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22/10/2017

Comediantes da direita, tolos da esquerda e a escola pública


Nos anos oitenta Paulo Salim Maluf contava a seguinte piada: “temos de ter universidade paga, a própria USP deveria ser paga, pois lá só tem filho de rico”. Ninguém dava bola. Ele ficava esperando a risada. Ninguém ria e também ninguém dava atenção.

Um dia, começaram a dar atenção para esse tipo de discurso. Creio que até mais a esquerda que a direita. Então, a esquerda política iniciou um esboço de resposta: “a universidade pública é própria para os pobres, por isso mesmo ela deve ser gratuita – vamos torná-la mais acessível”.

Como a USP não cedeu a uma tal ideia, até porque estatisticamente (no geral) não era verdade que ela era só de ricos ou só de pobres, a esquerda respondeu à direita democratizando o acesso às universidades federais, aquelas diretamente ligadas ao MEC.

Foi uma democratização estranha, feita na base da crescente abolição dos vestibulares, do esgarçamento dos critérios para a entrada em determinados cursos, do surgimento das listas infinitas para a chamada do Enem, do aparecimento da cota para aluno egresso da escola pública e, para completar, o fim da necessidade do diploma de ensino médio em escola regular (você pode usar do Enem para tirar o diploma de ensino médio, fazendo um número ridículo de pontos).

A resposta da esquerda não foi só imbecil por ser imbecil em seu conteúdo, mas por repetir um erro crasso e fatal que já havia sido realizado na escola fundamental, e não pela esquerda.

A partir dos anos setenta, também houve aqueles que inventaram de eleger a escola pública fundamental como um direito dos pobres. De direito dos pobres ela passou a ser propriedade dos pobres. Em seguida, ela se tornou exclusiva dos pobres. A classe média logo entendeu o recado e caiu fora. As reformas do ensino fundamental foram tantas, e todas tão voltadas para se criar uma escola para a formação do cidadão trabalhador, que a classe média, tradicionalmente em busca de uma escola propedêutica à universidade, deixou de vez o ensino público. Tendo ficado efetivamente uma escola de pobre, a escola pública se tornou órfã. Afinal, o que é do pobre não interessa ao governo, que mesmo quando está sob o comando de um executivo popular, não consegue cuidar da escola. O que sempre fez a escola pública ganhar a atenção do governo e/ou do congresso foi o fato dela acolher os filhos de muita gente da chamada classe política e das elites. Quando todos se retiraram e essa escola ficou responsável pelo ensino do pobre, ela se tornou o que é tudo que é para os pobres no Brasil: pobre.

As esquerdas não conseguem entender que o apartheid social é o pior caminho que uma sociedade pode seguir. Nesse sentido, faz igualzinho a direita. A direita quer que certos lugares continuem de boa qualidade para que só ela usufrua. A esquerda nem sempre consegue entender que não pode tomar posse de tais lugares sem estraga-lo, e que a entrada de seus protegidos ali, os pobres, deve ser feita de modo paulatino. Não, a esquerda quer entrar e tomar o lugar. É a ideia da revolução ou, melhor, a ideia do que Marx chamava de “comunismo de inveja”: o que se quer não é usufruir de bons serviços para todos, mas apenas destituir a tal “classe dominante” dos seus lugares. Com o advento de um regime socialista essa ideia é ineficaz, com a manutenção do capitalismo esse ideia é burra.

Toda e qualquer instituição em um país multifacetado como o Brasil deve conter um equilíbrio de classes, grupos e etnias. Quando expulsamos a classe média dos lugares em que ela está, junto com ela vão os políticos, o governo e a atenção social. O lugar torna-se descuidado e, então, decadente. Em um prazo bem rápido os pobres herdam o lugar da elite, mas então transformado em espelho dos novos donos: sem dentes, com rugas aos montes, descalça e maquiada pelo perfume barato.

A esquerda está fazendo com as universidades públicas, especialmente com as federais, o que deixou com que a mentalidade de democracia de arrastão fizesse com o ensino fundamental.

Maluf pode contar a piada agora. Até porque agora há alguns jovens de direita para rirem do que ele fala. Só não rirão se ficarem com inveja do Maluf, acreditando que ele sim é um bom comediante, e não a garotada do palco atual, o que de certo modo tem lá sua verdade.

© 2014 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

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34 Responses “Comediantes da direita, tolos da esquerda e a escola pública”

  1. Marcio Muccillo Sklar
    12/02/2014 at 13:53

    Olá, Professor. Uma coisa não ficou clara para mim em sua lógica unifatorial: por que mesmo a classe média abandonou a escola pública?

    • 12/02/2014 at 14:07

      Há nisso um longo processo que você fica sabendo lendo o meu Filosofia e história da educação brasileira (Manole)

  2. Rafael Costa
    21/01/2014 at 19:16

    Belo texto, Paulo.
    É bom ver você, além dos seus livros, também escrevendo textos com bom conteúdo reflexivo na internet, dando uma contribuição para o crescimento intelectual dos “internautas” .
    É uma pena que tudo que se escreva e se fala sobre educação, saúde e segurança, acabe virando na cabeça das pessoas, uma briga partidária.

    • 22/01/2014 at 08:06

      Rafael, no caso da educação não, nenhum partido se interessa realmente.

  3. Jonny
    20/01/2014 at 18:20

    Mas a classe média tem pra onde correr, se quiser abandonar a universidade pública? ela vai pra onde, tirando puc e mack? não vou falar de fgv, ibmec, insper… porque essas instituições só tem alguns cursos. e tb tem o fato de mack não ter medicina e puc e mack terem poucas opções de engenharia. então pra onde a classe média vai correr, caso queira deixar a uni pública, devido ao seu preconceito? e ainda, as demais instituições de ensino superior estão cheias das pessoas que a classe média não gosta, a saber, da classe C e pardos.

    e vc acha mesmo que vai acontecer com a universidade pública no brasil o que aconteceu com a escola pública brasileira? acho que não, pois há ainda muita disputa por vagas e metade destas não é reservada. sobre a concorrência, foram mais de 2 milhões de inscritos no sisu para menos de 200 mil vagas. a concorrência foi até maior pela cota, segundo o UOL.

    acho que a univ pública vai continuar boa, assim como continuaram boas as escolas públicas onde continuou a haver disputa por vagas, como os antigos cefets, hoje ifs, e escolas militares.

    • 20/01/2014 at 18:28

      Jonny. Quem disse que há alguém interessado no Brasil em aprender alguma coisa? A sociedade brasileira não vê mais na educação algum bem.

  4. Ruy Mendes
    20/01/2014 at 18:04

    A Dilma tinha que colocar o Paulo Ghiraldelli como Ministro para ver se pelo menos a gente termina o governo do PT de uma forma mais digna.

  5. Valdério
    20/01/2014 at 17:26

    Última linha do sétimo parágrafo. Você quis dizer “essa” ao invés de “esse”. Bom texto Paulo.

  6. MARCELO CIOTI
    20/01/2014 at 10:59

    Coincidentemente,Maluf,hoje,faz parte da base
    aliada do PT.É muita coincidência,vocês não
    acham?O Regime Militar acabou,mas os
    políticos civis que apoiaram o regime,
    apoiaram todos os Presidentes que vieram
    a seguir.Se Sarah Palin,hoje,fizesse parte
    da base aliada do Obama nos EUA,seria
    um escândalo mundial.Aqui,tem até
    evanjegue da Universal como Ministro
    da Pesca.

    • 20/01/2014 at 11:31

      Marcelo, seu entendimento das coisas é politizado demais. Você vive em um mundo extremamente datado, do hoje, do agora, do ontem. Você não consegue lidar com o pensamento filosófico que é trabalha na alternância entre data e longa duração, entre contingente e estrutural. Tudo para você é tratado como notícia de jornal.

    • MARCELO CIOTI
      20/01/2014 at 15:10

      Mas o pensamento do Maluf e de quem
      manda no MEC hoje é igual,como você
      diz no texto.Politizaram tanto a
      educação no Brasil hoje,que,quem
      não concorda com o Enem ou o
      Pro Uni é da “direita golpista”,
      entre outras grosserias.

    • 20/01/2014 at 16:02

      Marcelo, realmente, acho que você me lê mal. Maluf pensa como quem manda no MEC? Meu Deus!

    • MARCELO CIOTI
      20/01/2014 at 16:07

      Aliás,o Mercadante vai deixar o
      MEC pra ir a Casa Civil.O que
      será que vão colocar no lugar
      dele,PG?

    • 20/01/2014 at 16:45

      Marcelo, qualquer coisa serve no MEC. O PT nunca demonstrou apreço por tal ministério.

  7. Mario Luis
    20/01/2014 at 01:21

    Se por um lado é possível diagnosticar a educação pública hoje em razão de uma bagagem teórica e crítica, por outro lado isso também poderá se dar à luz da empiria. Veja o meu caso por exemplo, que frequentei escolas e universidades nas décadas de 70 e 80 e 90, onde tive a experiência do desmonte da escola pública o qual, de pronto, detonou com a carreira do magistério. Naquela época, em particular no Rio de Janeiro, havia uma preferência pela manutenção do “status quo” do ensino público focado nas universidades federais e estaduais. O que acontecia, de fato, e de maneira bastante genérica – digo isso porque algumas instituições ditas “do científico” ( atual ensino médio) ainda preservavam o nível de ensino. Mas, na corrida em direção ao funil chamado vestibular, no final das contas não ocupavam as primeiras as vagas nas universidades públicas , em geral, os que dependiam do ensino público. De sorte que não havia democratização e sim um um buraco de agulha por onde só passavam os preparados em cursinhos caros ou ainda em colégios tradicionais. Haviam exceções é claro, mas isso é outra história.
    De sorte que ninguém achava graça no que o tal político dizia pelo simples fato de que ele tinha razão.
    Já na década de 90, a universidade pública sofrera uma queda considerável na qualidade do ensino, haja vista as alterações, desde a década anterior, no panorama macroeconômico os quais impingiram uma reviravolta que resultou em amplos processos de refinanciamento de dívidas públicas, privatizações etc, e que tornou claro, mas de maneira tardia, o viés perverso do mundo globalizado e seu capital volátil e sem pátria, os tigres asiáticos( 1980 em diante), a glasnost (1985)e a perestroika (desarmamento e desocupação do Afenanistão) e colapso soviético (1991). Resultado disso? A inocência perdeu-se e o sonho virou concreto. Concreto armado. Favela, Playground e Shopping Center. Então, que a universidade tinha que ser para todos. Que merda. Terra de Marlboro e Marx mal lido, terceiras intenções, um saco. Mas houve em grande parte um avanço, quando da absorção de novos paradigmas os quais traziam ventos colhidos de áreas aparentemente distantes mas que fundiam-se em novos olhares, estes com a amplitude de visão dada pelas lentes da internet da qual, na minha época mesmo, só usufruíamos de, no máximo, um BBS.

    • 20/01/2014 at 09:04

      Mario Luis, acho que a universidade, como a filosofia, deve ser “para todos, mas não para qualquer um”. Agora, “o tal político” não tinha razão. Nisso você se engana profundamente. Era uma mentira. Uma vez mostrei a condição sócio econômica dos alunos da USP para um jornalista de direita. Ele não quis ler, pois o quadro o desmentia, bem como desmentia “o tal político”. Qual a maquiagem dos da direita para inventarem mentira: diziam a verdade, alguns cursos eram de ricos.

  8. Marcos Pastrello
    19/01/2014 at 08:22

    O PT esta destruindo toda a estrutura do Brasil. O reflexo disso vai ser terrivel daqui a alguns anos.

    • 19/01/2014 at 19:23

      Marcos, ah se as coisas fossem fáceis assim de analisar e diagnosticar! Quando começamos a pensar assim, encontrando um demônio responsável por tudo, a única coisa de verdade é que acabamos de encontrar a nós mesmos, e o que vimos não é nada belo.

    • Ruy Mendes
      19/01/2014 at 20:41

      O PT não pode ser culpado, meu caro. Antes do PT a situação já estava ruim. Alguns analistas dizem que o Brasil perdeu uma oportunidade de dar um grande salto pq a situação do país estava muito favorável a alguns anos atrás, entretanto o Brasil é dominado por forças conservadoras que não deixam o país ir para a frente. Por outro lado, nas camadas de baixo o povo não sabe lutar por seus direitos, não sabe conquistar a cidadania.

    • 19/01/2014 at 21:26

      Ruy Mendes, será mesmo que você foi educado na USP? Você só fala abobrinha. Quem está dizendo que o PT é culpado? O PT tem parte da culpa, pois tem se preocupado com quantidade e tem deixado o ensino fundamental ao Deus dará. Porra! Puta merda viu. Não aguento mais essa burrice.

    • Ruy Mendes
      19/01/2014 at 22:43

      Esse é o ano do Ban no PT.

    • Caçambão
      20/01/2014 at 11:17

      Ainda existe dois brazis, cara. Não é a toa que o PMDB, PSB, PSDB, PP ainda faturam muito no país. Existe um país do campo e o da cidade. O pensamento é diferente, varia o eleitorado nesses lugares, no Norte, Sudeste e Sul.
      Nas capitais são outros problemas . O PT só agora recentemente conquistou parte do eleitorado de cidades com menos de 2 milhões de habitantes, o que foi primordial p/ a perpetuação no poder.
      Assistiremos nessas eleições mais um grande show de demagogia e cinismo, porque o brasileiro mesmo envelhecendo ainda ama ser enganado.

      As opções para governador no RJ está triste.

    • 20/01/2014 at 11:29

      Caçambão, meu artigo NÃO fala de PT ou eleições. Não sei onde quer chegar com seu comentário estranho.

  9. Ruy Mendes
    19/01/2014 at 02:17

    A escola pública não deixou de ser dos ricos pq os pobres entraram, mas sim porque ela foi perdendo investimentos. Até os anos 70 tinhamos escolas de melhor nível, uma estrutura física melhor, cursos profissionalizantes, etc. Já no final do regime militar essas coisas estavam praticamente acabadadas, não se faziam mais escolas como no breve período do chamado milagre econômico, início dos anos 70. Outro problema era que os pobres nem na escola iam, mesmo nessa “melhor” época das escolas. Com o aumento da população e a chamada crise da década perdida a escola foi ficando cada vez mais deteriorada. O Brasil dos anos 60 era um país com população bem menor, e também um país muito diferente culturalmente desse de hoje, além de que não se tinha tantos ricos como tem hoje, as diferenças de classe não eram tão grandes como as atuais.

    • 19/01/2014 at 08:19

      Ruy é exatamente o contrário da sua frase inicial. Leia um tal de Ghiraldelli

  10. carlinhos
    18/01/2014 at 21:09

    vc é um extremista de ultra direita, isso sim!!!

    • 18/01/2014 at 22:32

      E você é o Papa Francisco vestido de girafinha Parmalat. Quando tira a fantasia, aparece como burrinho Parmalat.

    • Thiago Carlos
      19/01/2014 at 01:46

      Uai mas ele não era um filósofo radical de extrema esquerda?
      É só colocar no google que aparece um bando de sites dizendo isso…aiai essa hiperpolitização de tudo =/

  11. vera bosco
    18/01/2014 at 19:35

    Aquelas “assistentes sociais voluntárias”,não é?

  12. Ruy Mendes
    18/01/2014 at 18:55

    O Brasil precisa antes de tudo constituir uma elite intelectual, tal como já existiu, talvez nos anos 60.

    • 18/01/2014 at 19:05

      Ruy sempre tivemos uma elite intelectual e ainda temos. Isso muda algo? NADA. Escritores precisam de leitores. Não temos leitores. Não temos mais leitores porque a escola pública, obrigatória, gratuita e laica acabou. E acabou porque os salários dos professores acabou. O resto é conversa fiada de moleque de direita e de moçoila de serviço social de esquerda.

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