Go to ...

on YouTubeRSS Feed

22/10/2017

Karl Marx, o coxinha e o ENEM


Caso Karl Marx fosse o elaborador das provas do ENEM, dificilmente haveria alunos de cabeça dura, de extrema direita, reclamando. É que uma das diretrizes de Marx, ao menos em uma das suas investidas pelo campo pedagógico, veio por um viés típico do século XIX.

Marx deixou explícito que, na escola básica, não queria nem saber de matérias como história ou filosofia e coisas semelhantes, o que depois veio a se chamar “ciências humanas” ou “humanidades”. Ele escreveu que desejava que os alunos tivessem aulas somente de matérias pouco interpretativas, aquelas que poderiam ser ministradas tanto por um padre  quanto por um burguês ateu ou qualquer outro. Matérias sem viés doutrinário, era o que ele queria.

No decorrer do século XIX e, enfim, em todo o século XX, esse dogma do “conhecimento neutro” caiu por terra. Há conhecimentos que não são diretamente relacionados às doutrinas políticas, claro, mas nenhum é neutro. O ponto de vista do Olho de Deus não vingou, e o que foi sendo adotado, aqui e ali, cada vez mais, foram normas para se conseguir não neutralidade, mas uma objetividade razoável e, então, uma capacidade de, nas democracias liberais, privilegiar de um lado a erudição e de outro a criatividade. A ideia de Marx ficou lá no século XIX. Aliás, quando nasceu, já era uma ideia datada.

Quem defende hoje algo parecido, mas mais tosco, são de fato, não raro, os conservadores. Eles acreditam que se alguém pede, em uma prova, para se interpretar Paulo Freire, que é um clássico do pensamento brasileiro, é um fervoroso esquerdista. E pior, ele acredita que só irá passar no exame quem for adepto de ideias freirenas (ou ao menos é essa a desculpa que dará se não passar). Esse tipo de estudante é aquele que se diz liberal, mas que se perguntarem para ele sobre Adam Smith ele vai apenas dizer que “odeia o PT” e que “tudo é culpa da Dilma” e que o “comunismo do governo está acabando com o país”. É o rapaz que, aos tranco e barrancos, lê alguma coisa: a revista Veja.

Esse estudante é aquele cuja mãe denuncia sua escola (particular e cara) porque esta fez uma excursão por uma favela. Ou seja, não é a mãe coxinha com alguma visão de integração social, ainda que tola, é a mãe coxinha que realmente imagina que intervenção militar e ditadura são coisas boas. E o filhinho é aquele coxinha que manda cartinha para direitosos da imprensa denunciando professores, igualzinho fazem os membros do PSTU ou fanáticos do PT, do lado contrário, na universidade. Esse aluno é aquele que, junto com a mãe e o tio, foram para a Av. Paulista com a faixa “Military Intervention Already”. Isso virou meme, e então esse trio corrigiu e colocou: “Army Intervention Already”. Depois dessa lição de línguas, declararam que iriam para Miami!

Esse grupo de direita não é grande, mas faz barulho. E o pior, é alimentado por colunistas até da Folha de S. Paulo a continuarem o cultivo do analfabetismo. Aliás, há colunista na Folha que escreve contra Paulo Freire sem nunca ter lido uma obra desse autor, e se acha inteligente. É o tipo de gente que alimenta esse aluno que, enfim, segue o Marx do século XIX, quanto à pedagogia.

Temos de rezar para que o ENEM elimine esse sujeito, que não sobre vaga em curso nenhum público para ele.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Tags: , , , ,

36 Responses “Karl Marx, o coxinha e o ENEM”

  1. Luh
    27/10/2015 at 07:28

    Pois é, assim, não faz sentido, um estudante que ainda não sabe nada da vida querer dizer que Marx não presta e afins. Sendo que no máximo leu só algum resumo ou comentários sobre o mesmo na internet. E nunca leu um livro escrito por ele. São os mesmos estudantes presunçosos que desrespeitam o professor na sala de aula, por acharem que sabem mais do que o professor.

  2. Silvia
    26/10/2015 at 11:48

    Paulo, vc diz no seu face que Tristão de Ataíde foi um conservador mas nos anos 60 ele não tendeu a esquerda católica? Tanto que ele combateu a ditadura militar.

    • 26/10/2015 at 11:52

      Sílvia a ditadura militar era uma ditadura, uma ditadura Sílvia. A maioria dos perseguidos tiveram guarida na Igreja Católica. A PUC não perseguia as pessoas, ela não tinha gente como Pondé para ficar querendo fechar cátedra Foucault junto com bispo reacionário (despedido pelo Papa de sua função no Vaticano).

    • Silvia
      26/10/2015 at 12:14

      Roberto Campos e José Guilherme Merquior também foram grandes autores?

    • 26/10/2015 at 13:13

      Na minha opinião, um saco de ler, com uma adesão ao conservadorismo às vezes babaca que tirava deles os momentos de acerto. Autores muito ideológicos acabam jogando fora o que possuem de bom

    • LMC
      27/10/2015 at 14:45

      Sílvia,o Roberto Campos é
      muito bom.Já o Merquior…..

    • 27/10/2015 at 17:27

      LMC cá entre nós, o Roberto Campos era uma besta.

    • LMC
      28/10/2015 at 13:16

      O RC foi uma besta que fez
      o FGTS,imagine se ele não
      fosse.Pois é….

    • coxinhamaster
      28/10/2015 at 21:51

      Falou certo,na sua opniao……….

    • 29/10/2015 at 00:40

      Coxinha, esse “na sua opinião” não demonstra inteligência.

  3. Antero Kowalski
    26/10/2015 at 10:36

    Paulo,antes de mais nada,gostaria de deixar bem claro que li sobre Freire,conheço alguma coisa de Marx(provavelmente mais que muitos marxistas de DCE),li Mises. Espero que entenda que sou bem diferente desse perfil “coxinha” que vc descreveu no texto(sim,há esse tipo de gente que você citou,admito). Bom,vamos lá: Até entendo a importância de se estudar Paulo Freire,Marx,Beauvoir,Focault e essa galera toda,mas o grande problema,ao meu ver, é que querem colocar os pensamentos desses(grande parte relacionados à doutrinas políticas) como únicas verdades absolutas e tentam desqualificar qualquer corrente de pensamento contrária,sei lá,acho isso errado. Se querem fazer o aluno ter visão e pensamento crítico,não seria interessante apresentar para ele “os dois lados da moeda”?

    • 26/10/2015 at 11:38

      Antero não existe dois lados da mesma moeda. Esse é o problema. Existe mil lados de mil moedas. Agora, o critério do ensino médio no mundo todo é o conhecimento dos clássicos. Mises não é importante como teórico liberal, não é um clássico. Adam Smith, Locke e Nozick o são. Não entender o que é um clássico é que faz os que se acham não-coxinhas como você virem aqui exigirem “dois lados”, imaginando que o ensino é como jornalista de principiante, “ver os dois lados”. Não é. O clássico exprime o particular como universal. Platão faz a República, é super grego aquilo, aliás, mas ganha universalidade, todo mundo lê a República e vê uma teoria, uma utopia, uma metafísica, uma pedagogia etc. em diversas épocas e lugares. Sacou agora? Obrigado por ler minhas coisas e comentar de modo que eu possa responder.

    • coxinhamaster
      28/10/2015 at 21:43

      Parece que uma caracteristica comum dos classico e a sua capacidade em transcender o seu limite espaco-tempo.E transcendental na inteireza da palavra.
      Assim o estudo de um classico e importante em si mesmo.E nao importa a “filiacao ideologica do autor”,O estudo do classico Marx e tao importante quanto o estudo classico de Smith ou Durkheim.
      A ideia seria essa(pergunta)

    • 29/10/2015 at 00:42

      Transcendente, Coxinha, transcendental é outra coisa.

  4. Matheus Kortz
    26/10/2015 at 09:06

    Li em alguns portais, inclusive no IG que segundo professores excelentes de redaçao. O enem esse ano, nao admitirá “posições contrarias ao tema” e se o tema é “persistencia da violencia contra a mulher no brasil” creio que a unica negativa seria defender a inexistencia da violencia contra mulher.mas tenho medo, com os salários mal pagos,que is corretores saiam reprovando qualquer “machista” quando jovens de memos de 20 anos nem sabem o q a palvra significa, pa nem mesmo as grandes atuais defensoras do feminismo sabem o que raios a palavra-fetiche significa…

  5. Jokas
    25/10/2015 at 15:02

    Eh verdade que caiu o Olavão no Enem deste ano?

    • 25/10/2015 at 18:36

      Olavão sempre cai: cai do cavalo. OU seja o burro cai do cavalo.

    • coxinhamaster
      28/10/2015 at 21:33

      kkkkkkkkkkkkkkk,essa foi boa

  6. 25/10/2015 at 14:49

    Saudações. Só gostaria de acrescentar que tenho visto pessoas que se dizem formadas em boas universidades públicas como a UNESP, aderirem ao discurso reacionário (“coxinha”) cheio de falácias e retórica. Pensei que isso não deveria ser possível, mas acontece até em quantidade maior do que eu gostaria de constatar. E o Facebook se tornou a ferramenta favorita para a promoção desse tipo de discurso. Tem se tornado cansativo. rsrsrs Abraços!

  7. José Silva
    25/10/2015 at 13:58

    É muito fácil ser um coxinha ou um quibe, é só colocar a culpa da sua burrice em não conseguir realizar provas de interpretação de texto na “educação doutrinária esquerdista”, ou “na educação capitalista burguesa e alienante”.
    Aposto que a revista Veja na semana que vem, com seus arautos da educação pública brasileira (todos economistas, é claro, porque educador não sabe de educação), irão “denunciar” o “esquema bárbaro de sequestro ideológico implantado pelo PT pra se manter no poder”.

    Vida que segue.

    • LMC
      26/10/2015 at 12:27

      Zé,o Marcelo Rubens Paiva escreve,
      pasmem,naquele jornal comunista
      chamado Estadão.Mas a coluna
      dele tá mais pra Carta Capital.
      kkkkkkkkk……….

    • coxinhamaster
      28/10/2015 at 21:46

      Temos a propensao imensa a crer em “Teorias da conspiracao”.DIrao que isso faz parte de uma doutrinacao visando uma nova ordem mundial(ate a cor de marte,o fenomeno lua de sangue,explosao de nebulosas ,tudo faz parte desse complo )

    • 29/10/2015 at 00:41

      Coxinha, não temos o direito de sermos idiotas, mas alguns, mesmo não tendo tal prerrogativa, rompem com tudo para cair nessa situação.

  8. Marcelo
    24/10/2015 at 22:58

    Ainda bem que o marx se arrependeu dessa visão e se tornou um grande filósofo, estudado em quase todas as ciências humanas e filosofia. Ele abandonou, o que me parece ser um certo utilitarismo, numa interpretação que faço do utilitarismo, onde o mesmo consideraria que história, filosofia, e demais humanidades não são úteis a sociedade. O que seria útil é a matemática, física, química, biologia, já que são cadeiras presentes nas profissões práticas que nós temos.

    Eu tenho amigos coxinhas, que odeiam marx, mas nunca leram o autor, dizem preferir Thomas Jefferson, que parece ser uma espécie de repetidor de idéias iluministas, orginalmente escritas por filósofos como Russeau, Montesquie, Voltaire, ou seja nada de novo. Marx é consagrado pela grande tradição da filosofia, o Jefferson não. Esse tipo de amigo que tenho se acha inteligente.

    • 24/10/2015 at 23:55

      Maarcelo, a visão de Marx nada tem de utilitarista nesse ponto, é apenas um resquício da ideia de tomar as ciências da natureza, que seriam quase que absolutas, como modelo de tudo. Uma ideia típica do século XIX. Sobre Jefferson, os coxinhas nunca leram. Jefferson foi um craque!

    • Marcelo
      25/10/2015 at 21:12

      Sobre Marx acho que viajei na maionese, acho que foi minha ansiedade em comentar, quanto ao jefferson eu até concordo que foi um craque, mas é que nunca vi o nome dele ao lado de Marx, Russeau, Mostesquie, ou o Voltaire, achei que ele fosse um mero reserva do neymar.

    • 26/10/2015 at 11:50

      Jefferson não está ao lado dos clássicos no âmbito geral, mas está no âmbito do pensamento político.

    • Marcelo
      26/10/2015 at 13:04

      Entendi, depois que terminar de ler o que platão e nietzsche vou dar uma olhada nele.

  9. Franklin Mariano
    24/10/2015 at 22:20

    Paulo, com relação a prova do enem, em que pese as falhas aqui acolá, a prova de ciências humanas é razoável e exige um mínimo de erudição histórica e criatividade.

    No caso dos conservadores, existe um problema que voçê entende melhor do que ninguém : falta de alfabetização, baixa escolarização, autodidatismo, ressentimento contra autoridades acadêmicas, despeito, boçalidade.

    Voçê junta tudo isso e o resultado são esses coxinhas que estão dizendo que questão sobre Max Weber é domínio petista no Mec!

    Eu conheço uma penca de professores de história, filosofia, sociologia, destes que ganham mal e dão aula no secundário. É gente que ganha pouco, que é desrespeitado, que dedica a vida ao conhecimento no sentido forte da palavra: estudo dedicado, argumentação rigorosa, respeito pelas fontes históricas confiáveis. São estes professores que que diariamente tem de aguentar as bestas reacionárias que acham que não podem estudar os três porquinhos( Weber, Marx, Durckeim), mas que acha que os professores devem ensinar os três simplórios( Misses, Hayek, Olavo de Carvalho)

    Como jovem me sinto triste em constatar que a ignorância é celebrada e aplaudida com orgulho bufão por uma imensa parcela dos jovens de hoje.

    • 24/10/2015 at 22:23

      Franklin, sim, é triste.

    • coxinhamaster
      25/10/2015 at 09:27

      Nao entendi apenas colocar O Mises e Hayek no mesmo panteao do Olavo de Carvalho.Lembrando que os dois primeiros tem contribuicoes importantissimas no campo do conhecimento humano.

    • 25/10/2015 at 18:40

      Há muita coisa que tem que entender quando não se sabe que Mises é um escritor menor.

    • coxinhamaster
      25/10/2015 at 20:57

      Escritor menor…….ta certo entao

    • 26/10/2015 at 11:53

      Coxudo. É fácil entender isso. Tente.

  10. 24/10/2015 at 22:11

    Já começaram a reclamar do exame? Quando vi o Milton Santos e o Paulo Freire achei que iriam esperar até amanhã para urrar.

    • 24/10/2015 at 22:13

      Já começaram, até o jornal O Globo tirou sarro neles.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *