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29/05/2017

Como São Paulo desorganiza o ensino?


Nos anos 70, como estudante, terminei o colegial exatamente no último ano do funcionamento da minha escola como instituição de ensino médio. Ela caiu na “reorganização” da época, que visava realizar o que estava na LDBN 5692/71.

Foram fechadas as escolas, o ensino passou a ser só técnico-profissional. Foi o caos. Em 1978 o próprio governo da Ditadura Militar confessou o fracasso e eliminou a universalização do ensino profissional. Mas a desgraça já estava feita. Nunca mais o ensino brasileiro, principalmente o ensino médio, conseguiu os padrões de excelência anteriores.

Em meados dos anos 90, em São Paulo, os fingidos de social-democratas repetiram uma reorganização do ensino. Fizeram pior. Imbuídos por resquícios de procedimentos de “método dos complexos” do velho “movimento da escola nova”, reordenaram as salas de aula e criaram um insuportável trânsito de alunos no interior da escola. A ideia ridícula básica fazia os alunos trocarem de sala, não o professor. Podem imaginar o que virou? Como em São Paulo só o PSDB substitui o PSDB, o lixo produzido por tal reforma foi posto abaixo pelas sucessões do próprio partido. Mas já se havia dado um passo a mais para pior naquilo que ia mal.

Todavia, o pessoal da cúpula do governo paulista não cansa. Caso alguma coisa comece a poder melhorar, eles ficam incomodados. Há agora nova “reorganização” do aparato escolar público paulista. Na prática funciona mesmo é a regra da economia de dinheiro destinada à educação. Ocorre o fechamento de centenas de escolas no estado todo. É o desespero de professores, pais de alunos e estudantes. A medida é tão ditatorial e maluca que, diferente das outras vezes, agora há a reação de rua. Passeatas são feitas com alunos abraçando suas escolas, pedindo ao governador para não fechá-las. Mas o governo paulista não escuta ninguém. Do mesmo modo que agiu diante da seca, age com a educação. Funciona segundo um princípio básico: sejamos irracionais.

O governador Alckmin parece não se interessar pela educação em si, ele raciocina sem senso crítico a respeito de questões pedagógicas e de política educacional. Seu secretário de Educação faz até pior. Desconhecem o que é uma educação geral propedêutica, e o quanto é necessário um movimento no sentido de mais escolas, não menos, e mais apoio financeiro aos professores, e não menos. Que sobrevivam as ETCs e já está bom – essa é a regra deles. A conversa sobre “municipalização do ensino” e de abertura de escolas de ensino fundamental etc., que colocam adiante da “reorganização”, é coisa para boi dormir. Eles acham que somos bois.

De um modo geral, desde 1960 a onda de valorização do ensino técnico-profissional em detrimento do ensino em geral e propedêutico dá as cartas, e corrói a educação brasileira. A educação paulista apenas puxa a fila do conceito errado. É uma pena que não surja no âmbito da secretaria do Estado de São Paulo alguém que pense grande, que note a importância do estado de São Paulo na formação de elites vindas do conhecimento, da posse de um saber antes de base geral que meramente profissional. Falta ao governo paulista, já faz tempo, alguém que saiba que a carreira do magistério está desinteressante por falta de salários, e por isso mesmo os melhores professores têm abandonado o serviço. São Paulo não tem tido sorte. E, aliás, nem oposição!

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. Doutor em filosofia pela USP e doutor em filosofia da educação pela PUC-SP. Professor da UFRRJ. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015). http://ghiraldelli.pro.br

Ibitinga: alunos abraçam escola em protesto ao fechamento

arton3249

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9 Responses “Como São Paulo desorganiza o ensino?”

  1. coxinhamaster
    20/10/2015 at 19:59

    vc podia explicar o mecanismo:trocar de salas sem trocar de professro,vigente numa reforma passada(pesquisei na internet ,mas nao encontrei nada)Abs

  2. Aílton Nunes.
    17/10/2015 at 02:02
  3. Claudio
    14/10/2015 at 14:14

    Fechar escolas para criar mais presídios ?!?
    Pode não ser esta a intenção, mas será o resultado final.

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Filósofo