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17/08/2017

Governo eleva a população toda à categoria de consultores pedagógicos


Um dos assuntos preferidos de Sócrates era o da distinção entre saberes. Há saberes que pertencem a todos, mas há saberes técnicos, especiais, que demandam expertise. Sócrates e Platão cansaram de observar que um dos problemas da democracia era o de confundir tais coisas, dando poder de decisão para “os muitos” em assuntos que só poderiam ser abordados por uma elite tecnicamente preparada. No mundo todo, a pedagogia e a educação pertencem a esse segundo campo. Só no Brasil que não. Aqui, muita coisa é decidida só por especialistas, até quando não é o caso, menos a educação. Em educação todo mundo pode não só dar palpite, mas, inclusive, fazer reformas pedagógicas para o país todo.

O Brasil é um país que ainda não entendeu a função da escola na criação de técnicos, não entendeu que a filosofia é uma área técnica, e também, claro, a pedagogia. Fala de escola, de reformas, mas não percebeu ainda que escola é lugar de expertise e de formação de gente com alguma expertise.

Por isso mesmo a propaganda do MEC é esse absurdo que vemos na TV. O MEC diz que a maioria da população aprova a sua reforma do ensino e, pior ainda, que tal reforma é fruto de sugestão da população, e o espectro das sugestões vai da escola básica até as provas do ENEM, isso para não falar sobre o sistema de bolsas. O Brasil possui agora uma população toda de filósofos da educação e pedagogos. Há mais gente especializada nisso do que técnico da Seleção Brasileira de Futebol. É de fato um país engraçado.

Se é verdade ou não que o MEC ouviu as pessoas, pouco importa. O descalabro é a ideia de ouvir e acolher sugestões da população quanto a questões que não são da ordem da democracia direta, mas da ordem de assuntos técnicos que só são decididos democraticamente se a decisão for raciocinada pelos que têm expertise. Pois uma coisa é perguntar para a população se é bom fazer o vestibular em um ou dois dias, ou se é necessário uma base curricular comum, outra coisa é perguntar para população de um país com a pior educação do mundo depois do Haiti o que é que deve estar contido na base curricular comum. O risco da população responder “português, matemática e funk” é muito grande. Confiar no senso comum para decidir questões a respeito da elevação do senso comum a um possível bom senso universal é coisa de um democratismo e de um populismo que Inglaterra nenhuma faria, muito menos a Dinamarca e, pasmem, jamais os Estados Unidos. Democracia não é a arte de propor  e responder enquetes, muito menos a prática plebiscitária.

Quando um país perde a noção do que são os clássicos, é pouco recomendável que este país seja consultado, em seus “muitos”, sobre o conteúdo da escola. Quem sabe do conteúdo da escola são os que lidam com o conteúdo da escola, ou seja, os professores, os intelectuais, os técnicos em filosofia da educação e pedagogia. Consultar o doente e não o médico parece ser democrático, mas é uma atitude estúpida, pois nela está embutida a ideia de que o médico não é humano e nunca ficou doente. São os que lidam com a produção cultural e com o ensino que podem ter argumentos para dizer que Machado de Assis, Platão, Newton e Descartes são clássicos tradicionalmente ensinados no Ensino Médio do mundo todo, mas que talvez ainda não seja a hora de colocar,  no nosso caso, junto com Caetano Veloso, também Roberto Carlos como matéria do vestibular. A lírica do Roberto Carlos é boa como MPB, mas está afeita, ainda, à Cultura de Massas, enquanto que a lírica de Caetano pertence à Cultura Erudita Não Acadêmica (para utilizar aqui a classificação de cultura consagrada pelo professor Alfredo Bosi, ainda válida).

Se hoje perguntarmos para um jovem do ensino médio da escola pública o que o jogo de Batalha Naval tem a ver com o plano cartesiano de abscissas e ordenadas, corremos o risco de ouvirmos um chocante “sei lá!”. Então, como vamos querer perguntar para o pai desse garoto qual matéria esse seu filho deverá aprender na escola? Estamos num país em que mestres e doutores não sabem uma segunda língua, tiram seus títulos sem um inglês razoável. Isso sem contar o batalhão que não consegue escrever um artigo sem começar com “Muito já se escreveu sobre esse assunto …” – um início infantil que só tipos como o Pondé poderiam utilizar, ou seja, os que parecem terem perdido a vergonha. Ou seja, se até mesmo os que seriam nossa elite estão mancos, aí sim que não podemos endeusar “os muitos”.

Quanto mais um governo quer se autoritário, mais ele se apresenta democrático em determinadas áreas deterioradas, para as quais não dá importância real. E esse apresentar-se democrático é, então, na realidade, puro democratismo e um apogeu do populismo. Pode reparar!

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 11/08/2017

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One Response “Governo eleva a população toda à categoria de consultores pedagógicos”

  1. Hilquias Honório
    11/08/2017 at 16:28

    Impressionante a cara de pau desse pessoal de Brasília! Eles não conseguem pensar nos danos que isso tudo vai causar no futuro do Brasil. E isso protagonizado por praticamente todos aqueles que gostariam de ocupar a presidência. Lembro perfeitamente da Dilma dizendo em 2014 “não tenho nada contra filosofia e sociologia, mas podemos ter outras prioridades”.

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