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20/11/2018

Educação sexual é com Paulo Freire


[Artigo para o público em geral]

Talvez não exista lugar mais apropriado para a pedagogia de Paulo Freire que no campo da educação sexual. Em todos os outros campos a pedagogia freireana pode ter concorrentes, na educação sexual, ou é ela ou é preferível nenhuma.

O princípio básico da pedagogia freireana vem das chamadas “novas psicologias” que substituíram o saber de Herbart no início do século XX. A psicologia de Herbart dizia que aprendemos a partir de conceitos, e que estes, então, puxam nossa motivação. As “novas psicologias”, as chamadas “psicologias do interesse”, inverteram as coisas. Elas passaram a dizer que a locomotiva são as motivações, e são estas que podem puxar os vagões com conceitos. Em outras palavras: o que nos entusiasma são as coisas corriqueiras da vida, os pequenos trabalhos em que estamos metidos ou, no caso das crianças, as brincadeiras, e é a partir desse nosso mundo que se pode, por mediações feitas pelo professor e pelo ambiente escolar, sermos introduzidos no campo de um saber mais organizado e, enfim, das matérias que se expõem por meio de conceitos. Essa fórmula percorreu a pedagogia americana capitaneada por John Dewey nos Estados Unidos. Deu o tom para os inspirados em Piaget na Europa.

Vamos aprender tendo o ponto de partida no cotidiano, na cultura própria da criança e, enfim, se pudermos problematizar algo nesse ambiente, então teremos de recorrer a alguma cultura mais elaborada. Paulo Freire viu isso como uma chave para uma questão premente no Brasil do início dos anos 60, e depois viu condições de fazer o mesmo em vários lugares do Terceiro Mundo e, enfim, mais tarde ainda, no anos noventa, sentiu que o multiculturalismo dos Estados Unidos o receberia bem – como de fato ocorreu. O “desenraizado” ou o “oprimido” ou o “imigrante” não são pessoas sem cultura, mas são pessoas com a cultura que não é a vigente no lugar em que chegaram. É necessário partir dessa cultura que é de fato também cultura, para se chegar à cultura do lugar que estão. É necessário mediações. E é preciso não tomar a primeira como sendo inferior à segunda, embora seja a segunda o ponto de chegada, uma vez que a primeira o estudante já possui.

Em todo e qualquer ensinamento o crítico de Paulo Freire pode apresentar objeções a essa postura. Mas, em educação sexual, ou se sabe o que as crianças já estão sabendo, ou todo e qualquer passo posterior é ou perda de tempo ou passo prejudicial. Quem são pais e mães? Como é a família? Que tipo de interesse se tem ou não se tem por sexo? Como os animais fazem sexo? Sem uma grande investigação sobre o que é a cultura de informações sobre sexo das crianças, para além do que os livros já informam sobre o assunto, nada é possível. Este é o ponto de partida do educador sexual. E ele, educador, só pode saber disso se, como Paulo Freire ensinou, for deslocado para a convivência e para a vivência com as crianças. Ou ele está no cotidiano das crianças como quem tem menos pré-concepções do que sempre tem, ou não deve se meter no assunto. Não deve ser professor. Professor militante, nessa hora, não funciona. O militante não se abre para a experiência infantil. Ele tem pressa e muita coisa preconcebida.

Um livro com pessoas ou bichinhos em posição sexual? Bonequinhos que podem ter órgãos sexuais? Desenhos sobre o irmãzinho que vem chegando? Filminhos sobre o respeito ao coleguinha menino que gosta de coleguinhas meninos ou que possui trejeitos ditos femininos etc? Tudo isso é apetrecho que está mais para brinquedoteca do que para o que é necessário em educação sexual. Às vezes isso só ajuda a chamar a atenção da parte da sociedade que optou pelo reacionarismo e que, enfim, não colabora com a escola em nada. A educação sexual não é campo de cobaias que vão ver filme pornô infantil – como pensa a direita. Nem é, também, lugar para as mulheres que, vendo 50 Tons de Cinza , querem se candidatar ao cargo de professora para fazer educação sexual. Essa gente é mais infantil que as próprias crianças! Em educação sexual é necessário brincar junto com as crianças de tudo, estar atento para quando surge os assuntos sobre sexo, e então, ao invés de dar lições, receber ensinamentos. As crianças ensinam. Elas vão dizer o que é sexo. Elas vão expor o imaginário que possuem sobre sexo. O educador capta e, sem preconceitos, começa a ter o material de ponto de partida. Ao final de seis meses, pode iniciar informações esporádicas sobre o assunto, quando este surgir novamente. O educador sexual, portanto, não é um educador sexual profissional somente, mas antes de tudo um professor comum. Um professor bem formado, sem preconceitos, sem mentalidade de toupeira e, fundamentalmente, capaz de só fornecer informações que sejam relevantes para as crianças. Quando elas não escutam é porque não entendem, e se não entendem, o assunto ainda não lhes diz respeito. Deixa-se para outra oportunidade. Nessa hora, o tratamento individualizado se sobrepõe ao coletivo. Também isso é um princípio de Dewey e Freire.

Dentro desse itinerário, que se tenha em mente, portanto, que não existe, para crianças, aula de educação sexual. Existem esporádicas informações sobre sexo, gênero, reprodução, doença, prazer etc. E isso dentro do quadro de interesse da criança. Nesse sentido, faz-se necessário, aqui, ponderar horas sobre a gravura que escolhi para esse artigo, a do quadrinho da Mafalda. Pensa, entenda!

Filhos pequenos sabem de sexo por três canais: irmãos mais velhos, mães e pais, coleguinhas e TV. Quando crescem um pouquinho, sabem mais, e isso vem pela Internet. Mas nenhum desses meios informam sobre sexo quando estas crianças ainda não estão interessadas. Cenas de sexo esporádicas de sexo na TV não fazem mal nenhuma para uma criança, muito menos danças “sensualizadas” – que as crianças copiam de bom grado, sem conotações sexuais. A criança não vê o sexo quando ainda não há o que ver no sexo. Por isso mesmo, o professor colhe informações que vem da criança, e sobrepõe a estas informações as suas, em doses homeopáticas, na hora certa. E a hora certa não é a do relógio do professor, mas a do relógio de requisição do aluno. Ele pode não perguntar, mas às vezes ele toca no assunto porque está na hora de falar de tal assunto.

Tudo isso é bem diferente quando tratamos de adolescentes. Mas, com crianças, ou se faz esse itinerário freireano, ou o que se vai fazer é a velha palestra sem pé nem cabeça do médico local, sobre o “aparelho reprodutor humano”. Ou pior, quando mulheres e homens apavorados com suas próprias insatisfações e histórias, aparecem na escola, e confundem a educação sexual com avisos destemperados sobre abuso sexual, pedofilia e outras coisas que transformam a vida das crianças num horror, e muitas vezes num horror sem sentido. É sempre necessário lembrar que há muita gente traumatizada com sexo que quer tomar conta do aparelhos corporais eróticos de todo mundo.  Essa gente não tem que ser professor. Bem menos, ainda, diretor de escola. Professores e diretores são pessoas que precisam lidar com a Malfada, como faz a mãe da Malfada.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

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3 Responses “Educação sexual é com Paulo Freire”

  1. Bruno
    13/07/2018 at 10:32

    Olá Paulo, o que você acha do Thomas Giulliano em Desconstruindo Paulo Freire? O cara anda poraí dando palestra dizendo que refutou Freire, inclusive os canais do tipo mamãefalei estão tendo multiplos orgasmos com esse livro.

    • 13/07/2018 at 11:12

      É fácil falar sem ler. É o que o Pondé fez. O cara não sabe Hegel, não sabe Dewey, não sabe fenomenologia e não leu nada da teoria do ISeB. Aí fala de um monstro como Paulo freire, tomando as palavras como elas estão no senso comum, sem o aparato técnico de Freire.

  2. LMC
    21/05/2018 at 14:17

    Este é um daqueles textos do
    PG que deveriam ser publicados
    na página 3 da Folha.Claro,os
    leitores mais tontos chamariam
    o PG de comunista,mas quer
    saber deles?….VTNC!!!

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