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28/04/2017

“Escola Sem Partido” – para além da não-reflexão de Karnal


Já escrevi vários artigos sobre o tema, “escola sem partido”. Este é breve. Rapidinho. 

“Escola Sem Partido” é um projeto de lei. No plano prático, o que os que o propuseram querem é algo aparentemente simples: que professores não façam proselitismo político-partidário em sala de aula. Parece fácil isso, mas, se quisermos respeitar a Constituição e se quisermos manter a escola sendo uma boa escola, o melhor é não fazer esse pedido. Toda a nossa cultura é impregnada de elementos que são aproveitados pelos partidos. Uma camisa de força sobre a escola é uma camisa de força cultural que pode levar única e exclusivamente não só ao cerceamento da expressão e à censura, o que já é grave, mas a uma perseguição legal ao professor, o que é gravíssimo e o começo de um estado totalitário. Isso não é bom para ninguém.

Explico: temos uma boa parte de pessoas no Brasil que são cristãs, e existe no Congresso um partido que absorve, inclusive no nome, esse ideário para colocá-lo na política: Partido Social Cristão (na novo, na Itália há a Democracia Cristã, e também tivemos aqui um partido assim com força eleitoral). Ora, imagine um professor que vá explicar eventos do cristianismo e, lá pelas tantas, diga uma verdade desse tipo: “a suavização da vida, ou seja, o perdão, é algo introduzido no mundo com força não pelos antigos, mas pela vida pós-cristã, pelo cristianismo”. E continue: “essa suavização vinda do perdão trouxe benefícios para a economia de mercado, pois é uma economia que precisa de paz, precisa que um agressor perdoe o outro e ponha uma pedra no caso e passe adiante”. Ora, todo mundo sabe dessa história. Mas, se em uma época de eleição, aparece um candidato social-cristão não jogada, como favorito para a Presidência da República, um aluno pode ouvir isso e dizer: “calma lá professor, eu acho que o senhor  é do Partido Social Cristão e está fazendo propaganda indireta aqui em sala de aula”. Pronto, tá feito o estrago. A aula é censurada, a escola piora de qualidade, o professor é perseguido e, enfim, o aluno não aprende. E não adianta dizer que as coisas não viram isso, pois viram. Esse exemplo deixa claro: é melhor uma escola com liberdade de cátedra. É melhor entender que aluno, mesmo jovem, tem influências outras que não só a escola, e sempre poderá julgar o bom professor, deixando de lado aquele propagandista de partido. Foi assim conosco na escola. Tivemos professores doutrinadores e ficamos só um pouco burros por isso.

Agora, o fato de se poder dar essa resposta ao projeto “Escola sem Partido” é uma coisa, outra coisa é menosprezar o que ele traz para o contexto. É um erro crasso, eu penso, acreditar que o que pode inspirar projetos como o “Escola sem Partido” é uma simples tolice reacionária. Pode haver reacionarismo ingênuo nisso, mas há também elementos da cultura que dão sustentação para coisas do tipo. Nada mais nada menos que Karl Marx disse algo próximo do que dizem os adeptos do “Escola Sem Partido”. Ele convocou os delegados da I Internacional para aconselhá-los, entre outras coisas, sobre o programa escolar. E disse que preferia que a escola ensinasse só disciplinas que não tivessem interpretação diferente quando ministradas por um pastor ou um não-religioso e coisas do tipo. Ou seja, Marx estava imbuído da ideia do século XIX de que as ciências da natureza eram objetivas e neutras, enquanto outras áreas, ao menos no nível do ensino escolar, eram relativas à cabeça do professor. Mais tarde o marxismo, por correntes específicas, resolveu dizer diferente, assumindo a posição radical de que todo e qualquer saber é um saber classista etc. Mas não só Marx falou algo em favor da objetividade do saber que implicaria neutralidade doutrinária e política.

Marx estava imbuído do positivismo do século XIX. E este positivismo, sabemos, chegou até nossa sociologia. “Tratar os fatos sociais como coisas” – isso foi pedido por Durkheim, discípulo de Comte, de modo que a sociologia nascesse como uma ciência cujo modo de proceder fosse o da física. Escolas alemãs de pensamento, ditas historicistas, contestaram isso. Mas, enfim, o debate sobre o assunto não desapareceu. Faz sentido, epistemológica e filosoficamente falando, perguntar se vale ou não vale termos uma aspiração, na pesquisa e no ensino, por uma objetividade que beire a segurança da neutralidade. Desse modo, se o Escola Sem Partido, conquista alguns por conta disso, e não pela ideia um tanto tola de censura, trata-se de um bom projeto para no mínimo repor uma discussão importante, até então restrita às aulas de filosofia, para toda a sociedade. Por que não conversar sobre isso? Por que tentar desqualificar o proponente? Não dá para entender.

Esse debate já apareceu no passado, e foi para fora da sala de aula, no Brasil. E, mesmo sendo numa época de censura, ele deu uma boa conversa com bons frutos. Isso ocorreu quando da conversa sobre a legitimidade das aulas de Educação Moral e Cívica. Quando o regime militar estava já capengando, sem legitimidade, muitos começaram a pedir o fim dessas aulas, alegando que eram apenas uma forma de “escola com partido”, ou seja, o partido do regime de 1964 estaria atuando nas escolas, por meio dessas aulas (o que nem sempre foi tão verdade assim), e em um Brasil se redemocratizando não caberia mais tal coisa. Naquela época, portanto a ideia da “escola sem partido” não era algo das alas conservadoras, como hoje, mas dos ditos progressistas. Ao final, as aulas realmente desapareceram, e foi bom, pois agora voltamos a ter disciplinas tradicionais, o que é sempre melhor, pois o tradicional (história, filosofia etc.) sempre pode contar com professores melhor formados que as disciplinas tiradas da cartola dos burocratas.

Quando olhamos para o passado e para essa conversa, notamos que foi bom para todos uma escola livre, sem diretrizes expressas do “sem partido” ou do “com partido”. Direita e esquerda, conservadores e liberais, sempre vão achar, em determinado momento, que seus filhos estão sendo doutrinados, e que alguém deveria fazer alguma coisa contra o professor doutrinador. Mas o melhor é não pedir que o estado faça, e sim que cada pai e mãe confie na inteligência do filho, que certamente, se não for um estúpido, vai sempre preferir, ao menos no Colégio, ter professores não doutrinadores. Claro que às vezes nos espantamos com um professor fanático, alguém que baba pelo PT ou que baba pelo Bolsonaro ou que quer dormir com o FHC e esperneia se dizem que o PSDB é “de direita” etc. Mas, cá entre nós, esse tipo de professor acaba tendo alguns seguidores, mas a maior parte dos alunos, logo depois, vê tal figura como folclórica. Alguém assim não faz grande mal em uma sociedade com os meios de comunicação como a nossa. Doutrinadores têm lá seus momentos, ganham seguidores, escrevem colunas em jornais, aparecem na TV fazendo auto-ajuda e dando uma de sabichão blasé. Mas, logo os jovens percebem que não possuem consistência, que se repetem demais, e larga deles.

A escola boa é aquela em os alunos são convidados a ler os clássicos. A literatura clássica em história, matemática, ciências etc;. nunca é fanática, ela é sempre elevada, coloca o estudante num plano conceitual alto. Assim é com Newton, Machado de Assis, Platão e Cantor. Um bom estudante jamais vai agir como  o Karnal que disse, para tentar refutar o “Escola Sem Partido”, que ele desafiava qualquer um a falar de um fato histórico importante que não fosse político. Ora, um aluno da sexta série pode dizer para ele: “a descoberta da penicilina, professor, é um fato histórico importante e não é um fato político”. Um aluno um pouco mais velho pode acrescentar: “há a Nova História e a Escola dos Analles, que nos ensinou sobre história da roupa, do clima, da vida privada, da beleza, da mulher etc., todos temas que mostram fatos que são fatos históricos, são importantes, e não são políticos”. Um aluno inteligente, portanto, pode desbancar um professor que gosta de doutrinar e que tem apreço em se exibir falando suas verdades sem refletir. E faz realmente isso. Por isso mesmo, é bom deixar professor e aluno livres do estado, livres de censura, sujeitos uns ao outros e aos livros somente. Escola sem estado, essa é a melhor.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo.

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26 Responses ““Escola Sem Partido” – para além da não-reflexão de Karnal”

  1. cleber alves araujo
    20/07/2016 at 09:33

    Acredito que Karnal estaria refutando o projeto de lei que tem suas motivações políticas, ainda mais na atual conjuntura.

    • 20/07/2016 at 10:37

      Karnal fala o que a claque quer ouvir, é mero palestrante de auto-ajuda. Minha paciência para tipos como Karnal ou Pondé já deu. É muita picaretagem.

  2. Leonardo
    14/07/2016 at 00:22

    Talvez a melhor maneira de discutir a existência, ou não, de doutrinação fosse a abertura de um espaço regular para debates e questionamentos acerca do conteudo e da metodologia das disciplinas ministradas… Algo mt comum em varios paises, até como uma forma de participação e acompanhamento dos pais na vida escolar.

    • 14/07/2016 at 01:03

      LEONARDO não existe meia liberdade. Nossa Constituição felizmente dá liberdade aos professores. Meu texto é filosófico, mostrando que Karnal não faz reflexão, apenas desqualifica o outro. Isso que você pede é feito no Brasil, em diversas instâncias e, por conta disso, com qualidades teóricas diferentes.

    • 17/07/2016 at 21:40

      Não quero escrever um texto filosófico e nem saberia como. Entretanto,segundo a própria filosofia, tudo que escrevemos ou falamos é uma manifestação filosófica. Por isso discordo do fato de não haver nenhuma reflexão por parte do que disse Karnal em relação a não existir nenhum fato histórico que não seja politico. Ele obviamente aponta a debilidade desse projeto, já que os criadores de tal absurdo são de partidos politicos. Toda opinião é um ato politico, portanto seja qual for o acontecimento historico ele tem conotação politica não importa a instancia. Por fim, não vejo que ele queira somente desqualificar os autores de tais propostas e sim mostrar o absurdo que é tudo isso.

    • 18/07/2016 at 11:45

      Valter, a verdade de sua primeira frase é a resposta para todo o resto.

  3. Douglas Barraqui
    07/07/2016 at 16:20

    Professor Paulo Ghiraldelli parabéns pelo brilhante texto de contraponto… Mas acho que você está criando muitas expectativas sobre o programa e o prof. Karnal …Roda Viva não é um local de debate, esta longe de ser… e Karnal está ali, como tantos outros entrevistados estiveram, não para abrir debates, mas para lançar ácidas opiniões… Pode ser impressão minha, mas você mente quando diz que “não tem nada a ver com a vida dele” [Karnal]. Notei um certo ressentimento, com um ar de quinto pecado capital, mas não estou criticando, na verdade vejo de forma muito saudável, Karnal precisa de um contraponto… Deixo o caro professor com uma frase que não é do Karnal, mas é apropriada por ele: “Quem pensa diferente de mim não é meu inimigo”… Grande abraço!

    • 07/07/2016 at 16:24

      Douglas eu sou velho, já vi Roda Viva inteligente. Além do mais, nunca cobrei debate, cobro reflexão. Sei que palestrante é palestrante, que não reflete. Mas não esperava tão pouca coisa. Mas, enfim, agora é assim: pessoas da mídia com claque viraram educadores.

    • LMC
      07/07/2016 at 19:20

      Isso,de colocar filósofos pra falar em
      TVs públicas tem muito na Europa,
      principalmente na França.Aliás,elas
      foram feitas pra isso mesmo.Não é
      uma opinião,é apenas uma constatação.

    • 07/07/2016 at 19:42

      Nos Estados Unidos teve um ondinha de historiadores. Não é a questão de colocar na TV, mas essa é a questão: https://youtu.be/IdU7MeXZOM0

    • LMC
      08/07/2016 at 15:10

      E pensar que Sartre quando esteve
      no Brasil,foi entrevistado ao vivo na
      Excelsior por cinco horas seguidas.
      Um dos entrevistadores foi FHC.
      Pois é…..

    • 08/07/2016 at 15:27

      FHC ainda continua um bom intelectual. Ele seria melhor se Montoro não tivesse morrido. Ele foi arrastado para uma fase ruim com o PsDB se tornando conservador.

  4. Anderson Paulino de Souza
    07/07/2016 at 11:15

    Olá Paulo. O desafio proposto por Karnal não foi o de “falar de um fato histórico importante que não fosse político” como voce expôs no seu texto, revendo o vídeo da entrevista, constatei que a pergunta apresentada pelo Karnal foi a seguinte: “Me diga um fato histórico que voce vai dar que não tenha uma opção política”?
    Penso que há uma diferença importante entre a frase que voce atribui a ele e a frase que ele verdadeiramente emitiu.
    Tal descompasso alteraria algo na sua análise?

    • 07/07/2016 at 11:32

      Anderson, eu dou mil exemplos: o viagra é puta fato histórico e não tem qualquer decisão política. O Viagra foi criado por acaso. O meu texto não muda uma vírgula com sua observação.

  5. gilmar joner
    07/07/2016 at 10:55

    Se der cadeia, espero ainda termos cela especial, com acesso a computador e a uma centena de livros e Cd de música boa, e alguns banhos de sol kkkk

  6. LMC
    07/07/2016 at 10:38

    Quem defende a tal Escola Sem
    Partido acha que as crianças
    graças aos professores marxistas(?)
    vão virar gays,pedófilos e
    comunistas quando crescerem.
    O Rodrigo Constantino já
    chamou o Karnal e o PG de
    comunistas,ora bolas!kkkkkkk

  7. Silvia
    07/07/2016 at 10:37

    Olá professor. Desculpe minha ignorância mas Foucault foi o criador da ideia de que “tudo é político”? Eu ouço várias pessoas dizendo, inclusive professores, porque ele estudou fatos da micropolítica.

    • 07/07/2016 at 11:00

      Sílvia várias forças nos anos 60 falaram “tudo é político”. Era apenas um slogan contra os que diziam que a educação deveria ser técnica, não ser minada pela política etc. Paulo Freire levou essa frase adiante. Mas era um slogan de época.

  8. Matheus
    07/07/2016 at 10:19

    Já estou esperando as antas liberais tomarem “escola sem estado é a melhor” = “privatizações são o melhor caminho”

  9. Rodrigo Bastos Monteiro
    07/07/2016 at 09:45

    Professor, obrigado pelo contraponto!

    Ao entender sua posição me lembrei de alguma coisa de Bourdieu tentando nos apresentar a disputa em um campo social.

    Tenho assistido aos seus vídeos e lido os seus textos. Sei que você não gosta de seguidores, mas de alguma forma, tenho seguido o seu raciocínio.

    De todo modo, meu ponto nesse comentário, uma vez que sou professor de alguma coisa e, além disso, já me puseram diversas etiquetas, é que eu penso mesmo que todos os fatos, inclusive a penicilina e o viagra, tem antecedentes e consequentes na política e são, portanto, políticos.

    Acredito que sua forma de apresentar a discussão ao público e trazer o debate para uma história do positivismo é “muito mais legal”. Mas acredito também que “bater” no Karnal não ajuda a fazermos força contra o tal projeto esdrúxulo.

  10. João Bosco Renna Júnior
    06/07/2016 at 22:58

    Outra fala dele que daria um bom texto é, “não existe escola sem ideologia”…pelo que vc falou sobre alguns professores doutrinadores, isso pode ser uma verdade, porém não é o propósito da escola ensinar ideologia até onde sei…a verdade é que o karnal fez uma confusão muito grande no seu discurso, ora ele diz que a direita combate uma pretensa ideologia na escola, com outra ideologia, essa palavra outra, contradiz o que ele diz logo antes, putz, que confusão mental kkkk

    • 06/07/2016 at 23:04

      Bem, nesse caso é preciso lembrar a ele que ideologia não é ideário, ideologia comporta uma parte de falsa consciência. Mas eu acho que o Karnal não está interessado em aprender, apenas ganhar dinheiro dando palestra.

    • João Bosco Renna Júnior
      08/07/2016 at 00:09

      Pelo que entendi então, ideário é um conjunto de idéias, cada uma com seus detalhes, definições, e vejo um professor ensinando ideologia, quando ele quer doutrinar a qualquer preço. Eu lembro de um professor de geografia na oitava série, que dizia que o comunismo deu certo sim na união soviética, bom, se assim fosse, acho que ele ainda existiria kkk. Não lembro bem, mas ele deve ter dito que as informações que chegaram até nós eram falsas, mas imagino que ele defendia isso por paixão, e não por reflexão, ou razão. Fico tentando saber se ele praticou ideologia, se ele ensinou ideologia. Não lembro por que a união soviética sucumbiu, mas como todo modelo econômico tende a crise com o tempo, imagino que era previsível que o comunismo se esgotasse.

    • João Bosco Renna Júnior
      08/07/2016 at 00:16

      Usando o que você disse, que ideologia comporta uma parte de falsa consciência, então talvez meu professor geografia tenha praticado ideologia em sala de aula…eu lembro que ele até balançava o corpo pra dizer que o comunismo deu certo rsrs, apesar de falar baixo, com voz moderada.

    • 08/07/2016 at 08:59

      João, boa essa!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo