Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

29/05/2017

O elogio da filosofia no Ensino Médio. Platão para todos os jovens.


Estão cobertos de razão os que dizem que a filosofia no ensino médio não pode ser doutrinação. Estão também muito certos os que dizem que filosofia não salva o mundo. Mas estão completamente errados os que acreditam que tirando a disciplina de Filosofia da escola básica vamos melhorar o ensino ou vamos priorizar “o que é útil”. Pouca coisa hoje, na escola básica, é mais útil que filosofia. Ela lá está, na escola, para ampliar nossa condição de leitura, nossos conhecimentos gerais, e nada é mais útil que isso num mundo em que a máquina manda.

Em um mundo de máquinas, da era digital, o conhecimento específico não manda muito, o que vale é o conhecimento geral que permite que sejamos treináveis de quando em quando, capazes de nos recriamos de quando em quando. Aí entra a filosofia. E nisso ela é útil sim. Mas, ela também tem seu lado de especificidade. Uma especificidade que se faz geral. Também útil. Veja só.

A presença da filosofia no ensino médio – podem perguntar para editores, livreiros e empresários da cultura – ampliou a venda de livros, criou novo público leitor, trouxe para o mercado capitalista livreiro uma oxigenação necessária. Os da minha idade sabem o quanto o nome “filósofo” era pejorativo até pouco tempo, e como agora dá status. Se muitos procuram ouvir e ler filósofos que não são propriamente filósofos acadêmicos e estudiosos, isso é secundário. Sempre haverá gente achando que stand up é filosofia. O importante é que no geral a leitura de livros não só de filosofia aumentou, e nenhum especialista do campo editorial ousa dizer que a filosofia não teve nada a ver com isso. Seja lá qual for a posição política, a pessoa culta defende a filosofia no ensino médio. Ela sabe do que estou falando.

O argumento de que a filosofia no ensino médio cai nas mãos de professores mal formados e/ou de doutrinadores, não vale a pena levar adiante. Isso pode ocorrer com qualquer matéria. Inclusive com aquelas que parecem menos opinativas. Quando algo vai mal, o que se tem de fazer não é fugir do conceito, mas faze-lo se realizar como conceito. O conceito de filosofia no ensino médio diz que temos de ter uma disciplina que amplie a leitura dos clássicos básicos no meio jovem. Clássicos não possuem cor política. Nem mesmo os clássicos da filosofia política possuem cor política, ou seja, da política imediata e partidária. Vejam o exemplo.

Um jovem precisa discutir justiça, e para tal tem de começar pela República de Platão. Caso não comece por aí, não vai chegar no ensino superior apto a discutir o liberal Rawls ou o ultra liberal Nozick, e seu curso de Direito ou Administração ou Medicina ou Engenharia etc. será um curso capenga. Justiça tem a ver com bioética, com poder executivo, com arquitetura social urbana, com direitos de mulheres e minorias, com ecologia etc. Direito é uma matéria transversal na universidades em quase todos os cursos. Então, sua base precisa ser uma matéria vertical no ensino básico. Filosofia começa com Platão, começa com a República, o tratado sobre a cidade justa. Podemos falar isso de vários assuntos em filosofia. Restrinjo-me a este, justiça, pois se há uma coisa que nossa sociedade vive discutindo é sobre a justiça que tem a ver com o crime e justiça que tem a ver com a falta social. Não preparar os jovens para tal conversa é não preparar para conversa alguma.

Faço sim o elogio da Filosofia no Ensino Médio. Um jovem de 16 a 18 anos tem de votar, tem de exercer a cidadania em favor da construção da sociedade regrada por alguma concepção de justiça. Ora, se o jovem está na escola e esta não lhe oferece condições de saber algo básico sobre justiça, então, pergunto, para que serve a escola? Do que serve a escola sem uma disciplina que gaste aí um semestre ensinando Platão? Não serve para nada, nada mesmo. Aprender a extrair uma raiz quadrada é importante, claro que é, mas saber ver que o que é o justo na cidade é tão ou mais importante. Até para ver futebol os jovens precisam de entender de justiça – a justiça desportiva. A filosofia é esse campo, no qual princípios básicos do Direito são ensinados: foi para saber da cidade justa e dos cidadãos justos que a filosofia nasceu como nasceu, nas mãos de Platão. Essa é a base. Isso é o básico. Não se pode deixar os alunos sem esse saber clássico e fundamental. É criar uma juventude escolarizada e, no entanto, analfabeta em ciências humanas, esquecer Platão. É também evitar que mais tarde tenhamos autores de auto-ajuda, midiagogos e comentaristas de TV que não tenham lido o básico, ou seja, Platão. Ao menos uma obra de Platão é necessário ser conhecida. E isso já vale um curso de filosofia no Ensino Médio. Um curso no ensino médio que faça a leitura completa da República já fez tudo que é necessário fazer para um jovem de 16 a 18 anos. Afinal, em Física, se leva um ano só nas três leis de Newton.

Aprender as leis de Newton no clássico livro dele sobre a gravidade é necessário. Fazer o mesmo com a justiça, através do livro básico de Platão, é um dever. Chega de nos enganarmos sobre o enxugamento do currículo. Não faz sentido. Na escola, nem sempre menos é mais.

De “Fora Temer” em “Fora Temer” vamos acabar é nos descuidando e assinar os documentos da política educacional que veio de FHC e Dilma, e que está sendo implementada agora, que é a de jogar no lixo as disciplinas humanísticas. Vamos todos pensar melhor e dizer que isso não pode.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 23/10/2016

Gravura: Girl with pigtails. Samuel Henry William Llewelyn.

LEIA MAIS ESTE: http://ghiraldelli.pro.br/educacao/volta-da-luta-por-filosofia-e-sociologia-no-ensino-medio.html

LEIA TAMBÉM ESTE DO ALUNO NOTA MIL: http://guiadoestudante.abril.com.br/enem/estudante-que-tirou-1000-duas-vezes-na-redacao-da-dicas-para-ir-bem-no-enem/

Tags: , , , ,

13 Responses “O elogio da filosofia no Ensino Médio. Platão para todos os jovens.”

  1. Bruna Nepomuceno
    24/10/2016 at 21:51

    Ghiraldelli, texto muito bom, eu apoio!!!
    Pretendo cursar Filosofia. E não deixa de ser de extrema importância as disciplinas humanísticas no E.M. é uma pena.

    • 24/10/2016 at 22:01

      Bruna, curse mesmo e venha para junto de nós, eu dou apoio! Conhece o CEFA? Onde mora?

  2. Patricia
    24/10/2016 at 13:58

    Eu apoio seu texto!!

  3. 23/10/2016 at 22:39

    Muito bom seu texto, mas uma coisa não entendi quando se referiu ao ” fora Temer”, você acha que os protestos não são válidos?

    • 23/10/2016 at 23:42

      Cinthia protesto contra quem? Contra nós mesmos? Estamos numa crise brava, com a PEC 241 como única bala no gatilho.

  4. Cinthia Cecília de lima
    23/10/2016 at 22:34

    Não entendi quando se referiu ao ” fora Temer”. Você acha que os protestos não são validos?

  5. Marcio
    23/10/2016 at 22:11

    Está melhorando…

  6. Tânia Cordeiro
    23/10/2016 at 20:58

    Não fiz o curso de filosofia, mas cursei matérias que me deram a certeza de que valia a pena ser uma curiosa da área.
    Concordo que a matéria deve ser preservada. Tenho outras discordâncias relativamente à proposta do governo.
    Tenho críticas ao governo de Lula é de Dilma, mas não assino embaixo do seu parecer. Obrigada

  7. Alexsandre
    23/10/2016 at 14:10

    Concordo com tudo.

    Só acho um erro o senhor insistir na ideia de quem grita “Fora Temer” quer o “Volta Dilma” ou o PT.

    • 23/10/2016 at 16:53

      Eu escrevi isso, nem pensar. Veja novamente.

    • LMC
      24/10/2016 at 15:47

      O povo que grita Fora Temer quer é
      o Volta Lula.Isso ninguém sabe,só
      as torcidas do Flamengo e do
      Corinthians.kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo