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25/07/2017

A escola sem igreja é um absurdo


Escola sem partido é um absurdo. Escola sem igreja é outra tolice.

Vivemos a cultura não do “com”, mas do “sem”. Nos início dos anos 60 tiraram da escola o grego e o latim. Depois, mais tarde, tiraram tudo com a tal profissionalização. Mais tarde ainda tiraram o inglês, o francês, a educação artística, e por um certo tempo até a educação física. Nesse tempo todo, foram também tirando das mãos do professor o salário. A cultura da “escola sem” continua. Não há parada. Enquanto não tirarem tudo da escola, enquanto não enterrarem a escola e transformarem os brasileiros naquilo que o ignorante quer, ou seja, uma legião de gênios autodidatas, não vão sossegar. A regra do “sem” é a regra do burro. E a burrice existe.

Quem faz isso? Os governos, claro, mas não sem apoio da sociedade. E nisso, direita e esquerda se igualam. Todo mundo quer tirar alguma coisa. Dilma começou o governo dizendo que queria enxugar o ensino médio, que não via razão para manter sociologia e filosofia na escola. Houve um ministro do Lula, o Cristóvam Buarque, que chegou a dizer que um exame nacional para alunos deveria cobrar só português e matemática. Antes dele, Paulo Renato, do FHC, já dizia coisa semelhante. Haddad então, nem se fale, adora o “com” quando se tratava de fazer a propaganda do MEC ficar mais cara que as próprias obras.

Nenhum lugar do mundo moderno, a não ser na política do Eixo Nazi-fascista e na URSS e satélites, a escola foi controlada a ponto de se negar cultura aos alunos. Várias escolas dos mórmons americanos, tidos como “fechados”, permite que alunos estudem e se aprofundem em bioética de um ponto de vista laico. Só no Brasil a indústria do “sem” vem proliferando. E quando aparece o “com”, sempre é no sentido de favorecer o “sem”.

O artigo de Demétrio Magnoli na Folha  faz parte da cultura do “sem”: tirem a Igreja. Mas como? O que se quer? O que isso significa? Vejam o trecho capcioso:

“Na democracia e na república laica, o compromisso essencial da escola não é com os chamados “valores da família”, mas com o direito dos alunos à cidadania. O alicerce de princípios da escola são os direitos humanos universais, inscritos na Declaração de 1948, que inspiram as constituições democráticas. A igualdade de direitos entre homens e mulheres, o respeito a diferentes orientações sexuais, o repúdio a preconceitos raciais e a proteção de minorias religiosas não devem ser descritos como “doutrinação ideológica” –e não são artigos negociáveis no balcão das “convicções dos pais”. (Folha, sábado, agosto 13, 2016)

Parece lindo, liberal, até libertário não? O final, então, é apoteótico. Mas, o que estamos de fato dizendo, quando colocamos sobre nossas cabeças a Declaração de 1948? Nada a não ser política, e muito bem partidária. E o que estamos dizendo ao falarmos de escola sem igreja se, ao mesmo tempo, temos de proteger minorias, inclusive religiosas? O problema do autor do texto aí é simples, e o que ele está falando sabem bem o que é: deixem que o meu partido fique na escola sem igreja e sem partido que eu inventei. Mais uma vez, surge por debaixo dos lençóis o que autor com Magnoli quer: o meu partido e a minha igreja. Ou seja, Magnoli funda seu partido e sua igreja, o da “república laica”, como o que é universal (aquele República dele, que tem ódio às cotas étnicas!). Todos nós sabemos, após Aristóteles, que o mecanismo de tornar algo particular como universal, por um “golpe de mão”, é erro lógico. Depois de Marx, isso passou a ser chamado de ideologia.

A escola não tem que cercear nada. Todo brasileiro que nela entrar entra com tudo: crenças de todo tipo. Todo professor que nela entrar entra com tudo: crenças de todo tipo. Mas a escola é então o reino do “tudo pode”? A questão do ajuste entre a cultura de alunos e professores e a cultura escolar é o currículo e o conteúdo das matérias. Nesse caso, eu volto a insistir, não são os ideias da Declaração de 1948 que possuem legitimidade para dar a filosofia da educação vigente ou a pedagogia oficial. A escola é maior que isso.

A escola é o lugar de integração entre a cultura da  família e da sociedade com a cultura que efetivamente é universal. Qual a cultura universal legítima? Qual a cultura que, sem ser neutra, pode aspirar a uma objetividade que se aproxima da neutralidade como um ideal? Todos nós, os intelectuais do Ocidente moderno que realmente estudaram filosofia, temos um certo consenso sobre isso: a cultura escolar é boa quando baseada nos clássicos. Os clássicos são, por definição, o que a intelectualidade dos povos sente que fez a passagem entre o datado para o não-datado mantendo o datado, o que fez a passagem do particular para o universal mantendo o particular. Por isso falamos que as leis de Newton podem ser ensinadas em Tóquio de 1920 e em São Paulo de 2016, por isso falamos que a Ilíada e a Odisseia podem ser ensinadas em Moscou de 1900 e em Buenos Aires de 2016. Há para todos algo que nos faz dizer, ao se deparar com tais conteúdos: “isso mexe comigo, tem uma validade para minha vida, me vejo nisso!”

Claro que há clássicos já consagrados e há conteúdos que aspiram à condição de clássico. Regrar uma nação pela forma de república laica segundo a carta de Direitos Humanos de 1948 é alguma coisa de ordem clássica? Não creio. É algo de uma regra particular, que gostamos muito no Ocidente e nos países ocidentalizados, mas não é alguma coisa que pode ser o conteúdo de uma escola pública e muito menos uma filosofia da educação posta acima de tudo, como se fosse lei do cosmos. Escolhemos os nossos clássicos por uma característica interna deles, e precisamos pensar sobre cada conteúdo para acharmos que o eleito de fato ganhou a condição de clássico. A Declaração de 1948 não nos dá regra para a direção da escola, dá apenas indicações. Vejamos: se quero proteger minorias religiosas que não cristãs, não posso então ensinar a Bíblia na escola, sabendo que a Bíblia é o conjunto de narrativas da religião predominante no Ocidente, um lado de nossa cultura que, somado com a Ilíada e a Odisseia, diz de nossa mentalidade? Seria ridículo querer ensinar religião dando para os mitos indígenas brasileiros o mesmo número de horas de ensino, e a mesma importância, que damos para o número de horas para ensinar a Bíblia e a mesma importância que damos para o cristianismo. Isso não é traçar um juízo de valor simplório e traiçoeiro para com não-cristãos, mas é traçar um limite claro entre o que é hegemônico entre nossos conteúdos a partir do que é clássico e nos toca e entre o que nos é básico, mas nos toca menos. E como que é obtida essa hegemonia para a construção do currículo? Ora, com bom senso, com estudo, com percepção do que queremos que as crianças saibam para manter ou revolucionar um lugar (e, claro, também no meio dessa disputa epistemológica, uma disputa política). Posso enfiar cultura-afro na escola brasileira, ou cultura indígena, mas não posso, ao fazer isso, deixar os alunos ignorantes na cultura que se impôs à cultura-afro e à cultura indígena, mesmo que essa imposição tenha sido à força. Aliás, historiar essa força, mas sem criar o vitimismo, também faz parte do básico.

O debate sobre o que ensinar é um debate aberto. E é também uma construção coletiva. Portanto, não é um debate da escola “sem”, mas da escola “com”. Os alunos não podem mudar seus currículos todo ano, mas podem participar da conversação da intelectualidade que busca traçar um melhor currículo para a escola fundamental e média a cada época. Agora, se todos estão imbuídos da ideia de que o menos é que é mais, como se está agora, aí realmente não vamos emparelhar com ninguém no mundo Ocidental. Os outros países estão menos inclinados que nós a achar que escola “sem” conteúdo é a melhor.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 14/08/2016

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6 Responses “A escola sem igreja é um absurdo”

  1. Patrícia Moretto
    18/08/2016 at 17:59

    Paulo Ghiraldelli, Você chegou a conseguir dar alguma contribuição intelectual relevante à humanidade ou já lhe esqueceram nas universidades e em outros ambientes?

    • 18/08/2016 at 18:02

      Patrícia, você está com problemas mentais? “Esqueceram na universidade”? Acha que nossa legião de doutores faz pouco? Querida, cê tá por fora. Você faz parte dos brasileiros (só aqui no Brasil isso ocorre) que não sabe que os professores fazem, a cada aula, uma contribuição para a Humanidade que faz a Humanidade ser Humanidade. Não à toa, durante anos, nossa atividade foi chamada de atividade dos humanistas.

  2. LMC
    15/08/2016 at 13:45

    Nenhum dos ex-ministros da Educação que
    o PG citou quis melhorar a escola pública-ou
    chegar perto disso.É mais fácil criar cotas
    em troca de votos nas eleições e pra ficar
    de bem com os Safatles da vida.

  3. Waldir Souza Guimarães
    14/08/2016 at 19:26

    Como professor quase aposentado de Universidade posso dizer, infelizmente, que o termo “educação” tem perdido cada vez mais o seu sentido.

    E assim como em geral não se procura (ou não se quer) discutir quase nada que é importante para o educando, assim também, parece, não se discute a própria educação.

    Muitos (ou a maioria) vão para a escola apenas como uma obrigação, melhor dizendo, uma exigência de mercado. Quem vai para lá acreditando que aprenderá algo realmente útil para si?

  4. Eduardo Rocha
    14/08/2016 at 18:04

    Paulo, as obras do Peter Sloterdijk já são clássicos? E quando sai teu livro sobre ele?

    • 14/08/2016 at 18:23

      Eduardo, tá no caminho! Sobre meu livro, há dois, os dois no prelo. Um deles, o maior, tem que sair antes da ANPOF, antes de outubro.

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