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20/11/2017

Justiça derruba censura no ENEM, graças ao Escola Sem Partido


A direita é por definição autoritária. Ela preza pela hierarquia posta pelo dinheiro (direita liberal) ou pela raça (extrema direita ou fascismo ou nazismo). A esquerda deveria ser anti-autoritária, uma vez que preza pela ampliação da igualdade, ou seja, pelo fim do “você sabe com quem está falando?”. Todavia, não raro, para eliminar o “você sabe com  quem está falando?” da sociedade, a esquerda propõe uma estranha e contraproducente regra: “você sabe com quem está falando quando vem me dizer ‘você sabe com quem está falando?'”

É mais ou menos dessa forma que a esquerda, ou talvez até mesmo pessoas que se pensam liberais, a partir do MEC, inventou de dizer que ira dar zero “sem mesmo corrigir” a redação do ENEM que viesse a “desrespeitar os Direitos Humanos”. Nessa hora, quem apareceu para defender a liberdade de expressão e, enfim, o caráter essencial de uma redação em prova, que é a liberdade criativa e a garantia de uma avaliação a menos ideológica possível? Fiquem pasmos: os defensores da liberdade são as pessoas, altamente autoritárias e policialescas, do movimento Escola sem Partido. São pessoas que odeiam os Direitos Humanos e, então, pediram para que a Justiça interviesse e não deixasse o MEC cometer a barbárie que queria cometer (ainda que o MEC, cabeça dura, queira recorrer). A Justiça fez vencer a liberdade de expressão no exame. Assim, paradoxalmente, os policialescos defensores do Escola sem Partido, tidos como toscos, conseguiram ser mais úteis ao ensino brasileiro que os mais sofisticados, os que, a partir do governo, querem que nossa juventude leve em grande conta os Direitos Humanos.

A ideia da esquerda e dos liberais que comandam o MEC é errada por uma razão simples: são pessoas que não entendem nadinha de epistemologia. São pessoas que não sabem nada de filosofia da educação. São pessoas que seguem os palestrantes da modinha, que falam qualquer lixo, e dizem por aí que a melhor escola é aquela que ensina diversas posições e promove o debate. Não, isso não é escola, isso é jornalismo. Escola não ensina várias opiniões, escola ensina o que não é mais opinião, mas o que alcançou a consideração de verdade à medida que ganhou condição da máxima objetividade historicamente considerada. Existe esse saber? Sim, existe, nas escolas do mundo todo, dos países mais desenvolvidos, o conteúdo do ensino são os clássicos. Entre o livro do Youtuber do momento e o livro de Machado de Assis, a escola ensina Machado de Assis, e não deve nem mencionar o Youtuber. Como diziam meus professores: entre o quadro de nu, o “Após o banho” de Renoir, e o nu de uma edição da Playboy da Adriana Galisteu, a escola não tem que ligar para o segundo e deve desenvolver o gosto do estudante pelo primeiro.

Mas como se decide o nascimento de um clássico? Ora, essa não é uma decisão do MEC ou de grupos que querem implantar uma hegemonia cultural. Não existe essa atitude perversa. Quem quiser fazer isso está sendo um tonto. A direita não sabe ler direito, não entende direito o que lê e, por isso mesmo, toma de maneira literal e pobre, sem mediações históricas, a frase de Marx que diz que a “ideologia dominante é a ideologia das classes dominantes”. Ele toma uma tal frase segundo um ditado conspiratório. Ele acha que um grupo manda culturalmente no outro por uma razão de preparação partidária, combinação de equipe. Ela confunde a difusão da cultura com a propaganda. Então, ela pensa que uma ideologia ou uma cultura se torna dominante pela quantidade de programas de TV ou coisa parecida. A direita formada por gente policialesca não foi à escola e não aprendeu os processos de transformações culturais que a escola ensina para o estudante da escola média. Sendo assim, ela não percebe que os clássicos se tornam clássicos quando ocorre algo bem interessante: as peças culturais que conseguem jogar o valor particular para o universal se tornam clássicas. Os clássicos são nutridos pelos acontecimentos, atitudes, textos, obras e realizações que elegem o particular para um nível universal, sem que o particular se perca. A música “Sampa”, de Caetano, é um clássico: a experiência do nordestino ao chegar em São Paulo é um caso particular, mas também é a experiência do desenraizado que chega numa grande metrópole, em todos os tempos e lugares. A escola ensina Caetano, mas não o sucesso da Anita, que é abstrato, sempre geral, e cuja originalidade não transmite para a posteridade a particularidade brasileira absorvível pelos desejos de outros povos e outros lugares. Não gera identidade a posteriori. Anita é linda e sexy, mas não pode fazer por outros o que “Sampa” de Caetano faz. A alquimia está para química assim como Anita está para Caetano assim como a física aristotélica está para a física de Galileu-Newton.

Mas o mais triste é ver que a esquerda também não entende o que é o clássico. Então, quando quer educar, ao invés de se pautar pela liberdade, ela desliza para o autoritarismo. Ao invés de soltar modelos de redação em que o tema dos Direitos Humanos, inclusive de crítica a tais direitos, é feita por grandes autores universais, ela inventa de tentar punir pela nota um possível estudante dissidente, aos 16 ou 17 anos. Também a esquerda não sabe trabalhar com os clássicos e, pior, demonstra que aprende com a direita o modo de se colocar bem longe de Paulo Freire, o adepto da “educação para a liberdade”. Educar para a liberdade dizendo para o estudante que ele não pode criticar os Direitos Humanos? Como? Se um estudante não pode execrar os Direitos Humanos, tendo argumentos para tal, como se pode esperar dele que venha a ser um “cidadão crítico” ou um artista da palavra? A esquerda não sabe que Rousseau estreou como literato-filósofo fazendo uma crítica às ciências e às artes num texto que concorreu a prêmio, vencido por ele, instituído uma academia de ciências e artes.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

JUSTIÇA ARRANCA A CENSURA PRÉVIA NO ENEM

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Posted by Filósofo Paulo Ghiraldelli on Thursday, October 26, 2017

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4 Responses “Justiça derruba censura no ENEM, graças ao Escola Sem Partido”

  1. Joelmir
    03/11/2017 at 02:10

    É pq quem crítica não tem argumento algum. Eu vi exemplos de quem levou 0. É só groselha.

    • 03/11/2017 at 09:51

      Joelmir, conheço gente como você, que acha que defende direitos humanos mas, no fundo, defende censura.

  2. Eduardo Rocha
    27/10/2017 at 21:08

    Parece que uma nova onda nazi-fascista percorre o mundo. O Brexit com forte tom nacionalista e os conservadores com a questão da imigração. Os EUA com o caso de Charlottesville. O Brasil com recentes casos do MBL, os seguidores de políticos e os grupos de internet. A Rússia com constantes ataques racistas no futebol e há também na Itália com torcedores de times de futebol.
    O lixo que estava no oceano agora a maré está trazendo para a praia.
    http://espn.uol.com.br/noticia/737671_lazio-organizara-visita-a-campo-de-concentracao-simbolo-do-exterminio-de-hitler-para-tentar-acabar-com-racismo-de-seus-torcedores

  3. Hilquias Honório
    27/10/2017 at 14:05

    Ótimo contraponto! O legal desse espaço é que sempre leva ao pensamento. Querendo ou não, temos que refletir. Ainda não havia visto essa questão da prova, por esse aspecto. Sem os coxinhas, o mundo poderia ser pior!

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