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24/06/2017

A continência do atleta


Do Exército brasileiro saiu a República, a Coluna Prestes, a Revolução de Trinta, o positivismo, a Campanha da FEB Tanto Mariguela quanto o Golpe de 1964  são da mesma matriz. Não pensem vocês que não houve repressão interna no Exército aos que não concordaram com o Golpe.

Nossa relação com as nossas Forças Armadas segue a própria ambiguidade dessa instituição. Também é assim agora, na apreciação do simples gesto de bater continência perante a bandeira, executado pelos atletas brasileiros de formação militar. O público letrado não sabe se torce o nariz ou aplaude.

Condenar ou elogiar o gesto, para a filosofia, pouco importa. A história já disse o que tinha para dizer. Agora, o que importa é entender o que esse gesto revela sobre o país nas Olimpíadas – isso sim é problemático. Pois a presença dos atletas militares é nosso orgulho e nosso desespero. Nosso orgulho, claro, pois sem o Exército não teríamos sustentado esses atletas que, afinal, estão na corporação para poderem fazer esporte, e não por vocação para matar ou guerrear. Mas isso é nosso desespero, pois mostra como falhamos com as outras instituições de nossa sociedade que deveriam poder cuidar do esporte entendendo-o como fator educacional geral.

Nossas “ongs” esportivas e alguns poucos clubes fazem o serviço de base. A escola pública, que em outros países assume essa tarefa, aqui já há tempos relegou a Educação Física a segundo plano. Nos anos setenta houve certa recuperação da Educação Física escolar. As aulas subiram para três por semana e foram instituídas as “turmas de treinamento”, que eram verdadeiras “escolinhas esportivas” dentro de cada escola. Junto disso, o governo começou a construção de ginásios de esportes em várias cidades. Isso foi fruto do governo do general Presidente Ernesto Garrastazu Médici. Foi a única verdadeira política em favor do esporte como elemento educacional voltada para a base que o país viu. Nem antes e nem depois houve algo assim, planejado. Os governos seguintes deixaram o esforço inicial se perder. Além disso, a ligação do governo Médici com a ideologia de extrema direita contaminou a imagem da sociedade quanto ao valor do esporte como educação. Muitos viram no esforço de Médici apenas uma atitude criptofascista semelhante à introdução das aulas de Educação Moral e Cívica. Assim, as forças democráticas nunca se empenharam de fato em fortalecer a Educação Física escolar. Nos anos noventa a Educação Física escolar chegou até mesmo a perder a obrigatoriedade, mais tarde recuperada. Hoje, é um apêndice supérfluo.

Quando tudo isso passou e chegamos ao século XXI, ei que o desporto já não tinha mais ligação com o militarismo, já estava completamente integrado na “sociedade da leveza” e na “sociedade de mercado”, sendo então entretenimento vendável. O próprio Exército se adaptou bem a isso: é um lugar de abrigar atletas, mas não de formá-los. Aliás, nem cabe mesmo ao Exército uma formação de atletas de base. Onde há formação? Em termos planejados mesmo, como política pública? Em lugar algum.

Afinal, para que uma política esportiva educacional? Para que planejamento? O Brasil adora o atleta pobre solitário e desgraçado, que chamamos de “herói”; adora o autodidata, que chamamos de “gênio; adora o improvisador, que chamamos de “criativo”. Nosso ufanismo está preso a isso, ao culto ao fantasma e ao falso. Nenhum outro país do Globo tem seu ufanismo articulado ao que só deveria, mesmo, é causar vergonha. É Brasil, gente, é Brasil.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 19/08/2016

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29 Responses “A continência do atleta”

  1. Bernardo
    31/08/2016 at 18:22

    Continência não se bate, se presta!

  2. luis
    23/08/2016 at 19:39

    ” Nosso orgulho, claro, pois sem o Exército não teríamos sustentado esses atletas que, afinal, estão na corporação para poderem fazer esporte, e não por vocação para matar ou guerrear. ”
    Aonde vc apreendeu que a vocação do militar é matar ou guerrear?
    Não estaria confundindo com gangue? Ou quem sabe com a FARC?Esse teu ranço esquerdista é que te mata…

    • 23/08/2016 at 20:04

      Luis, já percebi que você acha que o Exército é treinado para carregar os fuzis com flores. E quando você fala de “esquerdista”, então, aí você assina em baixo seu nome: “burro”. Tudo bem Luis, já entendi. Agora vá embora e não volte, esse blog é para pessoas inteligentes, normais.

    • angélica della monica
      24/08/2016 at 03:41

      Ele realmente não aprendeu nas aulas de História que o termo esquerda eram os que se sentavam à esquerda e que não apoiavam o governo e os que se sentavam à direita eram os que apoiavam o governo. Mas quem sabe se se der ao trabalho de reler a Revolução Francesa, ainda é tempo para ver quem eram os Jacobinos e Girondinos. Nunca é tarde para aprender. Também saberá distinguir que democracia é para o povo, não para alguns.

  3. Valmi Pessanha Pacheco
    22/08/2016 at 13:13

    Prof. PAULO
    Quando nossos governantes procurarem compreender como os gregos, desde 776 a.C. nos Jogos Olímpicos, integraram Estética (Beleza) à Ética (Moral) no ideal para alcançar a Areté (Excelência, Virtude), talvez a Educação no Brasil, entendida como um processo permanente de aprimoramento civilizatório, possa legar aos nossos trinetos ou tetranetos a eudemonia e a isonimia do liceu aristotélico.

  4. LMC
    20/08/2016 at 11:01

    Na Inglaterra-ou Grã-Bretanha,foram usados
    recursos públicos pra treinamento de atletas.
    O resultado?Eles ficaram em segundo lugar
    na frente da China!Ah,mas usar recurso
    público aqui no Brasil,é coisa de país
    bolivariano….kkkkk….Esse meu registro
    o PG poderia fazer no Facebook dele.

  5. Janaina Ferreira
    19/08/2016 at 19:25

    Seus textos, embora nem sempre concorde, me instiga a refletir… Uma pena não vê-lo mais nas discussões sobre Esporte, Educação e Educação Física. Nossa área carece!! Abraço!

    • 20/08/2016 at 00:18

      Nunca deixei esse campo também, boa parte do meu trabalho em filosofia é sobre o corpo.

  6. João Neto
    19/08/2016 at 15:53

    Paulo. Um grande cumprimento!
    Os teus textos continuam de uma lucidez e argumentação para se louvar, eu ja tinha te elogiado antes, mas afinal não custa nada elogiar novamente.
    E os teus leitores que comentam…..são tão diferentes, há para todos os gostos e desgostos hahahaha.
    Ao fim e ao cabo é o blog mais interessante que conheço, tem desde os textos de altíssima qualidade (com errinhos de digitação aqui e acolá de quem escreve na madrugada, afinal quem não os tem?) associado a comentários de todos os níveis, alguns interessantes, outros beirando de pessoas limítrofes que beira a estupidez, alguns até grotescos que tu fazes questão de os publicar e outros tão engraçados que fazem rir mais que os sites de humor.
    Beba água e continue no teu caminho que tens sempre algo de bom a dizer.
    J

    • 19/08/2016 at 15:58

      João Neto, escrevo muito e não corrijo, vai num pau só. Uso o blog como um tipo de rascunho. Só depois, então corrijo para o que pode ser publicado. Assim, pegando algum erro, por favor, aponte. Obrigado.

    • angélica della monica
      24/08/2016 at 03:45

      O remédio é, escute seu professor e desligue o celular. KKKK

    • 24/08/2016 at 12:37

      Talvez seja melhor isso, né Angélica, mesmo que for só por civilidade, coisa que a juventude brasileira está perdendo.

  7. Luiz Elesbao Maciel
    19/08/2016 at 14:10

    Caríssimo Paulo,
    Parabéns pela simplicidade e clareza, sem perder a grandeza deste conteúdo – que é tão complexo.
    Usarei o texto num juri simulado, ou coisa assim…
    Abraço.

    • 19/08/2016 at 15:12

      Maciel, bom saber. Quando precisar de texto, peça, vai que tenho inspiração!

  8. Filósofo Maior
    19/08/2016 at 13:53

    Paulo Ghiraldelli, Olá! Vou dizer um verdade que não irá gostar e com a qual irá concordar provavelmente: a primeira condição para haver Filosofia na América Latina é ser escrita uma biografia grande e interessante sobre a vida de alguém que nasceu nesta região e dedicou a vida à Filosofia ou a temas afins. O segundo passo é escrever um manual básico de Filosofia e inserir o indivíduo mencionado entre os(as) Filósofos(as). O terceiro passo é traduzir o pensamento desse(a) Filósofo(a) aos 10 maiores idiomas do mundo e divulgar as obras dele(a) pelo mundo afora. Sem isso, você e outro indivíduo podem passarem a vida a filosofarem, mas nunca serão considerados(as) Filósofos(as). Se eu fosse você, faria isso com o Paulo Freire: inseriria ele na História como Filósofo, tendo em vista que fui inclusive aluno dele. Pois caso o contrário, não haverá condições mínimas para que alguém pense na América Latina e o pensamento seja considerado algo relevante à humanidade.

    • 19/08/2016 at 14:03

      Já fiz isso, no que me cabe. Mas antes de mim, o próprio Paulo Freire assim fez, como herdeiro de Anísio Teixeira. Está tudo feito, tanto é que nos Estados Unidos Paulo Freire é lido como um pensador geral, não como pedagogo ou teórico da educação. Paulo Freire está traduzido até demais. Está tudo feito, o problema é interno. Sempre aparece um tonto que não sabe que filosofia da educação é filosofia ou aparece outro tonto que não leu Paulo Freire e comenta, como Pondé, ou mais um tonto ainda que fala que é um “marxista” ou mais um tonto que não sabe que a trajetória de Freire etc. Pagamos o preço da nossa própria incultura. Fora isso, temos excelentes professores de filosofia na Universidade brasileira que atuam como filósofos. Não são conhecidos do grande público porque não possuem dinheiro por trás, não possuem imprensa etc. Mas há gente no Brasil com teses originalíssimos. Eu jamais teria feito meus mestrados ou doutorados no exterior. Tenho orgulho de ter feito aqui.

  9. Alexandre Aleixo Nunes
    19/08/2016 at 12:55

    Caro professor Paulo, será que tal situação não pode elevar os argumentadores de que o exército deveria ir as ruas para depor o governo civil? Pois se conseguiram resultados no esporte também nao conseguiriam na gestão?

    • 19/08/2016 at 13:00

      Alexandre, Alexandre! Saia da Internet um pouco.

  10. NMarques
    19/08/2016 at 10:56

    sorry cara estude antes ….CDMBR COMEMORA 60ANOS IDIOTA …… A comissão foi criada em 27 de fevereiro de 1956, pelo decreto n° 38.778, com o nome de Comissão Desportiva das Forças Armadas (CDFA), passando, em 1976, com o decreto nº 88.072, à atual denominação. A CDMB integra o Departamento de Desporto Militar do Ministério da Defesa e é filiada à União Desportiva Militar Sul-Americana (UDMSA) e ao Conselho Internacional do Esporte Militar (CISM) – este último, sediado em Bruxelas, na Bélgica.
    O CISM é um organismo internacional que congrega 134 países, sendo a terceira maior organização desportiva do mundo, ficando abaixo, apenas, do Comitê Olímpico Internacional (COI) e da Federação Internacional de Futebol Associação (FIFA).

    A CDMB atua em várias frentes em prol da prática do esporte. Entre elas, a parceria com o Ministério do Esporte na elaboração, planejamento e execução do apoio aos atletas militares brasileiros por meio do Projeto Atletas de Alto Rendimento e a realização de um calendário esportivo anual para militares em mais de 27 modalidades tais como natação, judô e pentatlo militar.

    Além disso, o CDMB proporciona aos atletas militares condições para participação em mundiais como Olimpíadas e Jogos Pan-americanos. A comissão também representa o Brasil no Conselho Internacional de Esporte Militar (CISM).

    • 19/08/2016 at 11:23

      Marques sinto que seu ressentimento atrapalha suas informações. Tudo que escrevi não tem NADA a ver com o que você disse. Acho que você tem dificuldades de entender um artigo simples.

  11. Danilo Rocha
    19/08/2016 at 10:35

    Ghiraldelli, estou terminando o último ano do ensino médio e tenho grande interesse em fazer a graduação em filosofia. Você tem algumas dicas ? Algumas indicações de livros ?
    Obrigado !

    • 19/08/2016 at 11:25

      Danilo, pegue os dois volumes meus de A aventura da Filosofia. Estou no CEFA e na Paulo VI, excelente escola de filosofia da Igreja. Caso queira fazer lá, será bem vindo, em Mogi. Fácil acesso.

  12. Peter de Andrade
    19/08/2016 at 10:18

    Paulo Ghiraldelli, A humanidade pode viver muito bem sem essa opinião tão banal. Aliás, a sua definição de Filosofia como desbanalização do banal é aplicável a esse artigo.

    • 19/08/2016 at 10:23

      Peter eu vou melhorar, vou comprar seus livros e estudar. Vou agora na livraria! Vou também pegar seu currículo para copiar sua trajetória. Essa coisa de “filosofia como crítica cultural”, não dá, tenho de fazer artigos sobre Davidson, daqueles que você entende e comenta e ensina.

    • Patrícia Mello
      19/08/2016 at 11:30

      Paulo Ghiraldelli, O correto na Língua Portuguesa é ”vou à livraria” e não ”vou na livraria”.

    • 19/08/2016 at 12:21

      Sim, obrigado! Se pegar mais alguma coisa errada, avise! Mas agora não vou à livraria mais! Descobri que seria tolice, não iria encontrar o que achei que encontraria. A besta da crítica continua besta.

    • Max Paim
      19/08/2016 at 13:06

      Me parece que aqui há um erro de concordância, ou não?

      “Nossa relação com nossas Forças Armadas seguem a própria ambiguidade delas.”

    • 19/08/2016 at 13:52

      “segue” e não “seguem”

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