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28/06/2017

Ensino médio reformado: quando o menos é menos mesmo!


“Meu corpo, minhas regras”. Esse lema não vale para ninguém, em nenhuma sociedade. Ele vale menos ainda quando o espírito que o anima começa a colonizar todo o fluxo do pensamento de uma época. A própria noção de regra desaparece. Regra é norma coletiva, para colocar ordem de convivência em um grupo heterogêneo. Se cada um tem diretrizes que lhe são próprias, que são de seu gosto exclusivo, então não temos mais regra. Não há jogo.

“Meu cérebro minhas regras” não é um enunciado que se possa declarar válido para a grade curricular de uma escola. Caso isso seja feito, teremos tudo, menos uma escola. Não posso criar uma escola que tenha uma grade curricular que seja empobrecida para favorecer a ignorância do aluno jovem, e esperar que, mais tarde, o país ainda reconheça nessa instituição algo que mereça o nome de escola. Não faz sentido um estudante concluir que não gosta de determinada área do conhecimento aos 14 anos de idade, sem ter tido contato com tal área. Não faz nenhum sentido tentar acabar com a evasão escolar dizendo para o aluno que ele vai ter uma escola bem fácil, sem matéria que ele não gosta. Um aluno que aceita esse discurso para ficar na escola não ficará na escola de modo algum, ele não está interessado em estudar.

Todos nós sabemos que quando oferecemos um serviço menor e empobrecido, a clientela que se dirige a ele é menor e empobrecida. Por definição, é o rebotalho. O Governo Federal estará oferecendo, com essa Reforma do Ensino Médio, uma escola com a desobrigação de disciplinas fundamentais, não só a filosofia e a sociologia, mas agora até mesmo a história. Isso sem contar o quanto já perdemos de línguas e até de literatura. No limite, parece que estamos caminhando para uma expansão do tempo de permanência na escola ao mesmo tempo em que se eliminam conteúdos do preenchimento desse tempo. Acreditem, isso não vai dar certo. É irracional, irrazoável, tolo e, enfim, um crime contra a juventude do país.

Que o governo pague propagandas para tornar isso palatável, por meio de comerciais que contam mentira na TV, ou por meio de Youtubers analfabetos ou ignorantes, gastando o nosso dinheiro, já faz parte do próprio projeto de economia em educação que é um erro crasso. Uma continuação de uma ideia do Governo Dilma.

Paulo Ghiraldelli Jr, 59, filósofo. São Paulo, 18/02/2017

10 Responses “Ensino médio reformado: quando o menos é menos mesmo!”

  1. Frank
    01/03/2017 at 18:47

    O fato é: você fala o que te dá na cabeça, Paulo. E não tem outro argumento senão apelar à autoridade de Sócrates, citando-o: “Quando perguntado, o livro sempre dá a mesma resposta”. Ora, recebe a mesma resposta quem é burro, quem não sabe interpretá-lo sob diferentes perspectivas. Eu leio um mesmo livro de Kant dezenas de vezes, e em todas elas aprendo algo novo e recebo respostas novas. Por fim, ainda lanço minhas conclusões às garras da hermenêutica kantiana.

    Desculpe-me, mas a filosofia é um processo majoritariamente solitário. Filósofos podem ser professores e se dirigirem a auditórios cultos ou incultos, mas pela noite são lobos solitários. A dinâmica da qual você fala é apenas uma troca de conhecimentos, troca essa que também está presente sobretudo nos livros. De fato, hoje, não menos que no passado, a filosofia se dá por uma disputa de ordem literária. E a dinâmica escolar da qual você fala é nada mais que formalismo recreativo de ordem acadêmica. Faça o seguinte, abandone os livros. Vá aprender exclusivamente com os seus círculos de estudo. Será que dá para progredir? Impossível. Você jamais sairia do seu universo de filosofia social contemporânea, ouvindo sobre o máximo que é ler Sloterdijk, sobre o neopragmatismo de Rorty, os antirrealistas da filosofia analítica americana e blá blá blá, quando há muito mais para se aprender.

    Enfim, você generaliza demais, Paulo. Eu concordo com você que o “autodidatismo” é capaz de gerar monstros. Mas esses “monstros” carecem justamente daquela autonomia da qual você fala em outros textos. Eles são completamente enviesados, e não estão comprometidos com a episteme.

    O conhecimento nos é apresentado de forma fragmentada. Se eu tivesse conhecimento de todas as variáveis, todos os dados, todas as informações e fatos particulares que concernem ao meu objeto de estudo eu jamais erraria. O que você chama de monstros do autodidatismo eu chamo de indivíduos imaturos, que erram porque julgam ser completamente racionais, quando em verdade basta o conhecimento de um simples novo fato particular para lhes fazer “despertar do sono dogmático”.

    • 01/03/2017 at 19:17

      Frank você ouviu o galo canta mas não sabe onde e como. Não há muito como lhe ajudar.

  2. Frank
    01/03/2017 at 11:10

    Em primeiro lugar, é tolice pensar que todo o conteúdo ensinado nas escolas é essencial para a vida profissional e acadêmica do jovem – e é disso que se trata, preparação para o mercado de trabalho e para a carreira acadêmica. De fato, boa parte do que se aprende nas escolas é inteiramente descartável após a especialização em determinada área, e isso não deixa de ser verdade mesmo para quem cursa filosofia, que é uma disclipina teórica muito abrangente. Ou será que algum filósofo se arrependeria de não ter obtido conhecimento avançado de química orgânica ou de não ter aprendido a resolver um Binômio de Newton a despeito de qualquer utilidade prática disso para a sua área?

    Em segundo lugar, jovens não precisam – e nem devem – ser ovelhinhas dos professores. A finalidade última da prática pedagógica deveria ser a erudição, e não a acumulação de conhecimento inútil que só serve para avaliar quem tem maior capacidade e paciência de absorver todo aquele conteúdo superficial e mecânico que não possui qualquer utilidade prática.

    Eu não devo nada a nenhum professor. Isso não significa que não tenho respeito por eles. Eu apenas nunca dependi deles. Todo o conhecimento e habilidades teóricas que tenho se devem ao fato de que aprendi desde cedo a ter erudição e a buscar conhecimento por conta própria. E se você diz o contrário, Paulo, eu espero que tenha embasamento para isso, e não apenas uma suspeita irracional e preconceituosa para com o autodidatismo.

    Enfim, eu quero um serviço menor, sim! Quero liberdade – e liberdade significa escolher aprofundar no que eu realmente julgo importante – em vez de estudar uma torrente de conteúdos aleatórios apenas para amassear meu ego na competição por classificações vestibulares que apenas definem quem são as ovelhas mais obedientes do rebanho – e não quem são os melhores entre os melhores, afinal para isso ter-se-ia que analisar o problema sob a perspectiva de um juízo moral de mérito, em termos de “desert”.

    Contudo, eu não vou entrar na questão da reforma. Pouco me importa se é uma proposta coerente ou não. Apenas quis contrapor algumas questões levantadas no texto.

    • 01/03/2017 at 11:37

      Eu diria para você fazer o ensino médio de novo, para aprender o binômio de Newton, e então ver para que serve. Mas, no seu caso, é bobagem, não vai conseguir aprender. Sobre base para falar contra o autodidatismo, não é necessário, trata-se de uma burrice que se auto-denuncia, como você fez escrevendo toda essa bobagem.

  3. Anderson Luiz da Silva
    22/02/2017 at 22:05

    Então, vamos repetir o mantra… “é tudo culpa do PT”. Está ficando estranho esse mantra, mesmo para quem nunca acreditou nesse partido.

    • 23/02/2017 at 16:35

      É tudo culpa do PT é talvez a maior verdade que existe na TERRA. Até aquilo que jurávamos que não, é culpa do PT. Agora, no caso do ensino médio, essa reforma que está aí é a do PSDB junto com o PT. Ambos gestaram fases desse reforma. FHC chegou a defender algo parecido, Dilma também. Lula não defendeu nada, apenas aparelhou o MEC.

  4. Juliana Silva
    18/02/2017 at 23:58

    Muitas vezes os alunos não sabem o porquê ou para quê estão aprendendo determinados conteúdos (reflexo do próprio ensino). No ensino superior me deparei muito com o pensamento ” hum então é pra isso que serve”. O aluno pode eliminar uma matéria que será fundamental. Será que os jovens estão prontos para essa decisão? Penso que não.
    E só um detalhe, nas provas de vestibulares os alunos vão poder escolher também não responder estas matérias não cursadas?

    • Matheus
      19/02/2017 at 16:03

      Pois é, duvido que a estrutura dos vestibulares vá mudar, ou seja, cada vez menos alunos dá rede pública vão ter chance de entrar…

  5. Amanda
    18/02/2017 at 22:54

    O que não consigo compreender mesmo, Temer, um homem que tem livros publicados e ao que parecia, ter um alto nível de cultura, estar emaranhado nessa rede da reforma do ensino brasileiro. Talvez se o sr. enviasse esse texto para ele e para o ministro Mendonça, qual seria a reação de ambos? Impossível que algo não os sensibilize. De fato, parecem não estar interessados em escutar o professorado e o alunado. O que pretendem ante esse projeto nefasto?

  6. Goia, O sono da Razão produz Temers
    18/02/2017 at 21:51

    E o lema desse governo Temer é “Ordem e Progresso”?Augusto Comte deve estar se revirando em seu túmulo, la no Cemitério do Pére La Chaise, em Paris! Logo ele, que dava à Educação um papel central na sociedade de seu tempo, filho do Iluminismo do século XVIII que era, em que pese algumas contradições e ambiguidades de seu pensamento. Esse Michel Temer está mais para o obscurantismo que qualquer outra coisa. Espero que o mestre Ghiraldelli não me xingue muito com esse meu comentário…

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