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22/07/2017

Ensino Médio: no Brasil os adultos querem trocar de lugar com as crianças


A tendência geral na classe média ocidental é a de diluir a diferença entre pais e filhos. O psicanalista meu amigo, Contardo Calligaris, anunciou isso em um programa Hora da Coruja. As mesmas vestimentas, os mesmos gostos e, agora, até a prática do vídeo game. Logo logo ambos, jovens e pais, estarão fazendo sexo igual, dado que não aprendem tal coisa com mulheres, mas com os mesmos filmes pornôs. Por isso fazem mal.

O que vem disso é que, em alguns países ocidentais (e o Brasil já está ganhando dos Estados Unidos nisso) as novas gerações não ganham amadurecimento, mas são postas, por decreto, diante de direitos que não sabem usar. A Reforma do Ensino Médio proposta por MP do governo Michel Rousseff é exatamente isso, uma grande inversão de responsabilidades. O menino de 15 anos, que é menor de idade em todos os sentidos, do alto de sua genialidade (sim, no Brasil todos os pais têm filho gênios e, como eles, autodidatas), vai escolher a sua grade curricular. A partir de uma decisão convencional (veja o artigo anterior) questionável, que mantém Português, Matemática e Inglês como disciplinas obrigatórias, o garoto irá criar a sua grade curricular e traçar seu futuro. Irá então programar da sua cabeça o que irá aprender nos próximos três anos! Ou seja, terá a pá para cavar sua cova.

Todos sabemos que aos 18 anos, na universidade, ninguém sabe o que realmente quer. Acreditar então que aos 15 anos já se pode escolher um campo de estudos, é um pensamento de uma sociedade em que os adultos mafaldaabriram mão de serem adultos. Eles, adultos, não podem ensinar as crianças, devem deixá-las decidir o querem aprender. E elas todas, até os alunos maduros e geniais, decidirão: vamos nos livrar das disciplinas que não gostamos, das disciplinas que não conseguimos aprender. Assim, cada aluno poderá traçar o seu próprio caminho, o caminho de ser mais burro do que já é. Acreditar que isso pode ocorrer de modo diferente é se esquecer de sua própria juventude. Essa autonomia ganha por decreto é justamente a autonomia que não tem sentido conceder para a juventude. É mais fácil conceder a autonomia para um garoto mudar de sexo aos 15 anos que lhe dizer que ele pode traçar seu próprio currículo. Isso é trair a juventude. Isso é lhe dar uma arma na mão para que ela faça roleta russa, esperando que ela tenha sorte e não morra na primeira rodada.

Sou de uma geração que aprendeu o que aprendeu, e não foi pouco, porque adultos inteligentes prepararam nosso caminho escolar. Só no terceiro colegial é que resolvi criar uma “classe de ciências humanas” (em plena Ditadura Militar), e para tal consegui assinaturas e reivindiquei ao diretor da escola tal desejo. Deu certo. Mas, mesmo assim, acho que foi uma decisão precipitada, tanto é que depois, na universidade, voltei a estudar matemática com professor particular, nas madrugadas. Mas eu tinha tempo, outros já não podiam mais fazer isso, e selaram seus destinos.

No Brasil já não é mais o estado que quer se desresponsabilizar pela educação. Essa crítica já nem vale mais. Agora são os adultos que querem se desresponsabilizar de serem adultos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 24/09/2016

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E mais, lembram disso?

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3 Responses “Ensino Médio: no Brasil os adultos querem trocar de lugar com as crianças”

  1. Hugo Lopes de Oliveira
    25/09/2016 at 18:17

    O Ensino Médio tem que ser justamente o contrário do proposto pelo Michel Rousseff. O Ensino Médio serve para dar cultura geral, e por isso você deve aprender desde matemática e química, até filosofia e sociologia. A especialização é dever da Universidade, não da escola média. Oferecer ao aluno uma cultura restrita, e não mais geral, é piorar e muito aquilo que já vai mau. Imaginem só um químico que não estudou filosofia, e por isso não conhece as regras da ética. Imaginem um sociólogo que não estudou física e por isso não consegue trabalhar com estatísticas e gráficos. Será uma tragédia nacional!!!

  2. bony
    25/09/2016 at 03:23

    isso eh realmente absurdo. aos 17 eu nao saia qual faculdade queria cursar. depois de um ensino medio relativamente bom, tive que fazer varios vestibulares e passar por varios cursos, entre eles biologia, direito e design para entao, aos 19, me identificar com o curso de historia da arte da uerj. eu so tive tantas possibilidades de escolha pois tive um ensino medio que me abriu um leque. nao quero nem imaginar o que eh um aluno universitario que nunca frequentou a mesma diversidade de disciplinas a que eu fui exposto no ensino medio.|

  3. Edson Vergilio
    24/09/2016 at 11:28

    Antigamente no tempo em que se tinha família ( avós, país, mãe educadora, pai moderador e professor nas escolas) se aprendia isso e até fazia parte dos exame vestibulares ( até nos de direito e pedagogia), e caso o aluno não soubesse, não fazia o curso e não virava doutor em nada e muito menos delegado ou juiz e muito menos ainda mestre e doutor naquilo que não sabe nem para ele e muito menos para ensinar os outros e formas discípulos aptos. Pobres menores ricos e pobres, criados sem pai e nem mãe, da geração NEM- NEM ( NEM trabalha e NEM estuda) mas gosta de dinheiro, consumismo e até de crack ( droga de pobre) e cocaína ( droga de rico)..

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