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23/11/2017

Michelzinho Temer, eu e a liberdade


Michelzinho Temer vai para Brasília. Seu pai acha inadmissível os protestos diários em frente de sua casa, em São Paulo.

A bela esposa de Temer, e mãe de Michelzinho, também reclama. Então, o melhor é todos se mudarem para a capital da República, aquela criada por Juscelino e que serviu para facilitar o distanciamento dos políticos das cobranças populares e, ao mesmo tempo, deixar o Rio de Janeiro se transformar no gradual lixo atual. Michelzinho, então, vai para Brasília, frequentar aqueles colégio de ricos bem ricos. Afinal, ele não é só filho de rico, ele é rico. Ele é o reizinho da nação.

Olhando essa cena, lembrei-me dos meus filhos, o colégio que fizeram e, também, o que eu fiz. Eles já no colégio particular, eu ainda na boa e velha escola pública. Lembrei-me também de como são os tais “determinantes sociais”, os que nos fazem ser aquilo que deveríamos nos tornar. Cada um com a sua história, cada um com a sua liberdade possível e, enfim, cada um com a sua prisão. Não trocaria a minha liberdade pela falta de liberdade de Michelzinho! Nem pensar. Ou seja, não trocaria a liberdade que o Brasil me deu pela prisão que o Brasil reservou para Michelzinho.

Meu avô materno era de Matão, interior de São Paulo, filho de imigrante sírio libanês – como Temer, lá da cidade de Tietê. Seu pai faliu e logo morreu, deixando-o como guarda de inúmeros irmãos. Estudou em colégio de padres. Fez o ginásio somente. Tornou-se rábula e, enfim, tendo o Exame da Ordem nas mãos, passou a ser um advogado de sucesso. Foi advogado de Adhemar de Barros, na época em que este esteve no governo de São Paulo. Por essa razão eu não nasci no interior, e sim na capital, em 1957. Por sua vez, minha avó materna era de Nova Europa, filha caçula de coronel. Era da família Arruda, a mesma da Condessa do Pinhal, em São Carlos. Lá atrás, na raiz, havia mesmo ali era antes sangue judeu que português. Foi esse casal que fez uma filha orientadora educacional, minha mãe. Ela trabalhou uma vida com meu pai, professor e diretor de escola pública no interior e na capital. Meu pai era neto de imigrantes italianos e filho de um proprietário de uma pequena companhia de construção, um fazedor de casas, prédios, sistemas de água e igrejas. Este meu avô manteve a tradição de uma família de desenhistas e construtores com uma característica profissional marcante, que encontramos matriz na Itália, até hoje, especialmente no estilo das torres e igrejas. Meu pai veio de uma família de nove irmãos e, por isso mesmo, teve um filho só. Era para que eu tivesse uma vida de classe média, sem dificuldades. E assim foi comigo e assim eu fiz ser com os meus dois filhos.

Passei a infância na casa do meu avô materno, no interior de São Paulo. Aprendi com ele a disciplina noturna da leitura da filosofia, do capricho na dissertação, na atenção para com a política. Diferentemente, meu pai era de uma disciplina diurna. Fazia-me acordar de madrugada para ir com ele dar aula. Ele havia sido o único filho a ir para a universidade, a USP, e esperava de mim, creio, algo semelhante. E assim se fez. Cursei Educação Física e, bem mais tarde, já com títulos de doutor e mestre nas mãos (tanto na Filosofia da Educação, na PUC-SP, quanto na Filosofia, na USP), fiz o bacharelado em Filosofia, na deliciosa Universidade Mackenzie – uma jardim de mulher bonita. Uma carreira meio de ponta cabeça, com alguns bons anos num curso de Física da Federal de São Carlos. Mas, que foi sempre uma boa forma de lidar com a filosofia, isso foi, sem dúvida. Às vezes fugi dela, da filosofia, e ela sempre veio me buscar.

Quando olho para mim, hoje, enxergo a face dupla do meu pai e do meu avô materno. Não convivi com meus avós paternos, mas, se tivesse convivido, certamente os enxergaria  em mim. Posso enxergar muita coisa de minha avó materna e de minha mãe, claro, mas gente da minha geração foi ensinada a ver-se no espelho, se homem, como réplica de pai e não de mãe.

A grande vantagem que levei na vida foi a de ter tido alguma propriedade para pode vender, sem ter de administrá-la. Cresci com o espírito de ter salário, não o de ser empresário ou sitiante. E isso me fez não passar meus dias no interior e nem ser escravo da terra, da empresa. Sempre pude seguir estudando, o quanto quis e como quis. A falta de terras e de poder político, e também a grande vantagem da vida que se vive segundo um salário, tanto a minha quanto a de meus pais, me deram liberdade, e como eu gosto dela! Seria ridículo, hoje, eu não acreditar que o aparato governamental brasileiro republicano, em busca de construção de um Welfare State, não me fez o que sou. Claro que fez. Meu avô cresceu muito como advogado na sua estadia no Palácio dos Bandeirantes. Meu pai e minha mãe foram educadores na escola pública e conseguiram ter uma boa vida. Eu fiz minha vida como filósofo, professor de matemática em escolas rurais e urbanas e, depois, professor de filosofia em universidades públicas e privadas. Ao contrário de outros, cujas posses trouxeram uma prisão, o dinheiro sem grandes posses me trouxe liberdade. Eu usei e abusei dela. Poucos fizeram tudo que queriam como eu fiz e ainda faço. Dou-meu ao luxo de ter um CEFA, hoje, um lugar para a pesquisa e ensino de filosofia totalmente gratuito, e para um público seleto.

Há certas determinações paternas ou maternas, ou por vínculo com a propriedade ou com a religião ou com certo tipo de poder que, ao contrário de dar liberdade aos rebentos de quem está metido nisso, só traz cadeados. Como dizia meu pai: temos sorte de sermos classe média. Temos a liberdade dada pelo estudo. Concordo com ele. A universidade muitas vezes me soou como uma prisão e, de certa maneira, foi mesmo. Mas, teria sido eu mais livre na fábrica, na cadeira empresarial executiva, num escritório ou na linha de produção? Teria sido eu mais livre administrando colonos num sítio ou sendo um deles? Teria sido eu mais livre num cargo político? Certamente não! Aliás, para tolerar o meu gênio, só mesmo algo como a permissibilidade da universidade. Claro que até isso eu quebrei, sendo empurrado para fora de várias delas e tendo eu mesmo empurrado algumas para fora da minha vida – junto de algumas amizades, pois para dispensar amigos e quebrar laços, ninguém é mais afoito que eu. Mas, é que eu sempre sonhei com a liberdade máxima, inclusive a de ousar ficar desempregado por certos momentos, só para provar que a filosofia é mesmo um lugar de gente que toma antes cicuta que vinho. Ser livre e não precisar ceder, não ter que bajular, não escrever com auto-censura. ?Que beleza! É tudo o que um filósofo quer, e é tudo que meus colegas de profissão, mesmo os filósofos, não fazem, não podem fazer. Vivem como se tivessem sido herdeiros de fardos. Fardos do Michelzinho. São reizinhos sem trono.

Ser livre! Parece que é isso que Michelzinho não poderá experimentar. Não fico com dó dele, apenas lastimo que no Brasil os principezinhos não possam fazer como eu fiz, frequentar a boa escola pública. Aliás, nisso os principezinhos acabaram se igualando ao resto da população, afinal, a boa escola pública não existe mais, ninguém irá poder frequentá-la.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo.

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7 Responses “Michelzinho Temer, eu e a liberdade”

  1. Matheus
    15/06/2016 at 15:11

    Obrigado pelo texto, Paulo. Agora percebi porque tenho estado mal por tanto tempo… escolhi a pior prisão possível. Uma profissão que não tem absolutamente nada a ver comigo, e hoje em dia esperam tanta coisa da gente… essas expectativas externas começam como laços e terminam como correntes de ferro… chega uma hora que você já tá condicionadinho, amarrado, dominado, domado sob o cabresto, mas eu não consigo ficar assim, preciso dar uns relinchos bem barulhentos e desengonçados.

    Lógico que em qualquer lugar vamos nos deparar com isso, mesmo nas universidades ( o que está numa crescente), mesmo como filósofos, acho que o pulo do gato está em sermos “decoradores de ambientes/engenheiros/arquitetos” com engenhosidade suficiente para criar nosso próprio espaço para a liberdade, índios sabem fazer suas ocas, alguns animais sabem fazer seus ninhos, cada um tem a sua habilidade para construir a sua própria morada, onde se pode ser livre e feliz, não existe oca ou fôrma-padrão. Cada um tem que testar a sua, e no fundo, isso tem muito mais a ver com nossos retrospectos do que com grandes sonhos.

    Gostei de conhecer um pouco mais da sua história. O triste é que a história que o Michelzinho vai ter pra contar não vai ter graça nenhuma, isso se ele conseguir formular alguma história na cabeça dele. Que deus o ajude a pelo menos isso…

  2. Eduardo
    15/06/2016 at 00:41

    Paulo, o que você pensa sobre o Mário Ferreira dos Santos? Ele é uma boa referência em filosofia?

    • 15/06/2016 at 07:59

      Eduardo, extra-academia, meio auto-didata, não tem nada a ver.

  3. Franklin Mariano
    14/06/2016 at 15:26

    Nossa Paulo! Que texto bem escrito. Voçê usa um estilo de escrita que demonstra que voçê é, de fato, livre.
    Quanto ao Michelzinho, voçê disse o que tinha para dizer.Eu Espero que depois, no futuro, ele volte para São Paulo e não fique em Brasília. Já pensou ser criado numa cidade sem calçadas, esquinas, cheia de elefantes brancos ? Não deve ser algo bom para crianças.

  4. Max Paim
    14/06/2016 at 13:43

    Tomar cicuta e não vinho para não abandonar a filosofia, quando havia oferta de emprego de favor político e continuar desempregado procurando eu mesmo algo foi o que fiz neste final de semana. E ainda ouvi um “tu não vai mudar o mundo”.

    • 14/06/2016 at 13:57

      Felizmente eu não quero mudar o mundo, Paim. Tenho tentado, no máximo, mudar a mim.

    • Max Paim
      14/06/2016 at 16:22

      Não, nem eu. Eu quero novas decisões que espantem a mim e aos outros. Gosto quando dizem “tu fazia isso até pouco tempo” ao verem mudanças em mim.

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