populista, estúpida: menos disciplinas nas escolas, menos professores, menos salário para professores. Só assim a escola fica “atrativa”. Ela tem que atrair o pobre que quer ficar burro, mas diplomado. Ela parte do pressuposto que o pobre quer o caminho mais fácil, o de pegar o diploma mantendo sua estupidez. Ela parte desse pressuposto e o força como sendo que se deve querer.

O Brasil não vai dar certo assim não. E com estudante invadindo escola contra a PEC 241, e não vendo que deveria é protestar de modo eficaz contra a Reforma de Ensino, separadamente, a coisa não vai dar certo. Não mesmo. Já é a burrice dando o tom.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 16/11/2016

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16 Responses “O aluno pobre e burro”

  1. denis
    28/11/2016 at 07:23

    NUNK FUI BOM ALUNO, REPETI 3X , MAS NO ANO SEGUINTE DA MINHA REPROVAÇAO SEMPRE PASSAVA, DEVE SER PQ FIXAVA, RS, LEMBRO – ME UM ANO ESTAVA NA SEXTA SERIE E FIQUEI DE RECUPERAÇÃO, JA HAVIA REPETIDO O ANO ANTERIOR, EU PENSEI PUTZ SE EU REPETIR DE NOVO EU TO FUDIDO, RSRS, NAO É POSSIVEL QUE VOU REPETIR NOVAMENTE… ENTAO EU ME ESFORÇEI FIZ A PROVA, PEDI PRA DEUS PRA EU PASSAR E PASSEI , ATÉ QUE DEU CERTO!!

  2. denis
    28/11/2016 at 07:08

    EU NÃO ENTENDO, SE ALUNO QUER DIPLOMA PRA QUE QUE ELE FREQUENTA AS AULAS?? FICA EM KSA COÇANDO O SACO E NO FINAL DO CURSO VAI E PEGA SEU MALDITO E IDOLATRADO DIPLOMA, É TEM RAZÃO SÃO BURROS MESMOS…? RSRS

  3. 23/11/2016 at 16:44

    O texto não trata da proposta da reforma do ensino como foco, mas ao mencioná-lo no final, faltou uma analise mais detida. Eu vejo coisas positivas na teoria de um núcleo comum de onde se parte para elaborações mais sofisticadas. Entendo que nesse núcleo comum podemos sim aprender lógica matemática e interpretação de textos. Na minha modesta opinião, penso que se o aluno sair lá no final do médio, com domínio de linguagem, matemática e interpretação de textos, estaria ótimo. Daí ele poderia ser treinado para uma profissão técnica ou seguir para as universidades. Acho que devíamos repensar a teoria de que filosofia e sociologia, antropologia, e.t.c., são disciplinas ou mesmo cursos superiores que podem ser massificados. Acho que chegou a hora de debatermos a fundo isso. Acho que as universidades, como pensava Giannotti no final da década de 1980, deve ser de elites, e não massificada. Mas elites meritocráticas e não de sangue ou de pertenças familiares como é no Brasil.

    • 23/11/2016 at 18:08

      Sérgio está fazendo tempestade num copo d’agua agora.

  4. Silvia
    20/11/2016 at 02:29

    Ótimo texto

  5. Dédalo
    19/11/2016 at 15:47

    Professor, tenho 18 anos e acabo de fazer o ENEM para tentar uma vaga de Engenharia Eletrônica pelo SISU, na UFRJem 2017. Pelos meus cálculos, devo ter tirado, na Redação, uns 900 pontos. Mas, a propósito do artigo, acho essa PEC 241 um lixo, um rebotalho. E eu nãoocupei/invadi nenhuma escola por conta dissso, não.

    • 19/11/2016 at 17:05

      Dédalo com 18 anos acho que já dá para entender muita coisa. Veja, se está usando a palavra rebotalho corretamente, deve se lembrar que ela tem a ver com o rebote, com a sobra. Sim, a PEC é a sobra, é o que nos sobrou fazer após o desastre Lula-Dilma. Ou melhor dizendo: mais Dilma que Lula. Ou PEC ou então mais crise. Com 18 anos já dá para você entender o recado do Meirelles, que queria fazer o ajuste ainda não governo Lula, mas que foi impedido pela política fominha e irresponsável do PT.

  6. Ícaro
    17/11/2016 at 19:04

    No geral o que vejo é aluno da humanas tentando explicar sua formação básica capenga com o famoso” Sou de humanas,não sou obrigado a saber matemática”, a partir daí vc percebe a deficiência, não só de matemática, mas também de um simples raciocínio de q o ensino básico não tem esse nome por acaso, ele serve justamente para que os alunos adquiram competências básicas em todas as disciplinas, e não para q saia da escola sem saber resolver uma simples equação do 1° grau. Eles pensam que existe um abismo intransponível entre as áreas da ciência. A coisa tá séria!

    • 17/11/2016 at 19:24

      Ícaro, o problema é que o não saber matemática, do cara, é não saber multiplicar com vírgula! Ou até pior.

  7. Osvaldo
    17/11/2016 at 18:06

    Um comentário simplório como todos que acontecem no Brasil de pseudo educadores que deveriam buscar na história o motivo para a m… que se encontra nossa educação .. a raiz do problema está na reforma implantada na Ditadura(1970) que queria transformar um povo em robôs, o mesmo que esta reforma que está sendo proposta quer fazer.Reforma deve ser feita em primeiro lugar copiando-se modelos que tem sucesso pelo mundo e não a partir de políticos que querem o mesmo que os milicos queriam, um povo submisso e sem cérebro. Deve haver uma reforma sim, mas com um modelo a seguir e não um que brotou de cabeças que não sabem o que é educação nem qual o motivo e principalmente desprovido de motivação política como está na cara do autor desta “coisa” que se diz filósofo … só que pensa o que seus gurus políticos o mandam …

    • 17/11/2016 at 19:26

      Osvaldo é evidente, pelo comentário, que você é o simplório. E pior, pode ser o burro pobre que se doeu por ouvir a verdade.

  8. Lia
    17/11/2016 at 17:24

    Ótimo texto, sou aluna de escola pública, de inicio achei interessante a proposta de retiro de algumas matérias, depois pensei melhor e vi que tinha uma ideia massiva por trás – continuar nos deixando burros.
    Sucesso.

  9. Rafa
    17/11/2016 at 11:10

    Professor, antes de acontecer a prova do Enem vi um pessoal que já está na unversidade dando dicas ” garotos prova não prova nada”, “vocês não tem menos conhecimento se não passarem”..

    • 17/11/2016 at 12:04

      Rafa esse pessoal, aposto, faz curso de ciências humanas, que eles não sabem o que é.

  10. André Luis da Silva Pereira
    16/11/2016 at 22:01

    Bem na veia, professor.

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