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16/08/2017

Devemos liberar “Minha Luta”, o livro de Hitler?


Minha luta é um livro liberado no mundo todo, na prática. Pois está na Internet, aliás, como (quase) tudo. Falar de proibição de um livro, hoje em dia, soa ridículo. Mas os homens da justiça brasileira que resolveram não deixar certas editoras comercializarem o livro, não estão preocupados realmente com a leitura do livro, mas com a distribuição dele de mão em mão como uma forma de ícone de propaganda. Em se tratando do potencial leitor de Hitler, que em geral não lê, e que precisa apenas da foto e do livro como tijolo de papel, essa preocupação faz sentido. 

Assim, os homens da lei podem ter pensado da seguinte forma: em momento como o nosso, com Bolsonaros imitando Plínio Salgado, com Olavos-Repetentes e suas olavetes sambando, e com a Internet já abrigando reuniões neonazistas, para que deixar uma editora, sedenta de lucro, ajudar nisso? Não é de todo errado pensar assim. Propaganda nazista não é boa coisa – acreditem! Aliás, as pessoas de direita deveriam aprender que o nazismo não é bom nem para nazistas! Basta a ver a desgraça da vida de cada um que adotou tal doutrina.

Por outro lado, e sobre a informação? E sobre a educação? Houve cerceamento com a decisão da Justiça? Bem, pode-se dizer, com acerto, que a educação não foi prejudicada: o livro está na Internet e quem quiser lê-lo com finalidade de estudo e pesquisa, que o faça. Mais um ponto para os homens da lei. Ou seja, os juízes que proibiram o livro podem usar dos mesmos argumentos dos que reclamaram da proibição: está na Internet, portanto, não houve propriamente proibição, se você quer ler, que o faça. É difícil dizer que os que querem publicar não estejam visando exageradamente lucro – pois tudo sobre II Guerra Mundial e especialmente sobre Hitler vende e venderá ainda durante muito tempo – e colocando o país sob um risco desnecessário de ver uma propaganda fascista ganhar corpo. Para quê dar chance para o azar?

Na verdade, é claro que, em princípio, toda e qualquer censura não é boa. Por exemplo, se a leitura do livro for criminalizada, aí sim, extrapolamos. E isso sob quaisquer argumentos: pois a pior coisa que pode acontecer a respeito de Hitler, hoje, é aumentar o mistério sobre ele, sobre sua sedução, sobre a farsa de sua brilhante inteligência e, mais ainda, sobre o quanto ele seria igual a comunistas, etc. Pior ainda quando o descartamos com uma desculpa para não enfrentarmos a maldade humana, dizendo, “era doente”. Hitler não era louco. Era medíocre. Não foi eleito, usurpou o poder. Não fez nenhum benefício à Alemanha, levou-a à catástrofe total e à miséria. E o povo alemão não concordou com ele, principalmente quanto ao que fez com os judeus – tanto é que ele manteve o Holocausto sob segredo, com censura sobre o que ocorria.

Bolsonaros de hoje como Pinochets de ontem podem variar quanto a cara feia e um homossexualismo agarrado e não resolvido. Muitos do oficiais de Hitler e ele próprio possuíam esse traçado de personalidade, execrado entre eles mesmos. O ódio ao diferente era um ódio a si mesmos, pelo modo como não foram aceitos pela sociedade culta de seu tempo, pelas elites de ambos os lados, a da cultura (artistas) e a do trabalho (burguesia judia e proletariado sindicalizado, social democrata ou comunista). Hitler buscou seus quadros nos desclassificados e perdedores, e os convenceu fácil de aderir, adulando-os com cargos, responsabilidades e com o discurso de que eles é que eram a esperança da Alemanha, os homens da verdadeira elite, os tais da “raça ariana”. Todo desclassificado ouviu esse canto de sereia, era a sua única oportunidade! Eram pobres coitados que quando ouviram isso se entregaram para qualquer tarefa. E executaram mesmo qualquer tarefa.

Ler o Minha luta é de fato um desperdício para o pesquisador amador. É um livro que beira a tolice. Mas ler sobre o nazismo, não é nada tolo. Hannah Arendt continua sendo a melhor leitura na filosofia, e o filme de Peter Cohen, A arquitetura da destruição, uma referência básica interessante. Pois uma guerra não termina quando acaba. Ao cessarem os canhões, inicia-se a batalha pelas versões de quem fez o que na Guerra. A II Guerra Mundial nos foi contada pelos vencedores, os aliados (nós brasileiros estivemos lá também, contra o nazismo). Mas, de uns tempos para cá há muita produção alemã sobre o assunto. E, talvez de maneira única na história, essa produção, mesmo quando feita por conservadores, não enxerga nenhum benefício no nazismo. Essa unanimidade na condenação desse regime de direita, totalitário e sangrento, ainda que seja uma unanimidade, é vigiado pelos que acreditam que não é necessário brincar com o demônio. Ora, não é mesmo necessário. Trata-se de uma brincadeira besta.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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9 Responses “Devemos liberar “Minha Luta”, o livro de Hitler?”

  1. Karl Malone
    22/06/2017 at 21:13

    Paulo, fiquei intrigado quando vc coloca o nazismo como um regime de direita. Como você fundamenta essa distinção? Direita vs esquerda já é uma separação bem espinhosa mundo afora, me parece, e há muitas similaridades ideológicas com a atual esquerda brasileira também. Peço perdão por me ater a uma questão de relevância bem marginal em relação ao objeto do texto, mas me interessa muito saber o que vc pensa a respeito. Muito obrigado.

    • 23/06/2017 at 07:36

      Malone, sem querer ofendê-lo, juro: você não fez o ensino médio? Não aprendeu como se desenvolveu a direita e a esquerda a partir da Revolução Francesa, toda a história da divisão sobre a hierarquia e o abrandamento da hierarquia? É tudo matéria do cursinho. Os olavetes, como o próprio Olavo, não fez cursinho, no caso dele é pior, não terminou o ensino primário, de tão burro e maluco. Mas hoje em dia quem não aprenderia isso? Vamos lá então! Veja: http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/o-que-e-em-politica-direita-e-esquerda.html

  2. Guilherme Picolo
    03/03/2016 at 16:09

    A primeira emenda à Constituição americana é muito mais efetiva que a liberdade de expressão prevista na Constituição Federal Brasileira, esta última cheia de “poréns” e “senãos”. Até nisso os americanos são melhores!

    • 03/03/2016 at 16:12

      Não há ferimento à liberdade de expressão na decisão da lei sobre o livro de Hitler, em sentido algum.

    • Guilherme Picolo
      03/03/2016 at 16:36

      http://www.amazon.com.br/Mein-Kampf-Struggle-Adolf-Hitler/dp/1503032353

      É uma diferença de culturas: os americanos acreditam (sobretudo a sua lei) que o cidadão capaz civilmente deve ter acesso irrestrito à informação e filtrá-la como bem entender, apenas respondendo criminalmente por qualquer excesso ilegal inspirado ou não nela.

      Até porque no caso a publicação não visa ao proselitismo nazista, mas ao conhecimento de um documento histórico, até mesmo como demonstrativo do pensamento de Hitler e de sua corja de doentes mentais.

      Podiam proibir os livros do Chalita também, mas infelizmente não…

    • 03/03/2016 at 17:33

      Picolo você não está interessado em ler, apenas em reiterar o que já pensa. Meu blog não lhe é útil, já disse.

    • LMC
      04/03/2016 at 11:22

      Quem será que lê esses
      livros do Chalita,tirando eu,
      o PG e o Picolo?Ele mesmo!

  3. LMC
    03/03/2016 at 10:24

    A diferença do Minha Luta no
    livro e na internet,é que essa
    versão brasileira do livro é
    cheia de explicações e notas
    de rodapé que expunham ao
    leitor a fragilidade das idéias
    e conceitos hitlerianos.
    O Conar está fazendo escola.

    • 03/03/2016 at 11:29

      Não não LMC, esse foi o livro que pode ser liberado. O outro, inicial, sem notas, foi logo proibido.

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