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22/09/2017

Gênios limitados


Não adianta explicar as coisas corretamente para aquele que não compreende o que é ter um conceito. Quem não aprende conceitos e não é capaz de entender a diferença entre o conceito e o não conceito, não compreende nada.

Todo o ensino visa capacitar o ensinado a aprender por meio de domínio de conceitos ou, falando no jargão pragmatista: os ensinados devem ficar aptos na compreensão do significado das palavras, e saber o significado de uma palavra nada é que saber usá-la corretamente em um jogo de linguagem.  Conseguimos isso com jovem brasileiro? Em geral, não! Por incrível que pareça, há muitas pessoas que passaram pela universidade e não sabem o que é ter um conceito.

O conceito deve ser descritivo, deve evitar carregar dentro de si juízos de valor. Como isso é difícil, então o conceito melhor é aquele que tende a ser mais descritivo e menos qualificativo. Além disso, o conceito deve tender à universalidade, ou seja, deve valer além de tempo e espaço, além da história e da geografia e, portanto, além de etnias, grupos, classes, etc.

“Refrigerante” é uma palavra cujo significado eu sei bem, já que eu a utilizo corretamente em um jogo de linguagem. Se assim faço, é como ter o conceito. Caso alguém diga que o refrigerante tem álcool, eu replico: “não é refrigerante”. O outro pode me dar a tréplica: “é um refrigerante sim, mas com álcool”. E aí eu retorno e digo: “você não sabe o que é refrigerante, você não tem o conceito de refrigerante. Bebida alcoólica é uma coisa, refrigerante é outra coisa”.

Muitas pessoas não conseguem entender essa função do conceito, sua capacidade normativa. Essas pessoas envelhecem sem conseguir aprender o que devem aprender. Podem até adquirir alguma profissão, mas nunca darão adeus à estupidez. Não ter conceitos não impede alguém de viver. Mas uma pessoa assim é uma pessoa limitada.

 Uma boa parte da sociedade brasileira só tem uma chance de aprender a pensar conceitualmente: na escola. Ora, como a escola pública, obrigatória, gratuita e laica está completamente destruída, por causa dos baixos salários dos professores, então temos hoje no Brasil uma população que pode saber escrever e falar, mas não sabe pensar – é gente que não entende o que é o conceito de conceito e, então, é gente que não sabendo o que é um conceito, não pode saber o que é ficar aquém do conceito, ou seja, ter pré-conceito.

Por isso muita gente confunde preconceito com discriminação. Preconceito vem de pré-conceito. Ou seja, alguém não conseguiu apreender o conceito e, ficando no pré-conceito, passa a trabalhar com preconceitos. Mas isso não é discriminação. Discriminação de alguém é circunscrever algo e deixar o discriminado de fora (ou vice versa). E isso é possível de ser feito não só por motivos preconceituosos.

Imagine um garoto que cresceu em uma família de gente de esquerda, mas não muito inteligente. Ele escutou desde pequeno frases como “a sociedade de mercado é um mal”. Ora, um garoto assim entra na universidade (ou no ensino médio) e irá lá aprender o que é a sociedade de mercado. Uma coisa que irá ouvir é que a sociedade de mercado está associada à necessidade de paz, de conversação, de promoção da tolerância, e por isso o próprio mercado provoca a suavização das relações. O garoto escuta isso e não entende que o professor está conceituando sociedade de mercado, ele imagina que o professor está fazendo a apologia da sociedade de mercado. Então, ele levanta e faz um discurso dizendo o quanto a sociedade de mercado é produtora de alienação, o quanto ela está ligada ao capitalismo e como a disputa de mercado cria a guerra etc. Em outras palavras, ele despreza o conceito em busca do qualificativo. Não entende que ele até pode propor um outro conceito, mas sem o conceito inicial, descritivo, o novo conceito não se fará inteligível.

Essa sofisticação de pensamento é feita no ambiente escolar. O ensino médio e a universidade são lugares desse trabalho de aprendizado conceitual. Quem não passa pelo ensino médio dificilmente consegue ter a habilidade do pensamento conceitual. No Brasil, há uma massa enorme de pessoas sem qualquer capacidade de pensar conceitualmente, e que não vai aprender mais a fazer isso. Mas, ainda assim, ninguém no Brasil é “burro”. O Brasil é e será sempre um país de gênios. Gênios limitados, mas gênios.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

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15 Responses “Gênios limitados”

  1. Alexandre Souza
    25/01/2014 at 11:46

    Excelente texto!

  2. Erik
    20/01/2014 at 09:29

    Paulo,

    E quando a pessoa passa pelo ensino básico e médio ( público) e devido a má qualidade de ensino não absorve nem a questão de conceito e nem a ser critíco em suas leituras, não consegue a formar apnião, pois não entendeu o que leu, e posteriormente ingressa na Universidade Privada, até consegue nota por decorar a matéria, porém sai muito fraco para o mercado de trabalho.
    É possível que ela consiga sanar essas dificuldades e adquirir essas habilidades ?

    Ou devido essa pendência de aprendizado essa pessoa está fadado a ser mediocre para o resto da vida ?

    • 20/01/2014 at 11:39

      Erik, eu já vi muita gente sair de uma FMU da vida e, um dia, dizer para si mesma: agora chega, vou virar gente. E virou. Tenho um aluno que hoje, sabendo grego, latim, e várias línguas, faz um pós-doutorado na Europa. Ele tinha se formado em direito pela FMU, um belo dia largou tudo e foi fazer a graduação em filosofia. Em vinte anos virou um intelectual que não fica devendo nada a ninguém. É um caso não comum. Mas conheço outros casos de gente que se superou. Você acha que eu nasci pronto? Não, meu caro, todos os dias tento suprir alguma lacuna de formação. A diferença minha para com os outros é que todo dia eu faço isso, não espero condições melhores, ideais, para ir fazendo minha formação.

  3. Tiago Andrade
    18/01/2014 at 19:10

    É o Gregório. É evidente que é ironia. Esse cara é de esquerda. Se a direita tá aplaudindo, é besta.

    • 18/01/2014 at 19:18

      Avise o Rick aí, vai se repetir o fenômeno do Antonio Prata, lembram? As bestas da direita aplaudem e alguns de esquerda repudiam.

  4. Rick
    18/01/2014 at 15:59

    Paulo, vc viu um artigo que saiu na folha defendendo o estado mínimo?

    Olha o que o sujeito escreveu:

    “A educação é a mesma coisa. Só mesmo privatizando para acabar com a farra dos professores. Precisava de um bom Roberto Justus para dizer: você está demitido. Duvido que ia ser essa festa –você já viu a Coca-Cola entrar em greve? Não entra. O que falta na educação é alguém para fazer a limpa e deixar só quem presta.”

    http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2013/12/1379227-partido-novo-do-estado-minimo.shtml

    • 18/01/2014 at 16:03

      Rick, isso não é brincadeira?

    • Rick
      18/01/2014 at 16:41

      Não, é sério mesmo.

      A turma do Mises Brasil (instituto de direita) está até comemorando a publicação desse artigo.

    • 18/01/2014 at 17:04

      Mises nem é um pensador que se possa considerar. Nenhum conservador culto dá atenção para Mises.

    • Rick
      18/01/2014 at 16:43

      Leia o texto do cara. Ele, embora seja humorista, falou sério nesse artigo.

    • 18/01/2014 at 17:04

      Rick, não pode ser sério, é imbecil demais.

  5. marco
    18/01/2014 at 12:03

    Belo texto!

  6. Ruy Mendes
    18/01/2014 at 12:03

    Eu acredito que antes da escola é importante uma sociedade mais culta. A escola não é o único lugar de cultura numa sociedade, de formação humana, embora seja um dos principais lugares para isso, ou deveria ser. Acho que todo pessoa que quer ter filhos deveria primeiro ter alguns livros, deixa-los numa sala, numa estante para que a criança possa entrar em contato com esses livros. Uma sociedade que valorize a integração é também uma sociedade que faz com que a gente se enriqueça com as experiências dos outros e com a nossas compartilhadas. Esse local pode ser mesmo a nossa rua, a nossa casa. O problema é que hoje as pessoas estão cada vez mais fechadas, acho que esse é um dos principais problemas para a limitação conceitual.

  7. Robson de Moura
    18/01/2014 at 10:02

    Texto certeiro! E por isso, triste.

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