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27/04/2017

Como evitar que seu filho fique burro


Não é mais permitido no Brasil chamar um jovem de burro. Várias mães, muitas pedagogas e todas as psicólogas acreditam que a burrice é um mito. Segundo essas pessoas, há uma genialidade espraiada entre nós. É claro que não estou entre essas pessoas que acreditam nisso. Não há 200 milhões de gênios em ação no Brasil.

Sei que há pessoas burras. Não tenho condições de evitar que pessoas burras sejam burras. Mas tenho certeza de que há alguns procedimentos pedagógicos que emburrecem. Um deles é acostumar o jovem a pegar atalhos. É contrariar Aristóteles que, diante da pressa de Alexandre em aprender sem esforço, teve de avisar o jovem futuro imperador que “não há atalhos reais na terra da filosofia”. Nem aos reis é permitido uma didática que diga para você ir ver um midiagogo ao invés de estar com o filósofo e com o verdadeiro professor. Palestras fáceis e livros que facilitam são o caminho do emburrecimento.

O que o livro didático mal preparado faz é mais ou menos o que o midiagogo, o palestrante, faz também, e se isso vicia, então dê adeus ao cérebro. A ideia básica é criar uma tradução do complexo na filosofia (ou outra disciplina) por um caminho que diz a mesma coisa, mas é mais suave. A ideia básica, aqui, é um erro. Algo técnico não é escrito de modo complexo por idiossincrasia do filósofo, mas simplesmente porque sem seu vocabulário técnico o que ele quer dizer não é possível de ser dito. O midiagogo e o autor do livro de facilidades nunca soube na vida o que é saber, nunca soube o que é aprender. E portanto, até mesmo acredita que está ensinando algo e que sabe algo. Mas está apenas criando o vício, e no fundo, não sabe nada. Midiagogos possuem sucesso de público justamente por não saberem nada. Fiquem atentos, vejam como repetem lugares comuns e veja como o que dizem qualquer um, sem estudo, também diria.

É difícil para a pessoa que já está emburrecida por esse procedimento do aplainar narrativas entender que não existe superfície lisa em filosofia (ou outras disciplinas). Tudo é rugoso. As rugas são os momentos de parada para o entendimento do vocabulário técnico e, então, para o peculiar uso desse vocabulário no trabalho de entabular as questões de uma maneira e não de outra. Dou um exemplo: na Carta sobre o Humanismo, Heidegger se diferencia de Sartre. Explica que sua filosofia não é existencialista no sentido da palavra existencialista utilizada por Sartre. Cunha a palavra eksistencia e, então, reordena sua filosofia e, de certo modo, também a de Sartre. Ora, esse ponto é um ponto de parada, uma ruga, o fim da inércia do deslize contínuo, a interrupção da palestra do midiagogo e a inutilização do livro didático facilitador. Aqui, o pensamento é chamado de volta para ser exercido. Aqui, é necessário a volta do tempo comandado pela filosofia, e não o tempo comprimido pelo leitor ou ouvinte sabichão e ávido. Não cabe em um livro didático facilitador ou na palestra de quase auto-ajuda essa reflexão profunda a respeito de eksistencia. Então, o midiagogo tapeia a si mesmo e aos outros ao acreditar que ele pode fazer uma curva ao redor de ekistencia e, ainda assim, continuar falando de Heidegger. Não pode. E se vai continuar falando, vai fazer a única coisa  que sabe mesmo: falsear e dar a sensação ao ouvinte de que é possível pular de galho em galho em filosofia e, ainda assim, aprender. Já vi muito historiador, advogado e prostituta fazendo isso. Mas isso é o puro emburrecimento capitaneado pelo burro.

O emburrecimento é fruto do vício nesse procedimento. O autodidatismo também o alimenta. Mas sua fábrica está mesmo nas mãos do midiagogo. Pois este é única e exclusivamente um burro narcisista. Ele é burro por não conseguir entender a razão de seu pulo, e ele é narcisista porque acredita que ninguém notou que ele é burro. Quanto mais levamos nossos jovens a se acostumar com esse procedimento que não enfrenta o complexo e as questões técnicas, e que se deixa levar pela suavidade, pelo liso, pelo ouvir contínuo, pelo show, mais os fazemos burros. Um dia, eles já não conseguem fazer nada mais a não ser essa atitude imbeciloide favorecida pelo midiagogo do dia.

É triste ver pois e outros acreditando que, uma vez burro, o filho pode ser recuperado, pode voltar a pensar.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 03/04/2017

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One Response “Como evitar que seu filho fique burro”

  1. Egisto
    04/04/2017 at 23:38

    É o que digo constantemente aos meus alunos: pensar dói, sangra; mas, só os que entendem isso não empacam no caminho.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo