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17/12/2017

A aula de educação artística que muitos não puderam ter, que pena!


PORQUE DONA REGINA, a senhorinha do programa da Fátima Bernardes, acha que o que ocorreu no MAM foi pedofilia ou algo próximo disso?

Por uma razão simples: ela não se lembra que  deu banho nos seus filhos, e que ela tocou crianças, e que as crianças a tocaram, e ainda a tocam, e tocam outros, amigos da casa ou até estranhos. E que se todos vão à praia, todos se tocam seminus. Se a criança esbarra no pênis de um adulto, ele normalmente nem percebe. Tudo está normal. Ora, no museu, mais ainda (e no museu ninguém tocou em pênis de ninguém, e se tocasse, nada ocorreria). O artista é um profissional. Ele não está lá, no MAM, para apresentar seu sexo, ao contrário, ele está ali com seu corpo propositalmente nu para mostrar-se tão próximo da peça manipulável de Clark, de 1960.

A criança tocou-o como peça, pois foi ensina pela mãe, ali presente, que se tratava exatamente disso. A mãe estava dando à criança uma aula de educação artística que, não podendo ocorrer na escola (até poderia, se nossa sociedade fosse mais culta), ganhou do Museu o melhor espaço. E a criança e outros aprenderam a aula.

Dona Regina é uma senhorinha, não entende o que ocorreu, aliás, talvez nunca tenha ido a um museu, e o que viu foi fotos da Internet. Ora, o que ela teria de elementos para avaliar o que é uma aula de educação artística num museu? A Rede Globo estava, no momento que Dona Regina falou, tentando explicar isso à população. A presença de Dona Regina ali, mostrando não ter entendido nada, mesmo após quase uma hora de programa, deu a clara dimensão da fraqueza da TV diante da escola, ou da falta da escola.

Quem não tem aula de educação artística de verdade, termina caindo para o interior de grupos fascistóides que, agora, estão hostilizando artistas em geral. Voltamos ao tempo que o artista era admirado, mas ao mesmo tempo cuspido na rua, por ser “vagabundo” ou “prostituta”. Justamente agora, que lutamos até por tornar prostituta alguém de respeito, os artistas caem na berlinda. E tudo isso pela caça aos novos “comunistas”, chamados agora de “pedófilos”, e por conta de pessoas que não tiveram escola.

Paulo Ghiraldelli  é filósofo, professor e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalha como escritor e cartunista e tem presença constante na mídia imprensa, falada e televisiva. Atua junto com Francielle Maria Chies no programa Hora da CorujaFLIX TV. É professor de filosofia aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trabalha atualmente como diretor e pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). É professor pesquisador convidado na Faculdade Paulo VI, da Igreja Católica, em filosofia.

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2 Responses “A aula de educação artística que muitos não puderam ter, que pena!”

  1. Guilherme Picolo
    14/10/2017 at 16:59

    O MASP iniciará uma exposição em 19/10/17 sobre a História da Sexualidade… Os “camicie nere” e o fã-clube da Gestapo já estão vociferando. Para eles, mesmo com classificação etária, um quadro de Tolousse- Lautrec ou Anita Malfatti e cia é pornografia, e educação boa e saudável mesmo é a dos “bons tempos”, que enfatizavam o “amor à pátria e à ordem”, tipo esta daqui: http://4.bp.blogspot.com/-56qJJbqM8ZI/UY7HpNgSbyI/AAAAAAAAZgg/6fard9IPdXs/s1600/Imagem27.jpg

    Nos anos 60, eles achavam que andaríamos em carros voadores, trocaríamos orgãos defeituosos na farmácia e iriamos nas férias para colônias em Marte… mas em 2017, o que temos é pedido de intervenção militar, ode ao justiçamento e à tortura, mantendo-se vívida a crença de que a Terra é plana!

  2. bony
    10/10/2017 at 14:08

    Vi varios casos semelhantes na minha familia. Senhorinhas bondosas que, devido a educacao precaria e a impossibilidade de acompanhar a mudanca dos tempos, diziam coisas dignas de um Hitler. Nao acho que elas fossem imediatamente culpadas pelo que eram. Ha algo na natureza do Mal que eh capaz de nos pegar de maneira sorrateira. So a educacao moderna pode salvar alguem disso. Arendt devia ter razao ao defender a banalidade do mal. As senhorinhas que conheci nao eram fundalmente mas ou fascistas, mas eu vi que na ocasiao certa elas poderiam ter sido. Na ausencia de educacao adequada, agiriam no piloto automatico, sem nem saber do mal que estariam fazendo, banalmente.

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