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19/11/2017

Estudantes ocupando a escola contra Temer – quais os acertos e erros disso?


A invasão e ocupação das escolas pelos estudantes do ensino médio, em todo o Brasil, tem uma justificativa válida? Creio que sim, mas aqui, vale uma ponderação.

Se estão lutando contra a PEC 241, estão errados. A PEC 241 tornou-se necessária no momento. Gasto contido é divida pública controlada, e isso significa segurar a inflação e deixar os investimentos voltarem, além de poder baixar juros. O senador Cristóvam Buarque está correto ao dizer que isso fará “voltar a ter esquerda e direita”, uma vez que haverá luta por prioridades no governo. Assim ocorrerá, se tivermos a economia estabilizada, o desemprego caindo e um teto de gastos. Podemos voltar a gastar mais, num futuro próximo? Talvez! A PEC tem propositalmente um componente psicológico. Os investidores precisam voltar a investir, e por isso a sinalização inicial deve ser dura. O governo precisa antes perder a cara de perdulário além de deixar de ser perdulário, sem isso, ninguém se arrisca a investir. Além de tudo isso, há também a questão da educação e saúde, que são regidos por Ministérios com orçamentos grandes e que não serão mexidos; aliás, podem até receber mais, uma vez que o teto é fixo, não as áreas de gastos. Os estudantes tem de entender que seus pais necessitam dos empregos que, no regime atual deixado pelo PT, se esvaíram. Essa questão é bem menos ideológica do que eles estão pensando.

Agora, se os estudantes estão lutando contra a Reforma do Ensino Médio, nisso estão corretos. A Reforma divide a escola por áreas, diminuiu matérias, e não obriga cada instituição de ensino a ter todas as áreas. Desse modo, cada aluno terá que se deslocar para estudar o que gostaria de estudar. O rico fará isso, o pobre não. Se já não bastasse uma medida assim, que praticamente é inconstitucional, pois tira a isonomia educação da população, há também o fim de disciplinas como filosofia, sociologia e artes. No início elas seriam optativas, quando o governo anunciou a Reforma. Agora, nem isso, pois com o documento do senador Chaves, relator do assunto, há a tendência de diluir tais disciplinas no âmbito da velha e carcomida tese do governo FHC: a transversalidade. Essa Reforma sim é ideológica, e atravessou todos os governos. Nasceu no governo FHC, amornou com Lula e voltou com força na campanha de Dilma. Está aí agora! É a pior continuidade entre PSDB-PT-PMDB.

Estudante é um animal que deve estudar. Eu sei que com os salários dos professores aviltados as aulas ficam ruins, e a última coisa de atrativo na escola, ainda mais na adolescência, é a aula. No entanto, com a escola ocupada, esta se torna atrativa. Vira um centro de convivência. Para uma juventude com aulas ruins e com escolas sem qualquer possibilidade de vivência comunitária, eis que a ocupação se torna uma chance de socialização. Sei bem disso. Já fui adolescente. Mas não é assim que a vida regular segue. A ocupação precisa ser no sentido da reivindicação específica, e tem de ser datada, prevista, com calendário para acabar. Fora disso, cria uma situação insuportável de perda de ano e desagregação. Usar inteligência não custa. Quando se é jovem é duro usar a inteligência diante da profusão hormonal, mas se forçar um pouco, é possível.

Dito tudo isso, tem a questão da militância. Ser de esquerda ou direita é opção, mas no mundo atual, ser tolo não cabe. Ser tolo não pode ser opção. Não há o direito de ser energúmeno num mundo onde impera a República do Conhecimento. Examinar a PEC para fora de argumentos de uma esquerda que se fez corrupta e que jogou o país nessa situação é um imperativo para todo e qualquer estudante. Ser crítico é, hoje, examinar a Reforma do Ensino Médio a fundo é necessário. Sair dos jargões e clichés através do estudo é necessário. Nisso, que tal os alunos, por eles mesmos, tentarem ler os clássicos da filosofia e da sociologia, e não só panfletos? Por que não ler Platão, Durkheim, Machado de Assis e Mafalda do Quino? Que tal menos palavra de ordem, menos militância  dogmática e mais reflexão? Que tal um mundo de menos preconceito contra Marcela, por ela ser bela, e mais tentativas de saber por qual razão a arte já não pede mais o belo? O professor de filosofia e o de sociologia, nessa ocupação, não pode ajudar nisso? Ou ele está também, como adolescente, gritando contra a PEC enquanto se desinforma sobre a Reforma do Ensino Médio?

Um país culto é um país com filosofia e sociologia e artes no ensino médio. Devemos querer um país com a escola tendo professores bem remunerados e aulas mais interessantes que a convivência da ocupação. Mas isso não se constrói com frases e chavões de esquerda ou com reações com chiliques da direita diante de qualquer mobilização estudantil. Isso se faz com leitura séria, estudo sério, conversa séria. Da última ocupação eu participei, a que se fez ainda no governo Dilma, e eu fui às escolas. Fui dar aulas gratuitas naquela ocupação, ao contrário dos professores universitários que fomentaram a invasão na imprensa, e não ajudaram em nada na prática, pois estavam interessados em política e dinheiro. Algumas escolas ocupadas tinham alunos e professores produzindo algo, outras abrigavam apenas militontos falando frases autoritárias e imaginando que tais frases eram do Marx, quando na verdade nem do Cazuza eram (“Que país é esse?” é uma frase de Francelino Pereira). Na incultura generalizada, com posturaras típicas da direita, se imaginaram estudantes de esquerda! Depois disso veio a festa irresponsável, do Chico Buarque fazendo aquele lixo de música para os estudantes. Assim não, assim não dá! Com esse tipo de militância de filme Aquarius não se chega a lugar algum. Sônia Braga tem um mundinho dela, não tem nada a ver com os problemas da escola brasileira. Chico foi feito para cantar, de PEC 241 ele não entende.

Temos de sair dessa militância de esquerda que é ignorante. Caso contrário, vamos alimentar ainda mais a militância de direita extremada, que irá parecer até inteligente diante isso. Estudante, antes de tudo, se faz política é porque estuda. Estudar não implica em ler o que já se aceita, mas refletir sobre possibilidades novas de agir, de querer e gostar. Novas mesmos, aquelas tendências que de início parecem não serem as boas. O estudante inteligente faz isso.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 26/10/2016

VEJA O VÍDEO e repare que a jovem decorou um texto militante, e bastou o repórter sair do script e ela já não conseguia mais pensar. Não quero diminuir a jovem, mas quero que os professores aqui presentes comecem a se preocupar com esse tipo de juventude emburrecida e com colegas professores emburrecidos. https://youtu.be/UyN8SsoY0DQ

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8 Responses “Estudantes ocupando a escola contra Temer – quais os acertos e erros disso?”

  1. Fábio
    26/10/2016 at 20:50

    Dá um toque lá para aquela tua amiga… A Marilena dizer que o Moro foi estudar nos States e atuar aqui como espião pode parecer bobagem, mas é algo muuuito menos grave que dizer, como fez a tua amiga, que a Rússia vai invadir o Brasil pela Venezuela!!! Alguém próximo a ela precisa dizer-lhe: “Calma, filha, toma um lexotan, um rivotril e esses outros comprimidinhos aqui, e vá dormir”.

    • 26/10/2016 at 23:27

      Fábio você tem problema de entendimento grave. A Janaína estava falando da Geopolítica do Putin, agressiva. E com investimentos em lugares estranhos após suas contas ficarem bloqueadas. Ela não falou que Putin ia invadir, ela disse que ele ficou em condições de tal coisa. Parece brincadeira, e eu mesmo não gosto de pensar as coisas pelo geopolítica, mas pela ótica da geopolítica vale dizer isso que ela disse. Mas claro que a arraia miúda fica gemendo, afinal, gente como você é o pessoal da arquibancada que vai criar problema com o Borges por causa dele sair com o travesti.

  2. Celso
    26/10/2016 at 17:57

    Sei que o texto se refere aos alunos de ensino médio, suas ocupações, os erros e acertos por trás delas e a falta de profundidade no pensamento que constroem acerca da PEC e da reforma, mas o achei bastante relacionado com os universitários responsáveis pelas ocupações que tem ocorrido em universidades públicas pelo país, contra a PEC 241. Aqui na UFMG, percebe-se bem a falta de pensamento crítico dos militantes de esquerda que se manifestam nas assembléias. Repetem chavões políticos, fazem (e muito) discurso de apelo emocional. Não se dispõe a analisar a PEC pelo que ela é. Enfim, não é o que eu esperava dos universitários engajados.

    Até fui defender a PEC em uma assembléia, falando do básico do porque há a nescessidade de conter gastos para evitar o aumento da dívida pública, e como ela não corta gastos da educação. Ninguém estava disposto a ouvir, muito menos refletir. Já tinham uma opnião, bastante rasa, pré-concebida sobre o tema. Não é à toa que fui chamado de coxinha depois por uma menina. Logo eu, que já fui acusado de ser comunista no mesmo semestre!

    Parece que agora a fase universitária é uma continuação da adolescência…

    • 26/10/2016 at 19:25

      Celso no caso dos universitários dá desânimo, o cara tá quase adulto e quer ser burro.

    • Orivaldo
      27/10/2016 at 12:00

      Mesmo concordando com tudo isso, acho que o governo precisa aprender a vender seu produto. Nesse caso o único que fez isso de maneira inteligente foi Cristovam Buarque. O produto pode ser bom, mas precisa ser comprado e pra ser comprado primeiro temos que vende-lo e isso não é pra qualquer um.

  3. Orivaldo
    26/10/2016 at 17:18

    Também não querendo diminuir a jovem do vídeo, que não passa de mais uma vitima desse confronto ideológico produzido pela fórmula: ESQUERDA X DIREITA = IGNORÂNCIA, percebe-se claramente na maior parte desses jovens uma carência cultural , que a coloca como presa fácil desse emaranhado de “ideias” estapafúrdias que, pelo que se nota,
    não leva a nada. Essa jovem do vídeo mostra só um lado do problema, mas tem também aquele jovem do lado de fora, também emburrecido por outra ideologia , que vê seus colegas apenas como um bando de desajustados e vagabundos . Lembrando que essa equação ESQUERDA X DIREITA poderia, numa situação onde prevalecesse o conhecimento, apresentar outro resultado.

    • 26/10/2016 at 17:43

      Orivaldo é claro que existe um emburrecimento na direita, mas a gente não espera nada da direita ou de quem está até fora da escola. A cobrança sobre ela é que ela está lidando com algo que precisa de leitura, e ela não faz a leitura, ela não sabe como funciona o tal “congelamento” e a razão pela qual está se fazendo o ajuste. Isso é triste.

    • LMC
      27/10/2016 at 10:36

      Ih,Orivaldo,quem estuda nestas escolas
      invadidas pelos amigos da Marilena,
      vão ter que reclamar agora pra quem?
      Pro bispo,pro Dalai Lama,pro Edir
      Macedo,pro Henry Sobel,pro Inri
      Cristo,etc.

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