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21/11/2018

Então, a filosofia é a culpada pelos rebentos não estudarem matemática é?


[Artigo para o público em geral]

Entramos na escola e aprendemos as sequências numéricas. Logo percebemos que após um número sempre é possível acrescentar outro. Formamos a partir daí nossa primeira noção de infinito. Trata-se de uma noção filosófica, mas a aprendemos antes na aula de matemática que na aula de filosofia. Mas se ficamos um pouco mais velhos e nos mantemos na escola, chega a hora de ultrapassarmos a noção de infinitivo exclusivamente quantitativa. Chega a hora da aula de filosofia.

Levinas é um filósofo contemporâneo que muito utiliza a noção qualitativa de infinito. Ele busca tal noção em Descartes que, por sua vez, de certo modo repete Santo Anselmo. A questão aí é relativamente fácil de aprender: temos a noção de algo muito perfeito, mas, então, sempre podemos pensar em algo ainda mais perfeito. Diante disso, podemos pensar que há o perfeitíssimo, que temos a ideia em nós, que somos imperfeitos, do perfeitíssimo. O nome do perfeitíssimo, tanto para Anselmo quanto para a Descartes, é um só: Deus. Para provar a existência de Deus, tanto Anselmo quanto Descartes lançaram mão do seguinte raciocínio: se tenho a ideia de Deus e Deus é o perfeito, então Deus existe (para fora do meu pensamento), pois caso contrário eu não teria a ideia de Deus, ou seja, a ideia do perfeito como perfeito, mas um pseudo perfeito; a ideia que eu teria seria de algo não completo, pois lhe faltaria a propriedade da existência; não seria o perfeito, não seria Deus. Levinas aponta para isso em um sentido não da prova da existência de Deus, mas no sentido de louvar a ideia de infinito qualitativo: Deus ou a Perfeição. É uma noção de infinitivo que não se resume à noção de infinito numérico, e que temos em nós.

Assim, a aula de matemática dá uma noção inicial de infinito. A aula de filosofia, depois, dá uma noção mais sofisticada de infinito. Ambas são formadoras de nossa capacidade de pensamento, de raciocínio, de possibilidade de, dominando a cultura, enfrentar melhor as vicissitudes da vida. Por isso, a escola não tem só aulas de matemática, mas também de filosofia. Tudo na sua hora. A aula de matemática começa cedo, e dá noções filosóficas. A aula de filosofia começa um pouco mais tarde, e dá condições de complementarmos o que aprendemos na matemática e de aprendermos melhor os conceitos matemáticos. Assim é a escola. Se não é assim, ao menos deveria ser. E muitas são assim.

Quem não passa pela escola ou só passa por uma escola muito ruim, pode se tornar um profissional capenga. É o que ocorreu com o moço ligado ao movimento “Escola sem Partido”, e que fez uma pesquisa, junto com uma colega, para dizer que as crianças não aprendem matemática porque têm aulas de filosofia (Folha de S. Paulo, 16/04/2018). Trata-se do rapaz Adolfo Sachsida, que fez o trabalho mostrado pela Folha (pela repórter de Érica Fraga, que nada tem a ver com a pesquisa) em colaboração com a moça Thais Waideman Niquito. Eles dizem que horas de aula gastas com filosofia são horas de aula tiradas das aulas de matemática, e que isso prejudica os alunos, faz com que eles piorem em notas de matemática. Eles, os dois pesquisadores, não sabem que as duas matérias são igualmente importantes. Eles também não sabem que a filosofia no ensino médio tem só 50 minutos por semana, e que não são esses minutinhos que vão tirar as crianças das repetidas continhas da matemática. Por que desconhecem isso? Ora, por uma razão simples: não fazem a menor ideia do que é escola, grade curricular, teoria do currículo e muito menos o que é o conteúdo da escola no Ocidente. Eles dois fazem parte desse movimento anti-cultura que se insurge contra a ciências humanas na escola, mas que, de fato, também não entende nada de outras ciências e muito menos do que é uma pedagogia, uma teoria do ensino. Na verdade, esse movimento não entende a razão da escola como instituição ocidental.

Por que então essa gente tem espaço em jornal? Por duas razões: quanto ao “Escola Sem Partido”, o pedido de não ideologizar o ensino é legítimo, embora o movimento que o defende não faça tal coisa senão por desejos policialescos – é gente que erradamente pensa que aula de filosofia é aula de doutrinação de esquerda. E a esquerda, por sua vez, não sabe responder a tal pedido da sociedade, de desideologização do ensino, pois de fato acha que tudo é ideológico; quanto à questão de atacar a filosofia, isso se deve ao fato de não entenderem o que é o conteúdo filosófico do saber em geral no Ocidente. Nesse segundo caso, contam também com a má defesa que a esquerda faz da escola. No fundo, a esquerda é tão mal preparada quanto a direita. Só que a direita, se tiver suas ideias vingadas, realmente atrapalha bem o próprio funcionamento normal da escola. Por quê?

Simples responder. A direita, que é bem encarnada pelos dois pesquisadores mostrados pela Folha, joga a favor da reforma do governo (Dilma-Temer) que, enfim, quer legitimar um currículo empobrecido, com a desculpa de que tal currículo será mais útil ao jovem. Ora, um currículo enxuto é um currículo pobre, esvaziado, e só o aluno vagabundo, só o estudante que quer ser um profissional fraco é seduzido por tal propaganda.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

PS: Vamos ser sinceros, o buraco é mais embaixo: os autores da pesquisa não fazem ideia de quem seja o Tales do Teorema de Tales; não sabem que é o Platão dos Poliedros de Platão; não fazem ideia de quem é o Pascal do Triângulo de Pascal e talvez nunca tenham perguntado quem é o Pitágoras do Teorema de Pitágoras. E por aí vai. Não sabem filosofia. Mas também não sabem matemática básica.

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4 Responses “Então, a filosofia é a culpada pelos rebentos não estudarem matemática é?”

  1. Henrique
    18/04/2018 at 19:52

    Sobre a noção de infinito, o Richard Rorty diz no livro A Filosofia e o Espelho da Natureza que o infinito é uma metáfora visual, ele dá um exemplo, percebemos duas cadeias de montanhas em paralelo, e visualisamos duas linhas paralelas infinitas. É isso, Paulo?

  2. LMC
    18/04/2018 at 11:18

    Papo-furado.Os defensores da Escola
    Sem Partido querem É IDEOLOGIZAR
    o ensino,dizendo que o nazismo foi de
    esquerda,que Paulo Freire e Darcy
    Ribeiro foram comunas(?)que só a
    esquerda que é corrupta,que Trump
    é melhor que Obama,etc,etc,etc.

    • 18/04/2018 at 11:22

      Qual o papo furado? Isso que você disse todo mundo sabe. Achar que a direita fala e não fala verdades é ser um pouco burro. Não levar a sério o que há de verdade nos discursos ideológicos é burrice meu caro.

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