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26/09/2017

Não há ensino médio no Brasil, não há ensino no Brasil


Há uma forte tendência entre professores universitários, teóricos da educação e até filósofos em negar a própria formação. A educação dos mais jovens deve ser “científica e técnica”, dizem eles. Ou então: a educação dos mais jovens deve ser aquela que não foi a minha. Nesse último caso, às vezes, porque “a minha” é só minha, e dos meus filhos. O filho do outro precisa de uma educação “voltada para o mercado de trabalho”.

Uma formação humanística, que não perca a referência dos clássicos da filosofia e da literatura, deve então ser abolida do ensino médio. Na universidade, este tipo de formação deve ser deixada em guetos. Assim pensa esse pessoal que, em geral, acaba ocupando cargos na administração da educação brasileira.

O brasileiro sai-se mal em matemática e ciências nos exames internacionais. E eis que a culpa é do currículo. Uma aula de filosofia ou duas de história ou uma aula perdida de geografia se tornam, então, o problema maior. Não se atenta para a seguinte observação objetiva, já avisada por avaliadores: o brasileiro sempre irá se sair mal em qualquer prova de conhecimentos, e inclusive na prática do trabalho, porque ele não entende o texto que expõe a questão, não é capaz de “seguir procedimentos”, não tem habilidade para equacionar um problema porque não tem mecanismos linguísticos para tal.

Aulas de português e redação não ajudam. O que resolve o problema é uma escola que não dispense as Humanidades e que se mantenha propedêutica à universidade. Para compreender textos é necessário gostar de ler textos bons, e efetivamente lê-los – acompanhado de professores. Eis o que se necessita como escola. Essa escola precisa de bons professores. Então, uma medida acoplada a essa é a de pagar bem os professores.

Já se defendeu no Brasil a tese de que o ensino médio deveria preparar elites – inclusive elites políticas. Essa tese foi vista como não democrática, caiu em desgraça, e foi substituída pela tese exclusiva e realmente não democrática, mas com a bandeira da democratização do ensino empunhada por ninguém mais ninguém menos que os educadores da Ditadura Militar. Eles transformaram a escola de ensino médio em profissionalizante (LDBN 5698/71) e, então, descaracterizaram de vez tal nível de ensino, que de lá para cá nunca mais se recuperou. Agregado ao arrocho salarial dos professores, que nunca parou de todo, estamos aí no que estamos: nove anos de ensino fundamental e, então, um período confuso seguido de alunos infantilizados e emburrecidos entrando em universidades federais.

O resultado já se faz sentir. Numa sala de uma universidade federal, com 36 alunos presentes, nenhum deles sabia ou significado da palavra “falo”. Nunca ouviram. Postos diante de estatuetas de deuses fálicos, dessas que qualquer garoto curioso pega na Internet, começaram a gritar: “pornografia”! O professor perguntou: “símbolo fálico, não ouviram, nunca?” Não! Nunca! Não estavam mentindo.

Ora, ensinar o que para alunos de cursos de licenciatura em uma universidade federal, nessa situação? Vindos de lares onde ler um livro é sinal de “viadagem” ou “coisa que não dá futuro”, dominados por igrejas caça-níqueis, esses alunos tiveram apenas o ensino fundamental, se alfabetizaram de modo sofrido e, então, passaram a escutar a ladainha de um pastor analfabeto e/ou malandrão, preocupado somente com o dízimo. Levaram com a barriga três anos de “colégio”, três anos perdidos, e conseguiram uma vaga em algum curso de licenciatura em uma Federal. Essa é a realidade intelectual de muitos alunos que irão se formar professores por meio de universidades federais. Estão se formando. Não são pessoas, são meias pessoas somente. Caso se pergunte num departamento de educação dessas universidades se isso que eu disse é verdade, os doutores lá irão negar. Ninguém na área que cuida da licenciatura ou, agora, até mesmo em outras áreas (que possuem alunos mais ricos e que tiveram de fazer um vestibular um pouco mais puxado), tem a coragem de afirmar o que eu afirmei sobre a situação real do ensino brasileiro. Temem que se saiba que não são, de fato, professores universitários, pois não estão ensinando adultos jovens, mas algo que ninguém sabe direito o que é.

O fato é que sem a boa escola média não há ensino superior no Brasil. E é exatamente isso que estamos vivendo. O desaparecimento do ensino superior no Brasil, a única coisa que o MEC efetivamente administra. Penso que logo o governo poderá fazer uma boa economia, extinguindo o MEC. Teremos só ensino fundamental, e este já está nas mãos dos estados e municípios, alfabetizando pessoas em … nove anos!

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

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8 Responses “Não há ensino médio no Brasil, não há ensino no Brasil”

  1. Luciano
    26/03/2015 at 16:31

    Os alunos estão tornando o ensino superior inviável. A geração que está entrando para o ensino superior atualmente não possui e nem fazem idéia do que seja o espírito do auto desafio.

    Não tem vontade de tentar superar as próprias deficiências, não há interesse. São simplesmente estagnados e repetidores, salvo poucas excessões.

    A Universidade vem descendo o nível dos cursos cada vez mais para se adaptar a eles, ao ponto de que um assunto de nivel médio lá fora é o assunto do nível superior por aqui.
    Outras oferecem cursos de nivelamento mas é ineficiente tentar arrumar em um ano o que foi destroçado em uma vida.

    acho que o pior de tudo é que eles não percebem a situação deles e os doutores colocam panos quentes.

    • 26/03/2015 at 16:57

      Luciano a desgraça é que já há professor vindo dessa leva!

    • Luciano
      26/03/2015 at 20:01

      Realmente é uma desgraça.
      Paulo nesta frase você mata a pau “não tem habilidade para equacionar um problema porque não tem mecanismos linguísticos para tal.”
      Para entender qualquer coisa, é preciso raciocínio, e o raciocínio só é possível se o indivíduo possuir mecanismos linguísticos de base bem estruturada. Sem isso o raciocínio usual já funciona torto, imagina quando é exigido raciocínio abstrato deste indivíduo. Vide as dificuldades citadas em matemática e ciência.

    • 26/03/2015 at 20:07

      Luciano, essa foi uma frase (mais ou menos) dos avaliadores dos exames internacionais, sobre o estranho caso brasileiro, de um país que não é tão pobre para estar com a educação tão ruim.

  2. Rafa
    26/03/2015 at 16:26

    Olá Paulo, concordo com você. Desculpe a minha ignorância, mais de forma pratica, além de ler os livros, como adquirir essa leitura analítica? como elaborar questões e respostas objetivas, delimitadas ao que foi proposto? Eu estudo filosofia, tenho encontrado dificuldade nisso… você com sua fasta experiência de filosofo, poderia me ajudar? quais hábitos e formas, poderia influenciar o meu crescimento?

    • 26/03/2015 at 17:00

      Rafa! Filosofia é algo da confraria. É necessário estar junto dos filósofos, interagindo. Ler é ler acompanhado, com a técnica de um filósofo. Cobre de seus professores que corrijam seu texto, ali, junto com você. Falo de alunos que estão no ensino médio e que não conseguem fazer nada! Não é seu caso. Seu caso é de pegar uma heurística de leitura. Isso é feito com o filósofo. O CEFA existe também para isso. Participe, venha num curso ou encontro nosso. Dia 14 a 16 de maio tem um sobre subjetividade moderna. Antes, de 18 a 21 de abril tem encontro de Sloterdijk, que inclusive é preparado virtualmente aos domingos 19 horas usando o VSEE.

  3. Maximiliano Paim
    26/03/2015 at 11:49

    Por isso larguei a licenciatura para entrar para o bacharelado de filosofia, a minha vocação, assim entendo. Claro, isso aprendendo muito com o Paulo Ghiraldelli aqui.

  4. Archidy
    26/03/2015 at 08:52

    Paulo, estou a estudar Licenciatura em Física, na UFCG, mas não vejo meus professores me ensinando a ser educador, mas a ser formulador de cálculos matemáticos, e só. Se eu não estudasse e lesse, por fora, não teria, provavelmente, as bases que deveria se ter tanto na Ciência quanto na Filosofia para poder dar aula. Na Universidade, na maioria das vezes, o que se tem são fofocas nos corredores, aluno puxando saco de professor para ter bolsa e professor voltado apenas para políticas universitárias. Eu perguntei por que não ler Paulo Freire e me disseram que eu deveria estudar apenas o que é passado em sala de aula no que diz respeito à demonstração de fórmulas matemáticas para se chegar a fórmulas newtonianas, dentre outras. Não me vejo como professor do Ensino Fundamental e Médio e não faço ideia do que seja passar um conteúdo, em sala de aula, para a turma. Talvez porque ainda falte estudar Didática.

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