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20/11/2018

Contra a ideologização – o caso da coleção da Leya e o caso dos cursos sobre o “golpe”


[Artigo para o público em geral]

Uma das coleções mais ideológicas que já vi ultimamente, bem pior que o material de Educação Moral e Cívica da Ditadura Militar, é aquela da Editora Leya, “Guia Politicamente Incorreto”. A cada página, especialmente nos livros de filosofia e história, os erros grosseiros se sucedem de tal maneira que nenhum professor formado por uma boa escola poderia não percebê-los – e de fato muitos perceberam e apontaram.

Mas agora, para competir com tal grosseria da direita, alguns departamentos de ciências humanas de nossas universidades públicas resolveram se esmerar ao máximo. Querem porque querem fazer melhor, ou seja, pior. Criaram cursos sobre o “Golpe de 2016”. Eis o dogma: houve “golpe” e pronto! E pior, o conteúdo desses cursos  vai no seguinte sentido: em um passe de mágica, o país piorou um dia após o Impeachment de Dilma, um dia após o “golpe”. Os professores que ministram esses cursos, acreditam nessa mágica?

Quem não vai para escola, fica com a Leya, a ignorância da direita, e quem vai, fica com esses cursos de ignorantes de esquerda. Meu Deus! Não há uma balsa, mesmo que à deriva, para nos agarrarmos e podermos assim atravessar esse mar de estupidez?

Ideologia – não quero uma para viver! Não quero nenhuma. A filosofia é a anti-ideologia par excellence. Ela nasceu exatamente com esse propósito, o de dar combate aos que professam doutrinas sem investigação. Sócrates foi o homem que inaugurou o que Popper, mais tarde, chamou de “método da falsificabilidade”, que é a base do método científico atual. Ou seja, uma investigação parte de uma verdade, eleita como hipótese, e que precisa ser posta à prova, precisa ser negada, precisa ser destruída. Deve ser falsificada. Assim, filósofos e homens de ciência têm algo em comum: diante de uma crença chave, não há que se propagá-la, mas antes de tudo, combate-la com testes de toda ordem, com empiria ou lógica, para ver se ela é resistente. Pode-se aceitá-la por mais tempo, mas sempre sabendo que o bom é mantê-la na berlinda. A tecnologia é positiva, a ciência e a filosofia são, na maior parte do tempo, negativas. Não podemos pensar em uma sociedade com todos só envoltos em tecnologia, sem saber pensar cientificamente e filosoficamente!

Sócrates não entrava em debates. Só os sofistas assim faziam. O método do elenkhós, socrático, foi o contrário da disputa erística, dos professores que cobravam dinheiro para ensinar. A reflexão de Sócrates era, sempre, investigativa, em conjunto com o interlocutor, jamais contra o interlocutor. Sócrates convidava o interlocutor a afirmar um enunciado em que ambos poderiam acreditar, ou de fato acreditavam, e então iniciava uma bateria de perguntas para ver a sustentabilidade da crença adotada. Popper acrescentou a isso o fato de que, caso a crença não permitisse a possibilidade de ser falsificada – especialmente com métodos da ciência – então ela já de cara deveria ser posta na conta de “filosofia” (ou religião), e mantida em outro nível de conversação, não científico. Sócrates não endossaria essa divisão entre ciência e filosofia, claro. Essa divisão popperiana inaugurou o positivismo radical no âmbito da filosofia da ciência. Podemos criticá-lo nesse aspecto, claro, mas ele é devedor dos princípios básicos do procedimento socrático e é segundo tal critério que trabalham os investigadores hoje.

Conclusão: a ideia básica da ciência e da filosofia é, então, a de não tomar por aceito o que é justamente matéria de investigação. E a matéria de investigação é sempre matéria de investigação, mesmo quando já estamos considerando alguma teoria como verdadeira, por conta de, na prática, estar sendo usada pela tecnologia que, enfim, funciona.

Assim, nos livros de história da coleção da Editora Leya, já citada, o que deveria importar não é se Zumbi tinha ou não escravos no sentido de negar a ele a condição de herói negro da anti-escravidão. O que deveria valer, num bom livro, é o trabalho de investigação sobre como que Zumbi, ele mesmo, lidava com a busca de sua liberdade e a sua vida própria mantendo escravos. Os juízos de valor sobre isso, se podem ser tomados, devem ser tomados dentro desse quadro investigativo, com uma entrada nos documentos que possam ver se há razão para falar do nosso conceito de liberdade como válido para a cabeça de Zumbi. Aliás, adentrar no interior do entendimento de conceitos por parte de Zumbi faz da história uma devedora da hermenêutica, como Dilthey nos ensinou, em contraponto com a escola francesa de Durkheim.

Do mesmo modo, a questão toda da política do Impeachment de Dilma, no âmbito da universidade, não deve levar ninguém à criação de cursos que partem da verdade de que houve um golpe, mas deve levar os professores a analisar por quais razões, na época, as forças políticas se embrenharam na “guerra semântica” (Rorty) sobre a palabra “golpe”. Um estudante de filosofia deve perceber que a importância de 2016, para ele, não é se convencer de golpe ou não golpe, mas a de compreender como que diferentes grupos entram no jogo político por meio de amplos jogos de linguagem. Então, toda a disputa sobre a semântica da palavra “golpe” é o centro da investigação. Tomar isso decidido é sucumbir a um golpe!

Aliás, um bom estudante deve perceber que ao criar um curso, dentro da universidade pública, que toma o evento Impeachment por golpe, sem discussão prévia, já se está fazendo ideologia e isso já está no âmbito de uma “guerra semântica”. A adesão a um dos lados dessa guerra é o que os partidos querem do “povo”, mas isso não é o que se pode querer do estudante. A universidade é o respiradouro da sociedade (Weber), se ela sucumbe à ideologia, até mesmo os interesses dos setores dominantes da sociedade saem prejudicados. Perde-se performance de inteligência. Toda a sociedade perde quando ninguém mais fala em busca do “trabalho de dar e pedir razões”, e sim em busca de se sair vencedor político seja lá por qual razão – ou sem razão. Os partidos andam por ideologia, a universidade só anda se vier a colocar as disputas ideológicas no seu microscópio de laboratório.

A luta contra a ideologização de livros, coleções e instituições não é uma luta “centrista” ou absenteísta, é uma luta para que a própria luta se torne menos tosca. Na luta tosca, todos os lados perdem.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Autor, entre outros, de Dez Lições sobre Sloterdijk (Vozes, 2018) e Para ler Sloterdijk (Via Vérita, 2018).

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20 Responses “Contra a ideologização – o caso da coleção da Leya e o caso dos cursos sobre o “golpe””

  1. alcebíades birolli
    01/10/2018 at 14:58

    a jornalista Joyce rasselmann é realmente uma piada@ olaviana empernida, certo dia, ela bradou a todos pulmões: “o nazismo era de esquerda”! ela foi “defenestrada” da rádio jovem pna, de direita, por ser, digamos, demasiada de extrema-direita… é uma toca sem rosca!

    • 01/10/2018 at 19:46

      Este tipo de olavete tem de ir caindo no ridículo.

  2. Anderson Silva
    12/03/2018 at 11:33

    Então, acredito que existem equívocos de todos os lados. Não gostaria de participar de um curso que “afirma” um golpe, pois, um curso assim não é um curso, é uma conclusão. Mas também não gostaria de participar de outro curso que afirmasse não ter existido um golpe, pois, previamente já estaria dado um diagnóstico. Sou leigo no assunto, mas sou brasileiro e vivo entre o “povão”, faço parte do povão, ex trabalhador rural (da enxada), e, como tal, percebo elementos complexos (para minha visão de povo). Penso que o tal de Jucá foi apanhado numa conversa, no mínimo, suspeita (com as forças armadas, com o congresso, com o judiciário e com tudo), por outro lado, também penso que a Dilma penso que o PT foi bastante corrupto.

  3. bardo toad all
    11/03/2018 at 12:37

    “a diferença entre filosofia, ciência e ideologia é o beabá das Humanidades.”
    diferença, dileto farsante, não é o mesmo que ser averso, contrário.
    para estabelecer diferença entre os conceitos é necessário uma estrutura de linguagem que fazem sentido conforme o conjunto das ideias [ideologia].

    • 11/03/2018 at 15:36

      Bardo o seu problema é falta de ensino fundamental. Comece pelo começo. Matricule-se numa boa escola.

  4. Eduardo Rocha
    04/03/2018 at 00:54

    Paulo, se a história da filosofia é nada além que “notas de rodapé” do texto de Platão, pois, não existe uma história da filosofia em torno do mesmo objeto ou tema ou palavra, mas sim um recomeçar a partir de um novo ponto, mas sempre tendo como referência a leitura da obra platônica. Assim, a história da filosofia é, ela própria, uma desconstrução. Um filósofo não seria um designer? Um grande artista da transformação como ocorre com a mercadoria no mercado capitalista? A mercadoria que começa de uma matéria primeira que se transforma em volátil e maleável. O trabalho do filósofo no caso, seria repensar mais uma vez objetos ou conceitos já existentes e a partir dessa matéria prima-moléculas, por assim dizer, fazer com que sua aparência possa se transformar de novo?

  5. Guilherme Picolo
    03/03/2018 at 19:07

    Assisti a dois episódios da série no History Channel. É um negócio quase esquizofrênico.

    No primeiro, o telespectador é “informado” que os bandeirantes eram caras legais e populares, e só ficaram mal afamados pelo propaganda negativa dos jesuítas, que não passavam de uns padrecos invejosos (inclusive tinham inveja do Piratininga, porque ele bebia e pegava muita mulher)… e também que a conquista do Brasil não foi tão violenta assim como dizem, porque os portugueses comiam as índias e casavam com as filhas dos caciques…

    Entre o primeiro e o segundo intervalo, há uma vinheta da série, afirmando que Santos Dumont na verdade era um tremendo impostor e que o 14-bis era uma geringonça inútil…

    Então o pesadelo continua: no segundo episódio, segue-se uma linha de raciocínio tentando induzir ao pensamento de que a população brasileira nos anos 60 apoiava e gostava da ditadura militar; que meia dúzia de esquerdistas torturados não seriam grande coisa, afinal eles eram violentos e mereciam isso; e para fechar os produtores ainda concluem que a ditadura militar não foi ruim como falam, pois não matou tanto quanto as outras ditaduras da época.

    No ápice da idiotice, que parece “teatro do absurdo”, o perguntador vai ao Instituo Herzog e pergunta ao filho do jornalista, morto na prisão durante a ditadura, se o Brasil não seria uma dita-branda… O filho do Herzog faz uma longa pausa em silêncio e com olhar vidrado, para logo após responder, deixando qualquer pessoa de bom senso com vergonha alheia: “O Senhor tem certeza de que está perguntando isso justo para mim??”

  6. LMC
    03/03/2018 at 11:24

    Ainda bem que este tal curso
    contra o golpe não faz parte
    da disciplina obrigatória das
    universidades.Vai quem quer.

  7. Bardo Toad All
    03/03/2018 at 06:38

    Filosofia sem ideologia é como literatura sem palavras – não existe.
    Registre-se que o dito filósofo se equipara aos conservadores, direitistas, reacionários e fascistas ao ser contra a universidade abrir cursos que vão explicar o golpe.

    • 03/03/2018 at 12:33

      Bardo burraldo: a diferença entre filosofia, ciência e ideologia é o beabá das Humanidades. Volte para o ensino básico e comece tudo de novo.

  8. josé fernando
    02/03/2018 at 09:26

    Um adendo: a filosofia, além de ser “anti-ideologia” teve também ao longo de sua história um viés que valorizava e visava a autarquia e a ataraxia. A ementa do professor de Brasília (não li as ementas dos outros cursos similares oferecidos pelo país) exala paixão, desequilíbrio, e expressa servidão a um ponto de vista limitado e limitante. Sabe aquela história de Wittgenstein sobre imagens que não nos permitem pensar de modo diferente? Penso que cabe muito bem nesse contexto: nossa esquerda está aprisionada a imagem de “golpe” que a arrasta a absurdos como o cursos em questão.

  9. josé fernando
    02/03/2018 at 09:18

    Seu texto é cruel (no bom sentido): foi certeiro no “x” do embrolho. Parabéns. Muitos desses professores se apresentam como “leitores de Marx”, mas praticam o que ele denuncia: ideologia ou propagação de ideias inadequadas (como dizia Spinoza). O que não entendo é a propagação em série do oferecimento desses cursos. Defesa de classe? Dificuldade em assumir mea culpa? Birra de criança que não quer “dar o braço a torcer”? Ou será um sinal da cegueira e limitação presente em nossa academia?

    • 02/03/2018 at 09:41

      José Fernando, a universidade é grande, esse pessoal que grita, na esquerda e direita, é minoria.

  10. Renata
    01/03/2018 at 14:36

    O curso ainda não foi ministrado, portanto, aqui se julga o título. Se é verdade que se “toma o evento impeachment por golpe, sem discussão prévia”, então um título isento de ideologia e fiel ao “evento” seria “O impeachment de 2016”? Quanto à “discussão prévia”, talvez os organizadores pretendam uma “discussão durante” o curso.

    • 01/03/2018 at 15:25

      Renata as ementas já estão postas, o título é infeliz, e a fala dos professores, veiculada na imprensa e por eles mesmos na universidade, pior ainda. Mas eu entenda que exista quem não queira, mesmo na universidade, a sair da ideologização.

    • Hela Amorim
      02/03/2018 at 11:03

      Sim, Renata, uma “discussão durante o curso”, afirmando que “foi golpe!”, e ai daquele que rezar em outra fé! Rsrs..

  11. rgmacedo
    01/03/2018 at 14:19

    Professor, hoje o Lula acrescentou mais uma linha ao significado semântico da palavra “Golpe” e ele a estendeu até mesmo para um suposto golpe da Globo contra o Temer – a mesma tese do MBL.

    Sobre os cursos “Golpe 2016”, o que mais me impressiona é a ausência de uma bibliografia. Por enquanto eu só vi ementas escrita por militantes, mas não vi nenhuma bibliografia… Será que eles utilizarão as reportagens da Carta Capital e agora essa entrevista do Lula?

    • 01/03/2018 at 15:26

      rgmacedo, olhe a manifestaçao da Renata aqui comentando e você entenderá o público desses cursos.

  12. Matheus
    01/03/2018 at 13:00

    “Eu acho que quem ganhar e quem perder vai perder… Quem ganhar vai perder e quem perder vai perder, ninguém vai ganhar, todo mundo cair perder”

    Dilma, a “golpeada”

    • Guilherme Picolo
      05/03/2018 at 10:35

      “Se hoje é o Dia das Crianças, ontem eu disse que criança… o dia da criança é também o dia da mãe, do pai e das professoras, mas também é o dia dos animais. Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás, o que é algo muito importante”.

      Dilma V. Roussef, in “Lógica”. KKKKK!

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