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22/07/2017

Igreja e educação – a importância de ser católico


Sou um filósofo laico. Estudei em escola pública, quando esta era ainda uma boa escola. Mas, me orgulho de ter estudado no catecismo da Igreja Católica, onde a professora Fátima, uma normalista, era bastante dedicada e nós fez aprender o caminho de Jesus e as orações básicas.

Gostei de ter feito a Primeira Comunhão. Herdei desse tempo uma afinidade com a cultura ocidental bíblica que me deu não só uma base moral interessante, mas uma cultura que me poupou cair no estranhamento quando, um pouco só mais tarde, decidi-me pela filosofia. A pior coisa de um filósofo é não ter uma cultura histórica como ponto de partida. A Igreja Católica me deu o Ocidente.

Não reproduzi isso com os meus filhos. Foi uma pena. Mas outros da minha família se incumbiram de educá-los religiosamente. Minha filha tem afinidade com o transcendente, meu filho é completamente alheio ao “Além”, mas ambos, por cultura geral escolar e familiar, sabem bem ler a Bíblia quase como quem fez bons estudos teológicos em seminários católicos de alto nível. Assim, de uma forma ou de outra, não caíram no vazio cultural do Brasil não-religioso que, por ser assim, às vezes entra pelo infantilismo das igrejas caça-níquel, por um lado, ou no ateísmo de babaca de Internet, por outro. Aliás, se há um país onde a magia suplanta a religião, este país é o Brasil.

Bem, meus filhos não iriam cair nesses dois lados, dado que nunca foram cabeça de pudim. Mas, falando de um modo geral, pensando no Brasil como um todo, o horizonte religioso existe em favor da boa cultura quando posto pela religião articulada a estudos clássicos, fora disso, torna-se o reino do autodidatismo. Ora, sabemos bem que o autodidatismo é o berço dos “gênios incompreendidos”, o pessoal que não tem peito para passar por escolas e, então, vê comunismo em tudo ou  discos-voadores em todo canto ou, então, são ateuzinhos fora-de-série que possuem a expertise a respeito de datas do nascimento de Jesus etc. Tonto e autodidata se tornaram sinônimos no mundo atual, e ambos competem com evanjegues, ateus do momento e os pseudo católicos, estes que fazem da doutrina da Igreja um lugar de mágica, maldade e preconceito.

O trabalho da educação católica, quanto à leitura da Bíblia, é altamente intelectual. Cabe ler os Evangelhos no sentido exato do que diz a Bíblia a respeito de seus próprios ensinamentos: fala-se ali por parábolas, grandes alegorias e um sistema integrado de imaginação visual, com significados profundos. Por esses dias vi duas missas interessantes, em que os padres utilizaram no sermão de duas passagens interessantes, a de Jesus andando sobre as águas e a de Jesus multiplicando os pães. Nenhum deles tomou tais feitos como literais. O primeiro viu Jesus sobre as águas vindo a Pedro, e este tentando ir ao encontro de Jesus e se afundando, como aquele que usa da confiança e aquele que não usa da confiança, o que tem fé e o que não tem fé. Ora, sabemos bem que o grau de confiança em nós mesmos pode nos fazer “andar sobre águas”. O segundo viu Jesus multiplicando os pães como que ensinando que na conta divina 2 + 2 não é quatro, pode se cinco, pode ser mil. Ou seja, quem está com um amigo não deve contar “aqui temos dois”, mas, lembrando da presença de Jesus, ou seja, de seus ensinamentos, pode sempre dizer 1 + 1 = 3. A matemática de quem está no rumo dos ensinamentos de Jesus é diferente da matemática comum. Ora, é assim mesmo que se lê uma parábola. E para isso o padre estuda filosofia e teologia. Para criar recursos intelectuais para cada vez ler melhor o conjunto de mitos, lendas, parábolas, alegorias de um livro que, pela sua profundidade, pode ser tido como escrito por muitos, mas sob a inspiração divina.

A religião católica não é uma religião para néscios. Ela é uma religião que exige um conhecimento do grego e do latim, da filosofia grega e sua origem, da cultura ocidental literária e, enfim, tudo isso deve estar voltado para uma doutrina que, no fundo, a partir do Novo Testamento, é altamente voltada para a prática. Todos os dias a Igreja está dizendo o que Francisco I tem dito: Deus não é um mágico. A religião católica é uma visão dos Evangelhos a partir de uma perspectiva não só de cultivo da subjetividade moderna, mas da sua própria criação. A subjetividade é, assim, cuidada pela educação religiosa, é ela o objeto e o objetivo do trabalho religioso, é sua fortificação o segredo do cristianismo. Agostinho levou isso a sério.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 16/08/2016

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12 Responses “Igreja e educação – a importância de ser católico”

  1. 09/09/2016 at 12:23

    Muito bomm artigo! Aprendi Muito comm ele Deus Abençoee !!!

  2. Fraga
    02/09/2016 at 19:51

    Cara, fico impressionado com tanta produção, com tanto texto e reflexões que o Paulo consegue produzir. O cara parece que nao dotme. Eu sei q vc nao liga pra isso- ao menos é o q parece-, e sei tb q a obra de um filósofo nao deve ser medida por participações em programinha das 23h, mas vou dizer assim mesmo, e por favor não me leve a mal: se tu fosse menos brigão, certamente seria o convidado do próximo Roda Viva. Ao menos o povao ouviria algo diferente do que temos ai. Mas o risco seria o de tu deixar de ser filósofo para se transformar numa especie de guru de autoajuda, do tipo tipo Carnal ou Cortella rss.

    • 02/09/2016 at 22:48

      Fraga desculpe-me dizer cara, mas você ou é jovem ou é ingênuo demais de achar que alguém trabalha na mídia sem abaixar a cabeça, sem patrocínio e sem estar engajado na política. Isso não tem nada ver com seu brigão. O Hora da Coruja tem mais de cinco anos. Veja se em algum programa houve alguma briga ou falta de humor. Fazemos aquilo por sermos livres. Agora, ir na TV para falar um script, nem pensar.

    • Fraga
      03/09/2016 at 01:13

      Ops. Por “brigão” quis dizer: “um pensador independente, que não está preso à grupos, que escreve e fala o que pensa, sem se importar se isso vai agradar ou não a A ou B. E pelo pouco que conheço de filosofia, isso é uma característica do filósofo autêntico. As vezes lembra o destemido Diógenes(o cinico), outras vezes o próprio Sócrates que entre morrer ou abandonar a filosofia, escolheu a primeira opção. Então é como te vejo. Daí o motivo de dizer q possivelmente não te veremos em certos programas da TV aberta porque tu não se sujeitaria a script.

    • 03/09/2016 at 09:02

      Fraga, não tomei como ofensa. Sei o que quis dizer. O que ressalto é que eles adoram, na mídia, os brigões. Mas é marmelada, entende. Tudo luta marmelada, e tudo o que há de mais distante da filosofia.

  3. Maria Lúcia da Silva
    17/08/2016 at 14:31

    Paulo Ghiraldelli, Pergunto-me o que há de cristianismo ainda em sua personalidade. Será o automatismo e a reatividade de criticar e de julgar os humanos, rapidamente e sem pensar muitas vezes? Ou a dramatização da existência? As culpas que você carrega? O pessimismo? Os sofrimentos? O que de felicidade você aprendeu com o Cristianismo? O que o Cristianismo acrescentou de prazer à sua existência? Se estudasse Psicologia, logo manteria o teu cérebro afastado para sempre de obras teológicas e de qualquer ambiente religioso: são festivais de golpes contra a mente humana, os mais diversos (estude o tema por conta própria se quiser e logo perceberá isso, que aí está boa parte do controle social). Nem precisa publicar este comentário ou nós provavelmente iremos mais cedo ao ”céu”.

    • 17/08/2016 at 14:36

      Maria Lúcia, se eu estudasse psicologia como você estudou, eu seria inculto. Não, eu passo.

    • wagner santos
      17/08/2016 at 22:38

      Deixe nietzsche e Freud descansar um pouco… Leia Platão, Aristóteles, Agostinho e Aquino. Verá o quanto de psicologia pode ser encontrada nesses escritos.

  4. Valmi Pessanha Pacheco
    17/08/2016 at 11:09

    Prof. PAULO
    Excelente texto. Magníficas expressões de pensamento.Seus fundamentos filosóficos cujos pilares originam-se nos clássicos, consubstanciados na inspiração divina, penso que poderiam explicar a riqueza de sua contribuição à laicidade e à religiosidade que, no meu modesto entendimento, não são condições excludentes.
    Belíssima crítica ao autodidatismo, “berço de gênios incompreendidos”. Pobre daqueles que ainda confundem estado laico com estado ateu. Moralistas, perdoai-os.
    De qualquer modo permita-me citar, todavia, um autodidata, analfabeto até os 16 anos e que, alicerçando-se nos clássicos também, escreveu um dos maiores dicionários da língua inglesa, Samuel Johnson, que certa vez afirmou: “a verdadeira sabedoria não está em saber tudo sobre todas as coisas, pois isto é impossível, e sim em buscar as verdadeiras fontes do conhecimento, quando for necessário”.
    Parabéns.

  5. Orquideia
    17/08/2016 at 08:08

    Divino maravilhoso,prof.Ghi,e veja que nem sou cristã.

  6. 16/08/2016 at 17:40

    Paulo, brilhante artigo. Sabia que gostaria muito de ter um vizinho por aqui como você? Sim, isso mesmo! Sem demagogia. Para nos encontrarmos no portão, num domingo ensolarado, pela manhã, após a feira, ou à tarde, depois de vir do trabalho estafante… Seria um bálsamo para o espírito ouvir e discutir com uma pessoa tão inteligente e culta como você. Ah! Os meus vizinhos são tão chatos e esquisitos…

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