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19/11/2017

Kant no vestibular da Fuvest – só para quem pode pagar!


O tema do vestibular da Fuvest não permitiu tergiversação. Foi o tema de Kant a respeito do Esclarecimento ou do Iluminismo, contido no célebre texto sobre a menoridade. Poderia ser um tema apenas, solto, sem a exigência de que o estudante viesse a conhecer, minimamente, a filosofia kantiana, ao menos quanto aos três termos técnicos “esclarecimento”, “razão própria” e “saída da menoridade”. Mas não foi isso que o examinador fez, pois ele colocou como referência para a redação os próprios escritos de Kant ou relativos a ele. Desse modo, ainda que a redação possa ser corrigida por alguém com a instrução de dar menos valor ao conteúdo filosófico do que parece ser o caso, é difícil não dizer que o que foi pedido não foi algo de filosofia. Podemos dizer sem medo: a redação foi uma redação baseada essencialmente em filosofia.

Assim, o examinador pressupôs que o aluno tivesse tido, no âmbito do ensino médio, uma referência básica em relação aos clássicos. E o texto Resposta à pergunta O que é o Esclarecimento? (ou Iluminismo), de Kant, é um clássico daqueles que eu e, creio, a maior parte dos professores bem formados, aprova (e pede) que se ensine no ensino médio. Conhecer esse texto é fundamental para conhecer o Iluminismo, e sem se saber o Iluminismo é difícil compreender a física e a matemática, a literatura e a história próprias do conteúdo do ensino médio. Qualquer pessoa com cultura geral razoável colocaria no centro aí do ensino médio textos como este. E não há como colocá-los caso não exista os estudos em filosofia, nesse nível do ensino, sem que tal coisa seja feita por um professor especialista – o professor formado em filosofia – em uma disciplina na grade curricular em forma vertical.

O que Kant diz nesse texto referenciado na prova da Fuvest é que o homem do seu tempo, o século XVIII, está começando a dar passos no sentido de seguir a sua própria razão, e não mais obedecer, acriticamente, poderes tradicionais, ligados as autoridade eclesiásticas e políticas. Mas Kant diz, também, que falta muito, ainda, para que se faça isso segundo o que ele esperava. Ou seja, ele avalia seu tempo não como esclarecido, mas como em esclarecimento. Ele, inclusive, dá uma fórmula para que isso pudesse continuar acontecendo a bom termo, sem graves rupturas (o texto é de 1784, e em 1789 eclode a Revolução Francesa, com o Iluminismo optando pela via das rupturas). Kant entendia que num regime como o que ele vivia, de despotismo esclarecido, o traçado do esclarecimento poderia se manter ruma ao destino. Ele acreditava que um homem, por exemplo, no serviço público, poderia fazer a crítica das instituições estatais em que trabalhava, em nível, digamos, praticamente acadêmico, voltado para um público leitor também esclarecido, mas não poderia, claro, tornar a instituição criticada inviável, estacionada, fazê-la parar de funcionar. Kant optou pela transformação pelo processo educacional, cultural, ou seja, pelo caminhar da pela crítica para quem pode ouvir a crítica.

Esse tipo de saber, que resumi maximante no parágrafo acima, é algo complexo, mas um bom aluno tem condições de fazer sim uma explanação correta do caso, e conseguir uma redação visando uma nota dez. Mas aí é que entra o problema escolar brasileiro: há poucas aulas de filosofia e as poucas que existem estão sendo retiradas pelo governo. O governo quer fazer a filosofia e a sociologia serem “estudos”, reinaugurando a fórmula do tema transversal, e não mais existirem como disciplinas obrigatórias. Aliás, desde 1961, os vestibulares tem se tornado mais difíceis, mais concorridos e, em certo sentido, de uns tempos para cá, mais cultos. A escola particular tenta acompanhar sua evolução. Enquanto isso, a escola pública vê seu caminho dificultado pelo próprio governo. O salário dos professores é ruim e o governo, a cada reforma, torna o ensino médio menos apto para enfrentar o vestibular. Como tanto o vestibular quanto as reformas saem, em certo sentido, do âmbito governamental, é como se tivéssemos um monstro de duas cabeças, em constante luta consigo mesmo. O governo esbofeteia o governo, ou melhor: o governo esbofeteia a escola pública e, assim, deixa os que querem estudar tendo somente a opção de pagar duas vezes, ou seja, pagar imposto e de pois pagar escola.

Assim, ao mesmo tempo que os que fazem o vestibular puxam os alunos para estudarem mais, o governo deixa somente a escola particular e, a contragosto, os institutos federais, acompanharem essa elevação requisitada, pois quanto ao ensino médio público, o que ocorre é que tem havido um empobrecimento geral de matérias propedêuticas à universidade. Com a desculpa de que o aluno vai estudar o que gosta, como se um jovem de 15 anos soubesse escolher o que não conhece, o governo busca tornar a escola média apenas um lugar de recolhimento do que será o rebotalho do vestibular. É a caixa de guardar jovens, mas que não pode ser chamada de escola. Assim, se pudéssemos falar em uma mão invisível que rege a cultura brasileira, eu diria que é a mão de um demônio aristocrata, que visa tornar elite intelectual só os que já são elite econômica. Um país que visa tirar suas elites só de uma classe social, não anda para frente de modo algum. Ninguém no mundo faz isso mais após … ora, após os tempos do Iluminismo! Todas as nações modernas optaram por democratizar o ensino não tornando-o mais fácil, mas tornando-o um bom ensino para mais gente. O Brasil segue na contramão. O Brasil insiste em pedir Kant para os que podem pagar por Kant.

Kant para quem tem dinheiro. Ora, mas nem sempre quem tem dinheiro quer lá entender de Kant ou de qualquer outra coisa!

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 08/01/2017

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12 Responses “Kant no vestibular da Fuvest – só para quem pode pagar!”

  1. Vanessa
    18/09/2017 at 16:59

    Estou um pouco atrasada, mas não aguentei ler o texto e não deixar um opinião.
    Um dos comentários me deixou extremamente irritada, “coitadinhos que acham que devem entrar na USP”, infelizmente como disse o Paulo em seu texto “a elite intelectual são só os que já são elite econômica”. Como desenvolver o intelecto de um aluno de escola pública, que na maioria das vezes nem professor para dar aula tem disponível? Então o merecedor da USP é o que tem “real pendor acadêmico”, aquele que estudou a vida toda em melhores colégios e depois fez o melhor cursinho, este é o merecedor da USP? O pátio da USP esta cheio de meritocracias, AUDI, BMW de alunos que acredito são merecedores.
    Me formei no ensino publico há 12 anos, época que infelizmente o ensino já era precário, nunca tive a aula de Literatura, Geometria e muito menos Filosofia.
    Após ensino médio me formei em Enfermeira, em faculdade particular e com bolsa, claro, porque não tinha viés para passar em uma pública, não apenas porque queria um simples diploma, mas porque não tinha condições alguma de pagar um bom cursinho para passar em faculdade publica.
    Hoje estou fazendo cursinho o melhor da cidade, com o dinheiro que ganho como Enfermeira. E agora com 32 anos estou aprendendo Filosofia, Literatura e infelizmente até mesmo disciplinas básicas de ensino público como Historia e Geografia.
    Além disso tenho que pagar aulas particulares de redação.
    E ai eu me pergunto, todos os dias quando estou na aula, já que nem sempre consigo frequentar todos os dias porque estou cansada do plantão (afinal tenho que trabalhar para pagar por um ensino de qualidade, que deveria ser meu como um aluno de escola pública), como um aluno de escola publica, pode ter a condição de concorrer com a elite?
    Cota ajuda sim, mas “nós” os coitadinhos, não queremos cotas, queremos uma escola pública de qualidade, não queremos ter que pagar por algo que é nosso de direito.
    Ah e me desculpem os erros de português e pontuação, mas estou em processo de aprendizagem.

  2. 10/01/2017 at 13:30

    Paulo, saindo um pouco do tema da redação para falar sobre a reforma do médio. Vários amigos (de esquerda) usam o seu argumento sobre os ciclos eletivos: não se pode escolher o que não conhece. Não tive a oportunidade de me aprofundar nisso, mas fico com duas questões:
    – Esses meus amigos defendem as ocupações nas escolas justamente por valorizar autonomia dos alunos. Não é contraditório alegar que eles sabem cuidar da escola, conseguem ter auto-gestão, mas não podem escolher as disciplinas a serem estudadas?(realço que isso não é a uma questão retórica, é uma dúvida real para mim)
    – Eu dou aula pro 1º ano do E.M em história. É complicado pensar um currículo, pois se eu quiser me aprofundar em alguns temas terei uma limitação temporal enorme (2 aulas apenas, pense que isso é uma hora, de facto, por semana) , a outra saída é fazer repeteco de ensino fundamental em formato de cursinho. Acredito que as outras disciplinas sofrem da mesma ansiedade, pouco aprofundamento e superficialidade. Qual seria sua ideia?
    Abraços
    José

    • 10/01/2017 at 13:37

      Eu não escrevi isso, escrevi o contrário! O vestibular foi um ganho, o governo vai na contramão do vestibular. Kant é uma benção no vestibular, é preciso ter uma escola pública que o ensine. Agora, sobre autonomia dos jovens, não se pode confundir autonomia de iniciativas boas e falsa autonomia para escolher o que não se conhece. O aluno tem de conhecer a cultura ocidental OBRIGATORIAMENTE, e depois optar se avança para um lado ou outro.

    • 10/01/2017 at 13:54

      Pelo que eu entendi você é a favor da filosofia em todo o E.M. Mas isso seria válido para (quase) todas as disciplinas não? Assim, teríamos, por exemplo, no 3º Ano do E.M 10 ou 12 disciplinas (igual hoje). Isso não é um problema? Não leva a superficialidade? Veja bem também me assombra o fato de quase ninguém na escola pública ler kant ou Platão.
      A dúvida é: um ciclo só para ciências humanas aumentaria o tempo de estudo, mas nem todo mundo sairia do E.M com essas reflexões.
      Sem os ciclos parece que, no atual contexto, estamos condenados a superficialidade.

    • 10/01/2017 at 13:59

      Zago essas questões não me preocupam, quanto a número de horas etc. O importante é fazer com que as pessoas saiam da escola média com o mesmo tanto de conhecimento que a minha geração saiu, ao menos isso, ainda que eu tenha sido a turma da transição, que pegou as quase primeiros roubos: eu ainda peguei o latim, o grego e o francês. No terceiro colegial, eu formei uma turma de ciências humanas, e a escola pública autorizou funcionar, repetindo o antigo clássico. Era uma escola pública que dava condições para a classe média e a classe média baixa, e alguns pobres, ganharem mais ou menos a mesma experiência com a cultura ocidental propedêutica à universidade. Para meus filhos terem o quase o que eu tive, tiveram de fazer escola particular. Paguei duas vezes.

  3. Ricardo
    10/01/2017 at 09:19

    Seu texto parece válido como uma crítica a qualidade do ensino público e uma defesa do ensino de filosofia, mas não como um argumento para desigualdade de oportunidades de ingresso pela FUVEST.

    Note que foram oferecidas 1733 vagas para cotistas pelo Sisu, mais bônus de 15% para alunos que estudaram integralmente em escolas públicas pelo inclusp. Então, frequentemente, os alunos de escolas públicas acabam competindo por vagas só entre si e não com alunos de escolas particulares, além disso, se o ensino público tivesse a mesma qualidade do particular, o bônus de 15% seria um privilégio infundado.

    Como sempre, não se pode falar do ônus sem o bônus, minha conclusão é que seu texto defende apenas a melhoria do ensino público é que esse é o único jeito realmente indiscutível de garantir igual oportunidade na FUVEST, devendo ser posto em prática com a gradual extinção das cotas e bônus.

    • 10/01/2017 at 10:25

      Ricardo, meu texto não é argumento de nada, apenas um artigo simples descritivo. Você não entendeu o texto. Ele é sobre como o governo vai para um lado e os exames para outro. E eu acho que os exames estão certos.

  4. Tayson Vasconcelos
    09/01/2017 at 17:04

    E ao mesmo tempo que o Estado não fornece educação pública básica de qualidade, também destina a metade das vagas nas federais para estudantes de escola pública. Ou seja, um possível empobrecimento também para o ensino superior.

  5. Glauco
    09/01/2017 at 11:52

    Ano que vem atendendo a pedidos o tema será “vai curíntia – uma visão sob a perspectiva de Sócrates e Zenon” pra facilitar a vida de todos os coitadinhos que acham que devem entrar na USP apenas porque querem e não por terem real pendor acadêmico…

    • 09/01/2017 at 12:22

      Glauco, eles não querem entrar, poucos querem. A maior parte quer o diploma. De qualquer faculdade. O tema do coitadismo, inventado pela direita, não cola. Pois não esconde o fato denunciado pelo meu texto: um país forma elites intelectuais a partir de oportunidades para todos, e isso inclui uma boa escola pública para os mais pobres. Não temos isso. Temos de ter.

  6. 08/01/2017 at 20:43

    A conclusão do seu texto poderia esperar um pouco mais. Depois do resultado do desempenho dos alunos na questão. Quem sabe nos surpreenderia positivamente?

  7. Cássio Vilela Prado
    08/01/2017 at 19:32

    Gostei do texto, Paulo. Parabéns! Abraços.

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