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28/04/2017

Não permita seu filho ser corrompido pelo autodidatismo


A maior parte dos pais, se são mentalmente sadios, querem que os filhos sejam autônomos e independentes. Querem que eles se preparem para enfrentar o mundo, e que não voltem à barra da saias por qualquer coisa. Todavia, no Brasil a ideia de autonomia às vezes é atropelada pela ideia de autodidatismo.

Incute-se na cabeça da criança que a escola e o professor ou professora não valem muito, que ele, criança solitária, vale mais, e isso no sentido da promoção da chamada “arrogância do ignorante”. Em algumas famílias cultiva-se a ideia de que tanto faz a escola e tanto faz a universidade, que o bom aluno estuda sozinho, vence sozinho e se torna uma pessoa culta e bem formada. E eis que alguns até acham que isso é realmente verdade. Cria-se a miragem do “self made man” da educação.

Autonomia intelectual corresponde à capacidade de formular problemas, equacionar situações, procurar caminhos que não dependam da autoridade externa para tais problemas e equações. Tem a ver com a ideia iluminista expressa por Kant, de buscar julgar as coisas pela própria razão. Mas isso não significa tomar aqui “a própria razão” como uma atividade racional que se faz de modo solitário. Ou seja, não há que se confundir o chamado do Iluminismo, sapere aude! (ousai saber), com atividades de soberbo autodidatismo. Não raro, o elogio do autodidatismo está voltado para uma concepção completamente errada sobre como conseguir autonomia. O autodidata exagerado é sempre o menos autônomo. Ele se acostuma a lidar com o livro, mas o livro sozinho não é bom companheiro.

Sócrates no Fedro, de Platão, foi bem claro quanto a um outro defeito do livro: ele sempre nos dá a mesma resposta, ele não tem agilidade da conversação dialética que, diante de uma mesma pergunta, pode voltar e dar respostas diferentes. Ora, por isso Sócrates não gostava do livro (ainda que lesse ou escutasse leitores), por ser um instrumento muito amigo dos que não tem agilidade mental.

Aquele que fica na solidão junto com o livro, acostuma-se a não abrir o livro que o contrária, ou fechar um que, aberto, começa com ideias que não o apetecem. O livro é, na mão do autodidata, aquela esposa ou marido submisso que você, bem grosseiro, manda calar a boca, fechando-o e jogando-o no canto, ou devolvendo à estante. Ou pior ainda: criticando-o sem te-lo amado, sem te-lo adotado, sem ter conseguido pensar a partir dele. Esse autoritarismo contra o livro é a prática comum daquele que acha que autodidatismo é bom. Aliás, muitos escolhem o autodidatismo exatamente para não serem contrariados. Deleta-se a escola e deleta-se os colegas porque são ambientes e pessoas que trazem contrariedade, desafio, pensamento oposto, objeções de todo tipo. Esquece-se com isso que, na verdade, para a boa formação, os professores não podem ser deletados. Eles dão nota, corrigem, ensinam e, quando ensinam errado, obrigam o aluno ao exercício de alguma argumentação. Os colegas na escola fazem o mesmo. Colocam pedras no caminho, tanto do ponto de vista intelectual quanto moral e sentimental. O autodidata foge disso tudo e passa a conviver com o livro, querendo ser o senhor da atividade de deletar, fechar, parar, não argumentar. O autodidata não cresce autônomo, cresce meio que estúpido e infantil exatamente na proporção de seu frescura, de seu bater pezinho. Todos os outros são menos que ele, ele é um gênio incompreendido! Pensa estar entendendo algo, mas por falta do diálogo vivo, cresce sem feedback e às vezes adota caminhos sem nexo, passa por ridículo, e não percebe.

Quanto mais cedo uma criança se torna autodidata, incentivada a ter autonomia, mais ela constrói para si um caminho impossível de levá-la a qualquer autonomia. Ela se torna um reizinho, um birrento, aquele adulto que se pensa sabichão ou então aquele adulto que imagina que pode contestar saberes clássicos com qualquer frase; passa para o campo do que chamamos hoje de um “sem noção”. Não raro, gente assim gosta de ensinar, mesmo não tendo diploma, menos não tem capacidade – acham que possuem, claro, uma vez que são eles mesmos que se autorizam como professores! Quer fazer os outros engolirem suas verdades, sem argumentos. Não aprenderam a argumentar porque fugiram dos ambientes de argumentação que mal ou bem se fazem na escola. Os colegas e o professor são desafios, sendo eles inteligentes ou não. O gênio autodidata se afasta, no fundo é um covarde que não suporta desafios. Tem pavor de exames e provas. Ele se acha genial demais para conviver com outros tão inferiores. Ele soma 2 + 2 = 5 e então diz que saiu da escola porque não aceitaram sua nova matemática.

Criar um jovem para autonomia intelectual é antes de tudo colocá-lo no convívio constante do saber ouvir e saber argumentar e, fundamentalmente, saber mudar de opinião. Isso se faz no coletivo. No mundo atual, principalmente na escola.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 06/02/2017

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16 Responses “Não permita seu filho ser corrompido pelo autodidatismo”

  1. Fabrício Alves Peixoto
    21/03/2017 at 22:49

    Na opinião do amigo, home-schooling ao estilo americano se enquadraria em uma metodologia que pende ao auto-didatismo ou é possível gerar dialética nesse processo?

    • 21/03/2017 at 23:54

      Home-schooling é uma completa farsa e uma terrível escravização da mulher, da mãe que vira professora.

  2. Paulo Almeida
    16/03/2017 at 15:06

    Pode-se dizer que tanto a filosofia quanto a ciência são atividades feitas em confraria, em grupo. Não discordo em nada do que o filósofo escreveu, apenas faço uma ressalva, dividindo o processo em duas partes: o ato de estudar e o pós-estudo com a discussão em grupo. Penso que o tipo mais introvertido não apresenta um bom desempenho quando forçado à exposição, principalmente em grupos grandes. O que ocorre com frequência é que o sujeito extrovertido se destaca mais por conseguir se expressar melhor, mesmo quando suas ideias são pífias e intelectualmente inferiores. Minha preocupação é estarmos perdendo mentes brilhantes por conta disso. Creio que a discussão feita por escrito – como ocorre aqui no Facebook – facilite a vida de quem aprende melhor ‘sozinho’ e nem por isso é um autodidata.

    • 16/03/2017 at 18:25

      Paulo Almeida você está tomando a filosofia como atividade escolar. Ela não é isso. E eu acredito que boa parte do que se faz em filosofia serve como instrução para didática de outros assuntos.

  3. Thompson Muniz
    18/02/2017 at 17:17

    Seu texto me faz recordar o caso daquele Pastor pedreiro que alegava poder ter casos extraconjugais baseado na Bíblia.
    Aquela situação exemplifica de forma tosca a questão do Autodidata, pois fez-se necessário a presença de um Jornalista para explicar ao tal “Pastor” de que a palavra correta impressa na Bíblia era “Adúltera” e não “Adultera” conforme o pedreiro entendia.

    Para quem não acompanhou o caso, segue o link: https://www.youtube.com/watch?v=8fqDa8RPt0o&t=8s

    • 18/02/2017 at 17:24

      Muniz é mais ou menos isso a vida de Olavo de Carvalho e outros parecidos.

  4. Leonardo
    08/02/2017 at 00:04

    O autodidatismo é péssimo mesmo… Deve ser por isso que no Brasil não temos Homeschooling, mas sim o matavilhoso “método” Paulo Freire. Pobre dos EUA….

    • 08/02/2017 at 08:06

      Leonardo eu tenho um livro sobre Freire, leia. Você NÃO sabe o que falo. Freire é o oposto do autodidatismo. Aliás, uma lição dele: fale sobre o que sabe, não alimente preconceitos.

  5. kelton
    07/02/2017 at 23:48

    O ideal é juntar o autoditatismo de pascal (a forma como aprendeu Euclides…), com a regra dos pitagóricos de que o estudante devia ficar cinco anos apenas ouvindo aulas antes de falar.
    Essa fala do Sócrates é ótima,
    me lembra a crônica do Ruben Alves “os perigos da leitura”
    Parabéns

    • 08/02/2017 at 08:09

      Kelton! Pascal não aprendeu Euclides sozinho. A geometria euclidiana é intuitiva. Uma pessoa bem escolarizada como ele, pode fazer as “descobertas”.

  6. Joao Pedro Doriga
    07/02/2017 at 22:33

    Não há mundo sem a presença completa, mas, nem toda sabedoria nasce da presença.

    Vejo o diálogo e o professor como riquezas infindáveis de presença imperceptíveis (em toda sua linguagem lato sensu) e de alto grau de transformação e cultura.

    Mas, isso tem limites. Para os que passaram dos 40, os mestres poderiam ser dispensáveis, se o sujeito passou, pelo menos, 35 anos estudando corretamente.

    Isso não contraria o texto, a meu ver.

    Mas, a omissão do texto está nas atividades que o desenvolvimento independe do outro ou a presença é implícita em um mundo de outras linguagem.

    A área de tecnologia hoje aposta nesse ser que não é solipsicsta, pois seu consiente é regrado pelos padrões e limites da tecnologia. Entretanto, o professor é um ser estranho que não possui linguagem para passar as experiências (caso tipico de programadores bons).

    Vai ver essa é a sensação de alguns apostarem na solidão do autodidata. E também tem a questão dos testes padronizados que é uma maquina de autodidata(tentativa e erro).

    Mas, sem professor e diálogo, somos apenas doentes mentais.

  7. 07/02/2017 at 13:04

    Esqueci de mencionar um exemplo famoso na História da Filosofia: Blaise Pascal(1623-1662(. No mais, concordo plenamente com você a respeito do estudo formal em uma escola regular. Obrigado por ter me esclarecido sobre os riscos do autodidatismo solitário, pois até a data de hoje imaginava, convictamente, que estava no caminho correto de ter acesso ao Conhecimento. É uma reflexão que vale a pena ser feita por todos nós. O passo seguinte é escolher o melhor curso e dedicar-se de corpo e alma a ele, estudando, lendo e, sobretudo, correlacionando-se de forma profícua com os colegas e professoresno decorrer do curso.

  8. 07/02/2017 at 12:44

    Paulo, você deve ter mais elementos históricos que eu, mas na História da Filosofia e até mesmo das Ciências em geral, casos em que o filósofo ou cientista foi capaz de fazer-se por si só, sem nunca ter, por motivos diversos, frequentado alguma escola ou curso acacadêmico. Não só filósofos e cientistas, mas também, músicos, escritores, artistas, etc. Sei, por outro lado, que devemos levar consideração o contexto histórico, bem como a cultura do país e o ambiente sócio-familiar de cada um,além dos aspectos psíquicos nestes casos. Foram pessoas altamente inteligentesem suas respectivas áreas de atuação. Ainda não deci ao mundo dos simples mortais, no qual me incluo.

    • 07/02/2017 at 13:29

      Charles toda vez que escrevo sobre autodidatismo, por mais que eu explique, sempre aparece alguém como você querendo se iludir. E em geral citando exemplos errados. Leia meu texto novamente. Leia com cuidado.

  9. Diego Rodrigo da Silva
    07/02/2017 at 11:07

    Muito Bom o texto!

    Sou Muito autodidata as vezes,leio muito e vejo que quanto mais se lê ou estuda sem a orientação a chance de se perder é muito grande.

    Minha Convivência universitária me fizeram crescer(da pior maneira possivel) cada dia é um tapa na cara do meu autodidatismo. Ainda continuo aprendendo com algumas dificuldades mas vou me aprimorando de maneira devagar.

    A experiência e o exemplo dos professores e por vezes a paciência que demonstram são essenciais.

    Abraços Paulo!

    • 07/02/2017 at 13:30

      Diego a questão do Sócrates no Fedro é fundamental.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo