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22/06/2017

Filosofia é um conhecimento técnico, e o guruzete não sabe do que se trata


Nos Estados Unidos e na Europa stand up é stand up, livro de auto-ajuda é livro de auto-ajuda, palestra motivacional é palestra motivacional e comentário na TV sobre tudo é “variedades” ou “notícias” ou “entretenimento”. Aqui, não temos boa escola. O Brasil desescolarizado não sabe a diferença entre a frivolidade e a cultura acadêmica, e acredita que se a pessoa que faz as atividades frívolas é dita “professor” ou “professora”, então, trata-se de um pensador ou um filósofo. Não é o caso.

As perguntas filosóficas são técnicas. Desde Parmênides, Heráclito e Platão passando por Agostinho e chegando a Davidson, Foucault ou Rorty ou Sloterdijk ou Derrida, a filosofia é técnica. Até o filósofos ensaístas ou aforismáticos, como Montaigne e Pascal, só são possíveis de serem entendidos no contexto da conversa filosófica especial, técnica, que demanda do leitor ou estudante um envolvimento com a “escola de filosofia”  em questão que, em geral, é algo de alguma escola ou de uma instituição ou de uma confraria.

Duvida? Então pergunte coisa séria aos palestrantes extra-acadêmicos (um professor pode ser um extra-acadêmico, saiba disso) por aí, ou aos filósofos militantes políticos de direita ou esquerda. Pergunte algumas coisinhas básicas de filosofia. Pergunte: por que Tarski inventou a Convenção T? Por que Davidson usou a Convenção T no seu tratamento do significado? Pergunte: por que Platão e Aristóteles disputaram sobre a doutrina do Terceiro Homem? O que Foucault quis dizer com a expressão “o corpo utópico”? O que é que Wittgenstein queria ao falar que os limites do mundo são os limites da linguagem? A prova ontológica de Anselmo foi batida por Kant, mas como? O que é a mais-valia de Marx? São perguntas simples, que um estudante de filosofia sabe, mas o seu palestrante piadista ou político, que se diz filósofo, não sabe. Claro, o ouvinte ou leitor inculto e/ou desescolarizado vai dizer: “isso é história da filosofia, isso é coisa de ‘especialista’ e não de filósofo, o meu guru pensa pela própria cabeça, ele é filósofo”. Não, ele não é. Fora da filosofia não se é filósofo.

Acreditar em Jesus fora do cristianismo não é ser cristão. Acreditar que se é médico fora da medicina é ser curandeiro ou charlatão. Acreditar que se pode comentar filósofos sem conhecê-los segundo rigor acadêmico é como ser nadador que aprendeu a nadar por livros, sem nunca ter entrado na água. Você confia num piloto auto-didata? Pega o avião com ele no comando? Muita gente que escreve em jornal ou aparece na TV falando ou aparece em encontros da Internet tagarelando o que pensa ser filosofia não faz nenhuma filosofia, nem sabe do que se trata. São meros opiniudos. São pessoas que rebolam as nádegas e mostram dentes com a cara de cavalo que possuem, não historiadores ou sociólogos, são meros barrigudos, não filósofos.  A filosofia tem problemas específicos, tem linguagem técnica própria, além das especifidades das escolas filosóficas. Só os que não sabem o que é a academia por não terem passado por ela, por não a terem enfrentado, é que se julgam gênios incompreendidos. Não passam vergonha porque nem sabem que falam bobagem, e assim não ficam vermelhos na hora de imitarem o William Bonner sem o a competência do Bonner.

Espero que essa minha fala alerte o estudante de filosofia e de ciências humanas em geral. Espero que ele perceba que para contar piada na TV ou dar opinião sobre qualquer coisa num jornal de TV não é necessário estudar. E realmente as pessoas que fazem isso não estudaram e, se estudaram, não aprenderam. Ou aprenderam a fazer os bobos de bobos. E no Brasil há pobre bobo e rico tonto que adora um guru. Apareceu na mídia, nossa, vira autoridade! O mais engraçado é que essa gente, que mais acredita nesse pessoal, é também os que dizem que a mídia mente, é ideológica, que quem está na mídia só fala o que é autorizado. Na hora que aparece o guru predileto, se esquecem dessa crítica. Gozado né?

Não me importo com tais pessoas da mídia pelo que fazem no entretenimento, mas me importo quando elas começam a atrapalhar o trabalho sério da escola e da academia, fazendo o aluno desaprender o que começou a aprender ou se desviar do que deveria aprender. Os guruzetes que usam o título de professor para fazer essa picaretagem que está por aí, num país como o Brasil, são criminosos. São pistoleiros atirando a esmo em meio a uma juventude com formação ruim.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo 09/10/2016

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24 Responses “Filosofia é um conhecimento técnico, e o guruzete não sabe do que se trata”

  1. rafael
    16/02/2017 at 01:19

    fala sobre fenomenologia e psicanalise

  2. Allan Nechio
    04/01/2017 at 15:15

    Mas Paulo eu assisto você no youtube também não precisa ficar com ciúmes.

    • 04/01/2017 at 15:44

      Allan, olha o seu time aqui, o time dos fraquinhos.
      UMA DA COISAS QUE APRENDI com a filosofia é que toda vez que criticamos alguém, os autoritários, os que nada tem a ver com a filosofia, vem com o papo de que “é inveja”. É a forma de calar, de fechar, de censurar. Não vamos debater, vamos proteger nosso ídolo falando algo que fecha a boca do crítico: “inveja”. Esse mecanismo é manjado. Virou regra dos puxa sacos, fracotes e leitores de auto-ajuda.

    • 04/01/2017 at 15:48

      Allan, cuidado com a palavra “ciúmes”, “inveja”. Olha o vídeo que fiz para gente como você: https://www.youtube.com/watch?v=dTvTs9E0lI0

    • Allan Nechio
      04/01/2017 at 17:10

      Isso mesmo você esta certo,mas existe influência do ciúmes na critica é natural poxa,quem nunca faz isso.Só se cala aquele quem tem medo da própria inveja e do ciúmes ,nosso ciúmes nos leva a criticar e criticar é bom.É que não tenho guruzetes vejo os videos lá e tenho minha própria opinião assim como assisto os seus.

    • 04/01/2017 at 18:03

      Allan você está completamente errado comigo: eu tenho ciúmes da minha mulher, eu tenho inveja de quem é melhor que eu. Não tenho ciúmes de você fazer coisas que não comigo, pois não o conheço, e não tenho inveja de ninguém que eu critico, pois em geral critico erros crassos. Agora, há críticas mais contundentes, que faço em artigos com alguma profundidade, que realmente são críticas contra gente que não errou, mas que discordo. Consegue ver a diferença? Minha denúncia de guruzetes é dever de ofício, que aliás me enche o saco ter de fazer.

  3. Allan Nechio
    20/12/2016 at 09:41

    Eu não tenho uma faculdade com meu nome e nem mesmo um currículo acadêmico,só formação do ensino médio.Tenho interesse sobre filosofia,mas não tenho interesse em estar em ambiente acadêmico por medo,falta dinheiro ou vaga.Então eu cai no grupo dos excluídos dos que assistem o debate de fora.
    Fazer o que ,o conhecimento pode ser o que quiser se tiver poder para impor isso sobre os outros.Como não tenho poder me contento com palestras,parece que dão algum valor ao meu pensamento quando falam coisas em minha direção.Mesmo que seja apenas uma forma deles ganharem dinheiro,eu pelo menos me sinto melhor um tempo.Já que sei que vou morrer do lado dos fracassados.

    • 20/12/2016 at 10:12

      Nechio você quer morrer entre os fracassados que ficam seguindo o Chalita da vez, que hoje é o Carnal, aí é problema seu. Quando quiser mudar e virar um homem, me procure.

  4. francisco
    07/12/2016 at 13:43

    Seu texto, data venia, tem um equívoco em sua gênese, vale dizer, a concepção extravagante de que um filósofo somente poderá ser gestado no âmbito de um ambiente acadêmico, com uma via única e invencível, incluindo a linguagem ortodoxa da academia, sob esse aspecto, o maior filósofo brasileiro de todos os tempos, o professor Mário Ferreira dos Santos, não poderia ser qualificado como tal, tampouco o grande Miguel Reale, porquanto tais mestres supremos nunca fizeram uma faculdade de filosofia. Sem sentido sua ideia.

    • 07/12/2016 at 14:06

      Francisco leia novamente meu texto, seu autodidatismo impediu você de entendê-lo. OK? Seus dois exemplos são de pessoas da universidade, que estudaram filosofia na universidade. Termine o ensino médio, faz vestibular, faz seu curso. Esqueça essa mágoa.

    • francisco
      07/12/2016 at 16:39

      O Mário era formado em direito e ciências sociais, não em filosofia propriamente, ramo do conhecimento onde ele desenvolveu seu monumental trabalho, a grandeza de um pensamento filosófico autêntico deve ser aferido e julgado em razão de sua qualidade intrínseca, de seu valor enquanto obra, comparar filosofia a uma profissão liberal como medicina é de um primarismo de doer.

    • 07/12/2016 at 16:41

      Francisco, termina alguma escola, é melhor do que ficar tentando justificar o fracasso. Meu Deus!

    • francisco
      07/12/2016 at 17:12

      Aliás, sou formado em direito e tenho especialização em Constitucional, e todos que tiveram a sorte de frequentar, como discente, uma universidade no Brasil sabe, ou, pelo menos sentiu, o quão pouco atraente, para não dizer inibidor do pensamento livre, é aquele ambiente, cuja sistematização doutrinária oprime e trata de excluir quem pensa com autonomia.

    • 07/12/2016 at 17:31

      Francisco, estava demorando para você dar seu currículo! Ai meu Deus!

    • francisco
      07/12/2016 at 17:26

      Somente para finalizar, sugiro que assistam a um filme chamado o homem que viu o infinito, nessa interessante obra, o talento individual de um gênio da matemática é, não somente tolhido, mas boicotado pelo academicismo e pelo jogo de interesses inerente a toda instituição humana.

  5. Antonio Cícero
    17/10/2016 at 12:15

    Professor, por que o sr. que dá de ombros e critica os tais guruzetes da mídia espalha por todos os cantos deste blog sua participação na mídia? professor, vejo que o sr teve sua chance na grande mídia, mas não emplacou, e parece que não entende a velha noção de carisma do weber..

    • 17/10/2016 at 14:43

      Cara, acho que você não está bem não! A filosofia é para todos mas não para qualquer um? Você quer que eu vá falar na grande mídia (onde tenho amigos e poderia falar) sobre Davidson e teoria da verdade? Ou sobre Sloterdijk e as antropotécnicas? Acho que você não sabe o que está falando nem eu tendo explicado.

  6. Alex Ricardo
    12/10/2016 at 21:05

    Há uma tentativa bondosa que se torna maldosa. Fazem um esforço para mastigar bastante o conteúdo filosófico e digerir de modo ascecível, para que o ouvinte da palestra não precise se dar o trabalho de uma profunda reflexão. Profunda reflexão esta, que por conta do comodismo o ouvinte dificilmente irá buscar depois. Ficará na mera contemplação. Não se vai a fundo na investigação da própria palestra como Nietzsche, o filósofo da suspeita propõe.

    • 12/10/2016 at 23:44

      Alex palestra, sinceramente, não é filosofia. Nem dá para ser. Palestra é uma informação. O bom filósofo faz uma comunicação, mas em geral, é uma atividade que tem pouco a ver com o essencial da filosofia, que é a investigação conjunta. Agora, a palestra do guruzete, aí realmente é o fim da picada.

  7. Emisson
    10/10/2016 at 10:41

    É muito triste Paulo, compartilho da mesma indignação.Lembro-me que meu professor me indicara todas essas leituras mais técnicas,especificamente a leitura do texto de Foucault a respeito da “heterotopia” ou lugares outros, uma das melhores narrativa que já li em minha vida, aí vem um tal de pondé e diz que Foucault não vale nada,e que Marx não merece mais ser lido.Eu fico muito triste com esse tipo gente que se diz “professor”, eu penso nos alunos que são ensinados por esse tipo de gente.

    • 10/10/2016 at 17:01

      Emisson, devemos enfrentar esse tipo de gente. Eles aparecem aqui para tentar me calar, e usam o “é inveja”, como se a gente fosse invejar os que não sabem. Não, eu invejo os inteligentes. O burros não.

  8. João Dorigan
    09/10/2016 at 20:57

    Hum… Quanto amor descompassado com o fenômeno.

    Porque será que padres fazem missas, são teologolos competentes (com suas terminologias e tecnicismo) e os folhetos de trazem justamente os problemas técnicos para a malta?

    Será que a homilia dada de forma compactada por séculos aos leigos e as figuras associativas da época/comunidade é stand-up?

    Qual o problema de levar o grosso à massa?

    Será mesmo que os leigos não sabem distinguir poesia, retórica e diálogo técnico?

    • 09/10/2016 at 21:18

      João “os muitos” não estão interessados. É por isso que existe elite.

  9. vera bosco
    09/10/2016 at 18:14

    Leitores de Poliana, Brida , Medicina de A-Z…

    z

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