Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

24/04/2017

Ideia de Claudio Moura Castro sobre importação de maridos é boa!


Por que não pensarmos na construção de lares com um novo ethos, munidos de narrativas que não sejam sempre as mesmas?

Para minha amiga Leiliana Franco

Política de imigração é um bom instrumento do “parque humano”. Quando uma ilha é habitada por famílias que não possuem tradição no plantio de hortaliças, nada melhor do que importar famílias japonesas para tal lugar. Quando uma ilha é habitada por gente que não tem tradição de sentar-se à mesa e ouvir histórias na hora da janta, porque não tem tradição de família, ou seja, são ex-escravos, não é errado pensar em trazer homens ou mulheres de fora, que tenham longa tradição familiar, para se casarem com os do lugar. Começa-se a dar ao local a chance de ter uma população que se enraíza, que propaga histórias sobre si mesma. Cria-se o que os sociólogos chamam de identidade social. Uma parte da identidade psicopolítica precisa muito disso.

Mas, e se encontramos uma ilha cercada por ar acima e por terra abaixo, perdida entre o Atlântico e o Pacífico, onde nunca as famílias conversam sobre matemática e física em volta de uma mesa, nas refeições? Será que não teríamos aí uma população meio que romana, com muito latim e grandes feitos, mas, ao mesmo tempo, criadora de um aqueduto enorme no qual a água deveria subir, sem qualquer bomba? Criar uma escola para que os filhos dessas famílias saíssem desse situação de ingenuidade não seria bom? Todavia, será que num lugar sem qualquer tradição de se levar a sério a narrativa da ciência, essa escola saberia como ensinar física e matemática? Traríamos bons professores, mas a escola desanimaria – faltaria para ela um ethos local apropriado, faltaria o apoio substancial do lar. Ao final, não ensinaria nem o latim, pois isso, como já teria sido acordado, todos ali já sabiam. Afinal, um romano sem saber latim não seria um romano.

Não temos que importar gente que trabalha com física e matemática para que venham ocupar empregos aqui. Isso é imediatismo pouco produtivo. Mas podemos pensar na ideia de trazer maridos (ou esposas) para criar famílias que gerem ambientes onde o gostar de matemática e física seja natural, espontâneo. Famílias que conversem não só sobre o bom uso das artimanhas do latim, sobre a pureza do grego, mas que tenham lares onde a matemática e a física se ponha consciente, como uma narrativa a mais de troca de experiências. Uma política migratória com objetivos culturais e educacionais a médio prazo pode sim mudar um país. Ora, uma política migratória no momento de uma Europa ainda em crise, uma China super populosa, um Japão que ainda exporta gente e um mundo árabe em guerra, não é difícil de ser feita.

Podemos imaginar uma ilha com famílias que durante a janta gostasse de conversar sobre O homem que calculava, de Malba Tahan, antes do que a respeito dos massudos tratados do professor Luciano Huck ou do “à direita ou à esquerda” da TV Cultura paulista! Não se trata de pensarmos em uma política de migração nos moldes tradicionais, que já fizemos, mas nos moldes do bônus para casamento. Bônus para quem se case com estrangeiros apreciadores sinceros e manejadores competentes de matemática e física, trazidos ao país para o matrimônio. Em vinte anos, a escola brasileira começaria a ter professoras, filhas dessas famílias planejadas pela política do bônus, cuja curiosidade científica seria nítida. Começaríamos a ver ficar para trás a aversão à matemática da formanda em pedagogia, como na atualidade, ou mesmo a incapacidade em lógica dos formandos nas licenciaturas em ciências humanas no Brasil. Já imaginou termos um país e em que “os de humanas” tivessem noções de física que não fossem pré-neutonianas? Já imaginou a beleza de uma ilha em que não existisse mais professor universitário de história dizendo, com orgulho ignorante, “não sou matemático”, diante de uma raiz quadrada?

A tese de Claudio Moura Castro de que o professor brasileiro não ganha mal é errada. No Brasil essa profissão está sim defasada das outras de um modo acentuado, e em disparidade com o que ocorre no resto do mundo. Pessoas aqui em nosso país com o mesmo grau de estudo universitário, vindos das mesmas escolas, possuem empregos de remuneração cinco vezes maior se não são professores. Mas, quanto à ideia de de dar bônus para “‘as nossas “caboclinhas” se casarem com engenheiros estrangeiros, gerando famílias brasileiras, que continuem aqui nessa grande ilha, isso pode sim dar muito certo. Nisso, o artigo de Claudio, na revista Veja, acertou. Como já disse, não deveríamos pensar nisso para resolver o problema de mão de obra. Dá para pensar maior, mais ousadamente. Dá para pensar numa política de construção do “parque humano” com um planejamento mais furioso, ousado, revolucionário.

O triste de tudo isso foi ver que o próprio Claudio Moura Castro fez a sua declaração como “piada de mal gosto”, como confessou depois, ao ser patrulhado. Mas quando as patrulhas de imbecis (existe patrulha não imbecil?) baixarem a guarda, podemos pensar seriamente nessa ideia. Com um pouco de estudo de antropologia, chega-se fácil à conclusão de que é uma boa coisa.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 31/07/2016.

Tags: , , , ,

10 Responses “Ideia de Claudio Moura Castro sobre importação de maridos é boa!”

  1. 07/09/2016 at 10:12

    Bacana.

  2. 04/08/2016 at 06:04

    Ghiraldelli, na minha família eu sou o único ao longo de todas as gerações, que eu saiba, que gosta de estudar Filosofia. Como não tenho filhos e não sei se os terei o gosto e o costume pelos estudos filosóficos vão comigo para o túmulo, infelizmente…

  3. Valmi Pessanha Pacheco
    01/08/2016 at 12:12

    Prof. PAULO
    Li na íntegra o artigo do Moura Castro e seus argumentos me pareceram bastante pertinentes, mereceriam reflexão, a despeito do desprestígio que o magistério vem enfrentando.
    Quando no Rio de Janeiro, professores em greve há 6 meses, por mais justas que sejam suas reivindicações, especialmente, contra o atraso salarial decorrente dos atos e omissões de governantes incompetentes que levaram à falência as finanças arrecadadas da população, chegam ao ato extremo de vandalizar composições do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), recentemente incorporado aos meios de transporte da cidade, vejo como são sombrias as perspectivas da nobre profissão.
    Por falar em ilhas, lembro que a Austrália e a Nova Zelândia, apesar do povoamento forçado imposto pela Coroa Britânica, composto por conscritos de pequenos delitos, hoje são exemplos de democracias vibrantes, governantes responsáveis, inclusive de onde é originária a Lei de Responsabilidade Fiscal adotada no Brasil pela Lei Complementar nº 101 de 2000. Infelizmente desrespeitada por governantes nas três esferas de governo.
    Aguardemos as consequências da catarse.
    Valmi Pessanha

  4. LMC
    01/08/2016 at 11:27

    Claro,vamos fechar a TV Cultura e dar
    o canal pra algum pastor ou vendedor
    de carnê.Lembram que,nos anos 70
    a Cultura estava cheia de comunistas
    como o Herzog?kkkkkkkkkkkkk

    • 01/08/2016 at 13:39

      LMC não vou comentar, apenas recomendo um médico. Quando passar por um, volte, talvez aí você possa ouvir críticas. Há médicos que dão vitaminas para que a mente fraca saiba passar por críticas e não falar bobagem.

    • LMC
      01/08/2016 at 16:06

      Melhor quem fez foi o Temer que
      tirou da TV Brasil o Na$$if e seus
      amigos puxa-sacos de lá.E a
      GNT/Globo onde a midiagoga
      Márcia Tibúrcio caiu fora,também,PG.

  5. João Neto
    01/08/2016 at 06:43

    Oi, Paulo. Essa idéia parece uma luz no final do túnel: um tipo de nova colonização assim podia surtir efeito e fazer ecoar os sons de um jeito melhor de se comportar.
    Sabe, Paulo, lembro-me de alguns textos teus onde dizias que o rico ficava preso na sua aldeia pois teria que voltar para cuidar dos bens e negócios da família, estão presos assim como os pobres que não conseguem dar um salto. No meio disso, tu, assim como eu, por não termos nada que nos prendesse, tivemos a oportunidade de nos lançarmos em busca de nossa própria história, que teria que ser inventada. Depois de ter saído do Brasil e conhecido outras culturas vejo o quanto tens razão. E o quão estreito é o campo de visão dos que ficaram.
    A pequenez vai indo, vai indo, forma uma crosta que se agarra à pele e aos ossos e se transmite de geração em geração. Nessa linha de raciocínio acho que os bons valores, o respeito, a grandeza e o espirito livre, assim como a ética e a moral podem e sãos transmitidos de pai para filho e uma espécie de contaminação transversal poderia ocorrer.
    Só o fato de poder ver ao lado alguém que pensa e age de modo diferente e que tem outra perspectiva dos valores da sociedade e de como se construir um pais melhor é mais uma semente, uma semente do tipo da tua. Uma semente a ser plantada num deserto mas se chover um pouquinho poderá nascer.
    Obrigado mais uma vez pelos teus textos.
    Não vejo a hora de voltar ao Brasil para comprar uns livros teus.
    Aqui é difícil faze-los chegar.
    Beba água.
    J

    • 01/08/2016 at 13:40

      Família é tudo. Veja o que a imigração italiana fez em São Paulo!

  6. Saulo Almeida
    31/07/2016 at 12:39

    Não adiantaria, Ghiralda. Logo nosso governo criaria cotas para excluir esses filhos de matemáticos da universidade, baseado em dados do tipo “3/4 dos matemáticos do país são filhos de estrangeiros, mas eles são 5% da população”.

    • 31/07/2016 at 12:49

      Saulo, sua mãe, aquela puta, se chama ghiralda, eu meu chamo Ghiraldelli.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo