Go to ...

on YouTubeRSS Feed

20/07/2018

O emburrecimento da população brasileira produz gurus mais burros!


[Artigo indicado para o público em geral]

Primeiro veio “Eram os deuses astronautas”. Depois, “O poder do pensamento positivo”. Mais tarde, a onda Augusto Cury-Içami Tiba superando a onda anterior, do catolicão Neimar de Barros. Tudo isso sempre mesclado também com os livros psicografados, ou com frases de algum rebolante padre televisivo do momento. E chegamos então ao falador do óbvio associado ao rebeldinho conservador. Estes últimos, então, já juntos do fenômeno das palestras diárias e da Internet. A super-exposição. São os Pablo Villar da palestra, ostentando em lapelas o título de “professor”.

De todas as levas de produtores de bobagens do senso comum, só mais recentemente é que a universidade brasileira foi manchada por tal coisa. Antes, escritores de esoterismo, espíritas, salvadores de almas, faladores do senso comum, democratóides e, enfim, militantes políticos reacionários, que sempre venderam bem seus livros, não ostentavam títulos universitários. No máximo algum “PhD”, quando se tratava de um “Doctor Brown” da vida, coisa que todos sabiam que era uma piada. Nos últimos anos, no entanto, a universidade brasileira, que nada tinha a ver com essa literatura, passou a ter vergonha de si mesma. Foi quando viu que alguns de seus professores carregavam títulos, dados por ela, para colocarem junto de seus nomes nesse universo da pseudo-ciência e da fala-mole ou da fala pseudo-rebelde.

Nessa onda, a filosofia foi manchada. Muito garoto por aí começou a achar que palestrante de auto-ajuda, carregando algum título da Unicamp ou outra universidade, era filósofo. A ideia de ser filósofo, ou mesmo intelectual, foi desvirtuada completamente. No passado, tínhamos gente inteligente no âmbito da cultura não-universitária. Foi a época de um Ponte Preta e de um Millôr. Pode-se tranquilamente colocar Jô Soares e sua coluna na Veja nessa roda. Mas isso não tocava sensivelmente, no sentido da confusão de lugares, os mais de mil pesquisadores da área de filosofia, desconhecidos do grande público, que frequentam, por exemplo, as reuniões da ANPOF. Uma coisa era uma coisa e outra coisa era outra coisa, e ambas tinham bom nível. Todavia, hoje, é possível encontrar na Academia algum estudante achando que os faladores do óbvio em palestras não-acadêmicas, em “cafés filosóficos” por aí, são realmente filósofos. Até militante político de extrema direita, que não conseguiu terminar o ensino fundamental, agora, pode aparecer como filósofo ao gritar palavras de ordem tresloucadas. Estamos na época do “nazismo é de esquerda”, “combustíveis fósseis não existem” e, enfim, a “Terra é plana”. Junto disso, a ideia de que “crime contra a Humanidade” não é crime. Linchamento na rua virou justiça na cabeça dessa gente.

Tudo isso se deve, é claro, ao fato de vivermos uma democratização da mídia de um modo mundialmente abrangente, e isso em um novo patamar de espraiamento de uma nova revolução técnica e tecnológica. Mas, é preciso notar: no Brasil as coisas se dão de modo mais selvagem e perverso que no resto do mundo semelhante a nós. Pois somos uma grande economia mundial, um país populoso, mas com miséria extrema e com um salário para o professor do ensino básico que não condiz com nossas necessidades. Por isso, temos uma juventude emburrecida que, enfim, agora já está se tornando velha. Já ocupa cargos de mando! É gente que acha que Romero Brito é arte. É um pessoal que tem carência de leitura, mas que, ao contrário do ignorante do passado, não consegue mais distinguir o que é bom e o que é lixo naquilo que poderá vir a ler. Olha o dado: 60% dos eleitores do segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto para a presidência, hoje, não conseguiu terminar o ensino fundamental! Dentre estes, estão até mesmo os mentores intelectuais dessa gente! É o analfabetismo alimentando mais analfabetos por meios de analfabetos. Essa massa de cérebros infantis, se recebe a ideia de que é bom ler um livro, vai ler exatamente os palestrantes do óbvio ou os rebeldinhos. Temos de rezar para ficar só nos livros psicografados!

Essa gente é o pessoal que, ou na direita ou na esquerda, odeia a Rede Globo. Claro! Não a entendem! Não entendem o que é transmitido no Jornal Nacional. Não admitindo a burrice, viram “críticos”.

Na ponta, temos pesquisadores em filosofia que não perdem para os grandes filósofos europeus ou americanos. Mas carecemos de uma “classe média intelectual”. Um profissional que faz um bom pós-graduação em filosofia, hoje, não tem como utilizar seus conhecimentos diante de estudantes que acreditam que um rostinho super exposto na Internet e TV é algum filósofo. Essa confusão mental não existia. Agora existe. E uma tal disposição de ouvir essas procriadores do senso comum, da banalidade, se une a uma outra disposição perigosa: o anti-intelectualismo vigente, que tem ódio de tudo aquilo que vem da parte boa da universidade. É visível hoje o anti-intelectualismo se alimentar do palestrante com título universitário, mas envolvido na produção do senso comum.

Um jovem hoje, se não entende um texto de um professor bem formado, não percebe que ele, jovem, é o despreparado, ele acusa o professor de não saber o que fala. Pois, para ele, sabe quem fala só aquele que fala a bobagem que ele, despreparado, entende. O parâmetro que ele usa é ele próprio, e portanto nunca progride.

Quando eu era jovem e estudante, eu não sabia nada, mas eu sabia que não sabia nada e sabia quais professores sabiam. Hoje vivemos numa época em que o filisteu da cultura, desenhado por Hannah Arendt, se apossou até mesmo da cátedra universitária. Ele nunca comparece porque está dando palestra, mas ele a segura porque precisa dizer, “olha, não sou um Cury ou um Tiba. Mas é até pior. Estamos em uma época em que os palestrantes que falam de tudo e tudo sabem, já se acostumaram a citar livros que não leram. Experimente checar e verá que estou falando a verdade.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo

Foto acima: você pode escolher o palestrante que está na foto, nessa pose, fica fácil.

Tags: , , , , , ,

27 Responses “O emburrecimento da população brasileira produz gurus mais burros!”

  1. Felipe
    26/01/2018 at 14:00

    Paulo, é realmente impressionante a onda anti-intelectualista que estamos experienciando. Falo isso porque eu mesmo passei por dissabores ao tentar “discutir” com um semiformado sobre o caso do queermuseu.
    Não existe diálogo quando as pessoas tentam, a todo custo, para sanar a sua falta de cultura e sensatez, “refutar” o argumento alheio através de tachações como “pedante” e “intelectualóide”. Todo tipo de argumento ad-hominem que encontram também é válido para “refutar”.
    Nunca mais perco meu tempo com esse tipo de pessoa….

  2. 06/01/2018 at 13:15

    Fiquei surpreso sobre o tema dos eleitores/ pesquisas de intencão de voto, então oque seria pior :
    – 60% dos eleitores não terem terminado o ensino fundamental votarem no segundo colocado
    Ou
    – intelectuais formados, phD, mestres e doutores votarem em um sujeito 100% analfabeto ?

  3. Isidoro Noronha
    20/12/2017 at 20:02

    “Khoury”, “Curi”, Kury”, “Coury”, etc, meu caro professor… Tanto faz, a grafia do sobrenome árabe dele. Aliás, na língua árabe, que estudo há mais de dez anos, pois sou bisneto de libaneses, há essas pequenas variações na grafia de alguns sobrenomes transliterados do árabe para outras línguas ocidentais, cujos alfabetos são o latim e o grego. Portanto, não é errado escrever Augusto “Khoury”, ok? O próprio já disse que tanto faz uma coisa e outra. E sei muito bem, muito mais que o senhor mesmo supostamente sabe, distinguir o que venha ser autoajuda. Se o senhor quiser, até posso lhe ministrar aalgumas aulinhas, de graça, vvia Skype… Será um prazer.

    • 20/12/2017 at 20:50

      Noronha, quando uma pessoa escreve o que você escreveu, eu fico com dó. Tchau.

  4. Isidoro Noronha
    20/12/2017 at 10:10

    Mas, insisto, Paulo: até o Augusto Khoury?

    • 20/12/2017 at 10:36

      Meu Deus, auto-ajuda é auto-ajuda. Vai me dizer que você não consegue distinguir? Estou falando de Cury, não sei quem é esse Khoury. Estou falando do palavrório de “inteligência multifocal”. Isso é como Karnal falando, o nada sobre o nada, o senso comum ridículo.

    • LMC
      20/12/2017 at 10:51

      Enquanto Karnal é progressista,
      Pondé escreveu na Folha,faz
      tempo,que,se não fossem os
      governos militares,o Brasil
      viraria um Camboja.Rarará!!!!!

    • 20/12/2017 at 10:53

      LMC ache esse artigo da besta!

  5. Luiz
    19/12/2017 at 10:09

    Eu concordo plenamente que a maioria da população não entende o que é passado na Globo.
    Se entendesse, não assistiriam mais à este canal que só publica matérias sem cunho científico, com conteúdo pela metade, desinformação, mentira, e tudo quanto é porcaria que existe neste mundo.

    • 19/12/2017 at 10:54

      Luiz o problema é que você não entende, por isso escreveu isso aí acima.

    • LMC
      19/12/2017 at 15:02

      Luiz,eu concordo.Só faltou dizer
      que sempre os noticiários da Globo
      encerram falando de futebol.
      Mas eles que fazem estes
      jornais acham que o brasileiro
      é um Homer Simpson.Putz!!!

    • 19/12/2017 at 19:01

      LMC você não entende a Globo. Essa ideia do Simpson já caiu faz tempo. Aliás, agora a Globo já nem mais está nas mãos dos Marinho.

  6. Henrique
    19/12/2017 at 09:28

    Eu acho que é melhor ler um livro do que ficar vendo televisão. Agora é preciso que se diga que o melhor jornal de Televisão do momento é o Jornal da Cultura. Lá temos pensadores que dão opinião sobre as notícias, e isso para mim é imperdível e fonte de reflexão.

    • 19/12/2017 at 10:04

      HENRIQUE SE VOCÊ PENSA ISSO você é daqueles que não entende o Jornal Nacional. E creditar que comentarista da bancada da cultura é “pensador”, aí realmente você se entregou. Tá explicado.

  7. Henrique
    18/12/2017 at 16:57

    Professor, o que o senhor acha das ideias do filósofo Alexander Dugin?

    Grato pela resposta

  8. Henrique
    18/12/2017 at 16:04

    Professor Ghiraldelli, o que o senhor acha das ideias do filósofo Alexander Dugin? Se, por ventura, o senhor as conhece, gostaria que discorresse um pouco sobre elas.
    Obrigado.

  9. LMC
    18/12/2017 at 14:58

    No Jornal Nacional,só se fala
    do RJ,de Sérgio Cabral e nada
    sobre os problemas de SP.
    Mas a SP do PSDB é uma
    Disneylândia igual foi Alagoas
    quando Collor foi governador,
    meus amigos!

    • 18/12/2017 at 19:01

      Veja o SP TV, cada estado tem o seu jornal, meu caro.Você está por fora, ainda está rebeldinho contra a Globo.

    • LMC
      19/12/2017 at 12:00

      A Globo coloca uma ótima
      série como Agente Carter
      de madrugada….Por mim,
      entraria no ar depois do JN.

  10. Tony Bocão
    18/12/2017 at 09:13

    O erro de raciocínio virou uma vertente tão maluca, que hoje aquele guia do Schopenhauer com falácias, virou bestseller perdendo seu teor satírico para um guia chulo de debates. O que é claramente um argumento tolo, hoje, por falta de conexão de idéias conquistada por um mínimo de estudo, virou ferramenta do discurso desse povo. Mas será que essa onda de palestrantes acadêmicos que pregam a auto ajuda, mesmo passando por uma ementa razoável e obrigatória na formação universitária, realmente acreditam nisso? Há algo no crítica da razão cínica sobre este assunto ?

    • 18/12/2017 at 09:59

      Tony, não à toda o energúmeno do Olavo de Carvalho é que indicou aquilo para algo editora no Brasil. O cara pensa que aquilo é realmente um manual. O que Slorterdijk goza a auto-ajuda está no Para Mudar Sua Vida. Ele a critica, em termos altamente filosóficos. Mas o livro foi bem vendido porque os tontos compraram como auto-ajuda.

  11. Gustavo
    17/12/2017 at 23:58

    O que move as paixões….
    Isso que te move?
    Afeta e é afetado.

    • 18/12/2017 at 01:57

      A burrice é a burrice Gustavo. Ela se basta. Nada a ver com paixões.

  12. Isidoro Noronha
    17/12/2017 at 15:57

    Puxa vida, Paulo! E eu, que sempre admrei o Augusto Khoury!

    • LMC
      19/12/2017 at 12:25

      Isso não é nada,Isidoro.Já viu
      aquela foto do Roberto Marinho
      com o Figueiredo?Rebeldinho
      é aquele colunista careca que
      escreve as segundas na
      Folha Ilustrada.kkkkkkk

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *