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17/08/2017

Escola dos “quase brancos pobres como pretos”


O Haiti é aqui

Aos 14 anos somos todos burros. Mas o problema é que gente de mais de 14 anos, que é realmente burra, acredita que aos 14 anos somos inteligentes. É gente do governo, pedagogos do governo!

Se há uma idade que somos burros, é na adolescência. Por isso, talvez seja exatamente na adolescência que menos deveríamos ser deixados ao sabor de nossas próprias escolhas. Todavia, a reforma educacional proposta pelo governo Temer (cujo espírito é o mesmo daquele que emergiu com o governo FHC e se manteve nos governos Lula e Dilma) é o ápice da ideia de que o adolescente têm o que precisa ter (no Brasil!) para decidir por qual área de conhecimento deve optar e, então, selar seu destino. Pensar assim é uma forma de descaso para com a adolescência.

Os gregos eram tão preocupados com a adolescência, que inventaram para ela a pederastia. Foi o único sistema de ensino social que funcionou para adolescentes ocidentais. Implicava em não deixar o adolescente sozinho, sem um adulto de companheiro, em nenhum momento. Quando o Ocidente optou por outras formas de tratar a adolescência, nunca mais acertou a mão.

O Brasil faz parte do espaço ocidental onde a perda da mão com a adolescência abriu a porta para experiências pedagógicas estúpidas num grau assustador. Estamos nisso. Queremos tratar nossa juventude no toque da lírica de Caetano: escola própria para os “quase brancos pobres como pretos”. Eis o lema: vamos dar menos para quem deve mesmo merecer menos.

A reforma educacional de Temer tem três pilares, e os três se mostram não propriamente pilares, mas andaimes de uma tapera. A primeira ideia básica é a de oferecer menos disciplinas. Há um nítido enxugamento do currículo. Uma esperança de se ter menos professores especializados. Trata-se da proposta maluca de oferecer uma escola para quem, no limite, se entusiasma com menos e, portanto, no fundo, não tem nenhum desejo de estudar e aprender, tem o desejo – talvez – de conseguir um diploma. A segunda ideia básica é de achar que uma base curricular comum, uma vez diminuta, salva o projeto dos males possíveis do enxugamento proposto na primeira ideia básica. Por fim, a terceira ideia básica é aquela já comentada: tornar a escola atrativa, supondo que ela, até então, não tem sido atrativa porque ensina aquilo que o adolescente não quer aprender! Ora, mas o que um adolescente quer aprender? Adolescente, salvo casos esporádicos, não quer aprender nada. Nada que caiba em algo chamado disciplinas. As disciplinas da escola, para o adolescente, são um mal necessário para que ele possa encontrar “a turma”. Sempre foi assim. Não é ampliando escolhas de “áreas” que ele vai se interessar pela escola. Aliás, como já disse, mesmo que ele seja alguém que já vem de um meio intelectualizado, que tenha noções de “área de conhecimento”, nessa idade nada o fará se apresentar como um jovem consciente, que quer profissão ou quer casar etc., como são apresentados os jovens na propaganda da TV, veiculada pelo MEC, e paga com o nosso dinheiro. Bem paga, por sinal!

O que vai ocorrer no Brasil é que iremos gerar uma multidão de pessoas jovens, entrando para a fase adulta, incapaz de resolver uma regra de três ou incapaz de entender que uma minoria sociológica, como o IBGE fala em minorias, não quer dizer uma minoria numérica. O Brasil se transformará numa fábrica de bolsonaretes tipo Alexandre Frota! Vamos diminuir a capacidade do brasileiro de entender aquilo que compõe o saber básico de condução da vida. Geraremos uma massa de pessoas incapaz de filtrar notícias da Internet e, com certeza, incapaz de entender o JN da Globo. Outro dia mesmo a Globo falou de descobertas da evolução, de fósseis no Brasil, e depois em enquete viu que ninguém entendeu do que se tratava. Afinal, temos já uma população sem escolas, educada no “criacionismo” evangélico. Há deputados, empresários e até médicos achando que Moisés tinha mesmo um cajado que virava cobra, e que a Bíblia é para ser lida literalmente. A falta do ensino médio dá nisso.

Com a reforma do Temer, vai piorar. O Brasil pode sim gerar estudantes que, como Olavo de Carvalho, acreditem que a Pepsi Cola usa de adoçante fabricado a partir de fetos humanos. Pode sim gerar estudantes que, como Pondé, acreditem que o mundo está infestado de comunistas. Pode sim ter estudantes que achem que uma cenoura e uma vaca são a mesma coisa, segundo a crença do palestrante Karnal. O direito de ser energúmeno deixará de ser um direito para se transformar num dever.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 07/08/2017

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4 Responses “Escola dos “quase brancos pobres como pretos””

  1. Jessica
    08/08/2017 at 12:40

    Professor, não só apenas sobre esse texto, mas sobre a maioria: sua capacidade de ser didático e desdenhoso é admirável. Queria eu um dia escrever assim, com essa habilidade de misturar ironia, pragmatismo, inteligência e bom humor… é algo como Dr. House e Douglas Adams, só que com formação real.

    • 08/08/2017 at 15:51

      Jessica, eu sou menos desdenhoso em livros, deixou um pouco da ironia provocativa para o blog, pois aqui sempre há mais lugar para o humor. Afinal, é sempre interessante rir um pouco dos sabichões, né?

  2. Tony Bocão
    08/08/2017 at 08:15

    O efeito já é notado, pelo menos onde estou, se faz o básico do acordado, de forma estritamente comum, com neutralidade de efeito, o destaque é impressionante, eis o novo funcionário do mês, basta ficar parado e respirando para ser promovido, parece uma idiotice isso que escrevo, mas a maioria absoluta tem sérios problemas emocionais, educacionais (cada email interno que recebo de advogados e engenheiros que doem as vistas) e de convívio. Será por isso que “Grito de guerra da mãe tigre” virou bestseller ?

  3. Hilquias Honório
    07/08/2017 at 18:13

    Eita, o Brasil tá mal das pernas. E parece que ninguém vai fazer nada para impedir a aprovação dessa reforma. E olha que muitos tolos desavisados ainda dizem: “esse governo tá dando um passo na direção do futuro”. Direita e esquerda querem cair nessa armadilha.

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