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28/06/2017

“Não vale generalizar” continua sendo uma frase do desescolarizado


Tenho de insistir, infelizmente: quem usa a frase “não vale generalizar” está cometendo um erro crasso. É frase de quem não fez escola básica. Recordo a lição.

Platão falou das formas como o real, e das coisas particulares como sendo produtos dessa matriz. Um cavalo real existe no mundo das formas, perfeito. Por conta desse cavalo real existente nesse mundo intelectual, há então os cavalos de vários tipos no mundo sensível, derivados daquele, como cópias. Aristóteles o contestou, dizendo que o cavalo é uma forma mental feita por abstração, ou seja, algo que nós criamos a partir da observação dos vários cavalos particulares do mundo sensível. A ciência moderna deixou de lado a disputa metafisica envolvida nessas formulações e ficou apenas com um subproduto delas, que chamou de método. O método que implica em ir do conceito para os particulares ela chamou de dedução, e o método que implica em ir dos particulares para o geral ou para o conceito, ela chamou de indução.

A dedução é sempre certeira caso o conceito esteja correto. Basta não errar na aplicação. A indução nem sempre é certeira, embora ela contenha em si mesma as regras de procedimento para a sua validade. Os cientistas estabelecem essas regras. Lemos nas bulas de remédios esses procedimentos. Por exemplo, apresentam um remédio e dizem: esse medicamento foi testado num universo de mil pessoas e curou x%, e deu tais efeitos colaterais em y%. Ou seja, valeu a generalização, sim, mas dentro desse domínio anunciado. O domínio anunciado é justamente as condições pelas quais o laboratório resolveu aceitar a frase “vale generalizar”.

Assim, a ciência moderna só cria algo porque generaliza. E como a generalização, ou seja, a indução, nunca é totalmente certeira, basta então colocar o domínio como sendo um elemento público para que outros cientistas possam refazer o processo de generalização, e as pessoas que vão utilizar o remédio possam saber qual é o grau de segurança do medicamento. Mas nem só da generalização indutiva vive nossa conversação. Temos algo que vai além disso, e que não pertence à linguagem científica, que é a prática da sinédoque. Pertence à linguagem comum.

Tratei disso no livro Filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2015). Ou seja, lembrei da figura de linguagem chamada sinédoque, e que usamos aos borbotões. Falamos que “o carioca é malandro” e que o “baiano é mole”. Mas é claro que não estamos generalizando, estamos usando algo chamado sinédoque, que é tomar um elemento tipológico, ou um esteriótipo (que pode ou não criar revolta), e colocá-lo como representante de um grupo todo. “O inglês é, como todo inglês, bastante pontual”. “Nossa, você foi pontual como um inglês”. “Italiano só sabe falar com as mãos”. “Quem gostaria de dormir com um francês, eles nunca tomam banho”. “Não há americano que não seja pragmático”. E assim vai: são sinédoques ou frases construídas por conta da sinédoque, figuras de linguagem que ajudam no funcionamento da linguagem. Ou seja, não são do âmbito da sintaxe e da semântica propriamente, mas são do âmbito da pragmática. Não falaríamos sem metáforas e metonímias, mas muito menos sem sinédoques. Já imaginou conversarmos assim: “O carioca é malandro, exceto aqueles que moram da rua tal até a rua tal portadores do RG tal e tal etc.” A sinédoque é sempre um facilitador e ao mesmo tempo um trabalho de tipologia que a linguagem tem no seu interior como parte de sua alma. A sinédoque não é uma generalização, apenas parece, e é altamente aceitável. Não entende-la, não perceber seu espírito e dizer, contra ela, “não vale generalizar”, é algo imbecil.

A generalização é válida, e se torna legítima quando damos o domínio. A sinédoque é válida, e se torna legítima segundo a tradição folclórica envolvida nos vocabulários.

Espero que, de uma vez por todas, esse assunto fique resolvido.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 20/02/2017

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8 Responses ““Não vale generalizar” continua sendo uma frase do desescolarizado”

  1. Roberto
    09/03/2017 at 14:41

    Paulo vc viu o discurso do Temer sobre o dia das mulheres? O povo do facebook reprovou com força o suposto machismo, pelo fato dele ter falado que a Marcela é uma boa mulher por educar os filhos, cuidar de casa e administrar as finanças. Na minha interpretação ele não desmereceu as outras mulheres, mas apenas usou a dele como referência. Isso me lembrou esse lançe de sinédoque ou coisa do tipo. O que vc acha? Veja o link https://www.facebook.com/quebrandootabu/

    • 10/03/2017 at 10:02

      Roberto o feminismo cada dia mais fica tonto.Mas o discurso dele não é o uso da sinódoque.

    • Roberto
      10/03/2017 at 11:04

      Bom logo no início do vídeo ele disse que quem faz a educação dos filhos são as mulheres. E vc disse: “sinédoque, que é tomar um elemento tipológico, ou um esteriótipo (que pode ou não criar revolta), e colocá-lo como representante de um grupo todo.” Eu entendi que Temer colocou a Marcela pra representar as mulheres brasileiras. Senão, onde errei no raciocínio? Poderia me ajudar.

    • 10/03/2017 at 11:49

      A sinódoque não é um argumento, é figura de linguagem: “a mulher é caseira”, isso é uma expressão com sinédoque.

  2. Jonas Siqueira
    21/02/2017 at 09:39

    Professor, até eu mesmo, inadvertidamente, usava essa frase: “toda generalização é burra”. Ou então: “não generalize”. E na escola estudei todas as figuras de linguagem e de pensamento, inclusive a sinédoque. Porém, nenhum professor, que me lembre, nunca nos esclareceu, como o senhor faz neste artigo, a respeito dessas sutilezas da linguagem. Ouço essas frases inclusive na mídia, rádio e televisão, por exemplo, em vários programas jornalísticos, por profissionais da área.

    • 21/02/2017 at 10:02

      Jonas a filosofia é exatamente para nos fazer repensar nossa linguagem. É fazer o que os palestrantes de auto-ajuda e os neo-auto-ajuda negam.

  3. LMC
    20/02/2017 at 15:09

    No Brasil,a esquerda não gosta
    que a Globo faça aqueles
    comerciais do Agro e a direita
    não gosta que a Globo critique
    o coitadinho(?)do Trump.
    Pode isso,Arnaldo,ops,PG?

  4. Brandamente
    20/02/2017 at 12:50

    Lembro também de um dos melhores contos do Borges, Funes o memorioso, que incapaz de generalizar teve que se trancar no escuro.

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