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28/06/2017

Fernando Holiday tem dificuldade de entender a escola e a democracia liberal


Que fique claro: o movimento “Escola Sem Partido” recebeu uma resposta pífia da esquerda florida, principalmente através de seu guru xuca-xuca, o Karnal-Sabe-Tudo. O “Escola Sem Partido” atirou no que viu e acertou no que não viu. Atirou na “doutrinação de esquerda” que estaria sendo feita na escola de ensino básico, o que é uma bobagem, mas acertou na capacidade de resposta intelectual da esquerda, que é sempre muito fraca. Nisso, prestou um bom serviço ao país. Expliquei o fato em vários textos, inclusive em um para a Folha de S. Paulo. Repito o argumento em resumo.

O que disse é que a aspiração por uma educação que não tenha nódoa ideológica é uma aspiração legítima da ciência, até mesmo da filosofia e, claro, da educação. Não à toa Marx, namorando com o positivismo de sua época, pediu que a escola não ensinasse matérias como história, por exemplo, que seriam “desvirtuadas” por padres e intelectuais da burguesia. Ele não fez isso sem legitimidade. Pode ser que a dita neutralidade política na investigação científica seja impossível, mas ela é sempre uma meta solicitada, sem a qual a própria ciência não pode ser chamada de ciência. Ora, a educação segue a cauda da ciência. Quando um midiagogo tipo Karnal responde, pela esquerda, que todo ensino é ideológico, e que o certo é ter “várias visões”, ele está simplesmente dizendo que, da parte dele, o cuidado com a busca de objetividade vai ser deixada de lado, já que é impossível de ser alcançada. Ninguém sadio e inteligente em ciências humanas, hoje em dia, pensa assim.  Nem os mais perspectivistas dos nietzschianos nem os mais relativistas dos rortianos desacreditam da atividade racional como podendo apresentar, dentro de várias perspectivas, as que podem ser chamadas de objetivas. Há graus de objetividade, todos nós sabemos disso. Mesmo os que acham que tais graus não dizem muito, sabem que podemos apresentar junto do assunto os critérios pelos quais tal assunto foi apresentado de tal maneira. Isso é uma forma de ampliar graus de objetividade.

Da minha parte, penso como Rorty: a política deve cuidar é da liberdade, e se assim fizer pode deixar que a verdade cuida de si mesma. Mas acrescento: se a verdade vai cuidar de si mesma, nós filósofos ainda podemos ajudá-la, dizendo para cada investigador que ele apresente os critérios pelos quais ele apresenta verdades.

A escola deve ser plural, claro, e livre. Mas os pais devem solicitar do estado que coloque provas intelectuais para absorver professores para a rede pública. Os professores que qualifiquem. Devem mostrar que dominam conhecimentos que tendem a ser considerados objetivos pela comunidade científica de nossa época. Um professor bom, bem formado, ainda que tenha posição política muito explícita, sempre será um professor argumentador, provocador, capaz de dar instrumentos aos alunos para que estes façam a crítica das ideologias, de modo a não se tornarem meros reprodutores de ideologias. Tudo isso é questão de ciência, filosofia e pedagogia. E só.

Agora, deixemos de lado o movimento “Escola Sem Partido” e passemos para a atividade do jovem vereador Fernando Holiday em São Paulo. Ele vai às escolas para, em nome de ideias do “Escola sem Partido”, executar exatamente aquilo que é, no limite, o contrário do que pediu tal movimento. Ele chega à escola para ouvir alunos que apontam professores como “doutrinadores marxistas”. Só isso já é errado, e mais errado ainda é o modo como ele aparece nas escolas, pedindo planos de aulas para ver o conteúdo do professor. E mais desgraçadamente: vem forçando a entrada em sala de aula. Ora, isso é contra a nossa Constituição e contra qualquer coisa que se possa fazer em relação a uma escola em um país que reza pela democracia liberal. Isso é a instauração de um tipo de polícia política. É intimidação. É afronta contra a liberdade de cátedra. Não é serviço legítimo, muito menos é trabalho digno de um vereador. É abuso de autoridade. É incompreensão do que é uma escola.

O secretário de Educação do município de São Paulo viu tal barbárie e acolheu a denúncia do sindicato dos professores, queixando-se de Holiday. Logo em seguida, pediu demissão ao Dória, o prefeito da cidade. Dória não quis se desfazer do secretário, mas também não quis dar um “chega para lá” no Holiday, que é tido como “cota do DEM” ( o nome não é meu, ouvi isso de gente do DEM, que falou tal coisa rindo). Trata-se de um vereador da base aliada.  Mas o caso foi para denúncia contra Holiday no Ministério Público. Isso pode ser a solução do problema, inclusive para Dória. O Ministério Público pode denunciar Holiday por intimidação a professores e, se a coisa andar como pode realmente andar, o “cota do DEM” vai ficar com o mandato ameaçado. Culpa dele mesmo, por não saber como funciona a democracia liberal.

Todo e qualquer problema em escola é resolvido em sala de aula, se é questão de conteúdo. Caso seja uma questão mais cabeluda, pede-se a mediação do Diretor da escola e, no limite, do Supervisor escolar. Esses cargos são técnicos, e são ocupados por concurso público. Só em casos gravíssimos questões sobre o como ensinar e o que ensinar pode sair da escola. A última coisa que se espera de um vereador é que diante de um quadro de salários sempre baixos dos professores, e de insegurança inclusive física desses profissionais, ele vá para as escolas para dificultar a vida dos mestres, intimidando-o. Holliday erra não só do ponto de vista legal, mas também moral e político. Deveria atuar como vereador, pois não há o cargo que ele quer ocupar, que é o de agente da Stasi ou KGB ou SS.

Cada professor que dá uma aula tendenciosa no sentido de que fique atestado sua incompetência técnica no assunto, abre um problema para si mesmo diante de seus alunos, diretores e pares, mas não pode ser intimidado por autoridade política, muito menos se a denúncia é sobre ideologia. Questões de ideologia no âmbito do ensino são problemas epistemológicos e pedagógicos. Não cabe atuação de vereador, muito menos da forma que Holiday está querendo atuar. O Ministério Público terá de ensiná-lo a viver na democracia liberal. Caso ele não aprenda, é possível que perca o mandato. Sinceramente, pelo que fez até agora na Câmara Municipal, não creio que vá fazer falta.

O DEM poderá encontrar outro negro e gay com capacidade de ter respeito pela democracia liberal e até querer defender causas de negros e gays. Já imaginou um vereador preocupado com a ampliação de professores negros na rede de ensino  – isso sim seria útil e louvável.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 10/04/2017

Foto: Fernando Holiday na Câmara Municipal encantado com a própria foto.

 

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5 Responses “Fernando Holiday tem dificuldade de entender a escola e a democracia liberal”

  1. 15/06/2017 at 16:26

    Nunca gostei das ideias desse rapaz. E não é por ele ser gay e negro. Absolutamente.Mas, compará-lo à KGB ou à Stasi, considero um tanto impreciso, permita-me, caro professor. Talvez o nobre parlamentar esteja muito mais próximo de uma Ação Francesa, de Charles Maurras(do Caso Dreyfus, na França do final do século XIX), ou de uma P.I.D.E(Polícia Internacional de Defesa do Estado), na nefasta polipolícia secreta do regime salzarisalazarista, em Portugal. O susujesujeito tem todos os trejeitos e cacoetes de uma extrema-direita carcomida.

    • 15/06/2017 at 18:55

      A comparação não é sobre ele, mas sobre o tipo dele, o modo como ele é requerido para participar das forças de reação. Seu ódio intrínseco é o tema.

  2. Orquidéia
    15/04/2017 at 08:44

    Não existe um manual de instruções para políticos,quando se elegem?…
    Meu deusinho perdido.

    • 15/04/2017 at 09:00

      Existe e é nesse deslize que a Promotoria Pública pode pegar.

  3. Pedro Portela
    10/04/2017 at 19:18

    Ora, só nos faltava esse Holiday! Por que ele não entra em “Holiday” da vida pública permanentemente?

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