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15/12/2017

Antonio Prata, da Folha de S. Paulo, explica a piada!


Imagino que se Antônio Prata, escritor e colunista da Folha, não toma antidepressivos, logo passará a tomar. Como filósofo que é também professor, estou acostumado a ter a maior paciência do mundo para explicar as coisas, mas isso em sala de aula. Fora dela, tenho por princípios atender meus leitores, e eles não são estúpidos. Explicar piada, isso não! Isso me deixa não mais com raiva, mas deprimido.

Antônio Prata fez um artigo irônico, dizendo que havia se convertido à direita, e então usou dos jargões que vemos na imprensa e no senso comum, que caracterizam a direita política. São frases que não raro saem da boca de Reinaldo de Azevedo e seus imitadores (até na filosofia existe agora imitadores dele!). Aquela parafernália toda contra minorias, contra qualquer tipo de Welfare State e, é claro, aquele ódio obsessivo e completamente anacrônico ao tal do comunismo. Sei que há um público para esse tipo de coisa, mas imaginava que esse público reconheceria o texto de Prata como uma ironia e iria ou se calar ou espumar de raiva por ver o que dizem posto jocosamente. Todavia, não foi isso que ocorreu!

Um bocado de gente de direita e esquerda opinou seriamente sobre o texto de Prata, não reconhecendo a ironia, mesmo não sendo algo sutil, mas escancarado. Os da esquerda ficaram tristes com o endosso de Prata às teses da direita. Os da direita cumprimentaram Prata e, como é de praxe, aplaudiram sua “coragem”. Sim, a direita acha que repetir o senso comum, o que todo mundo diz, é uma atitude corajosa. Ela se faz de vítima diante de um governo do PT, que identifica como a esquerda, os “comunistas” (não contaram para esses sábios que não há mais comunistas).

Prata escreveu um segundo artigo, então, explicando sua ironia. Creio que ele sofreu um choque de realidade e, se sentindo mal, escreveu esse segundo artigo. Fico deprimido porque eu não preciso de um choque desses, sou atingido por essa descarga diariamente. Como meu dia-a-dia é de contato com muita gente, conversando, e também na universidade, sei das coisas. Vejam. Outro dia, em uma sala de aula de 36 alunos, no ensino superior, ninguém sabia o que era a palavra “falo”. Ora, estamos no fundo do poço. Os índices dos PISA (exame internacional) nos colocam já há quase trinta anos nos últimos lugares. Ora, antes isso era apenas um índice ruim, agora é um dado palpável no nosso cotidiano.

Não podíamos ter destruído o ensino médio como fizemos. Mas fizemos isso. Entre outros, o resultado é que temos, hoje, jornalistas que podem advogar a barbárie e serem levados a sério, e quando um articulista mais sofisticado como Prata lança uma piada, um número grande de leitores do jornal (meu Deus, trata-se do leitor da Folha!) é incapaz de perceber o ridículo do discurso da direita, e então acha que realmente alguém que não é o militante estereotipado, pode falar seriamente o texto bárbaro.

Já vi coisa semelhante ocorrer em outros países. Mas não vi coisa igual. Isto é, nunca vi em outros lugares um número tão grande de pessoas, que tem domínio da leitura e da escrita, não ser capaz de compreender uma ironia.

Nossa sociedade está produzindo coisas estranhas. Diziam que quando a miséria diminuísse então a violência e a burrice cairiam proporcionalmente. Ora, estamos mais ricos e, no entanto, a violência aumentou e nossos leitores estão com os neurônios doentes. Sinceramente, caso o professor da escola pública não volte a ganhar um salário que dê para ele viver, não vamos ter nenhum outro mecanismo para evitar a barbárie a que estamos chegando. Ela já atingiu os letrados, até mesmo os bem letrados.

***

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Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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11 Responses “Antonio Prata, da Folha de S. Paulo, explica a piada!”

  1. Rafael Costa
    13/11/2013 at 16:48

    Acredito que essa moda direitista-reacionária e o ca***** a quatro, só está sendo levantada, empunhada a bandeira, por ter no poder um governo que se caracteriza como “de esquerda”. É a moda de ser “do contra”. Acredito que o que apontei, seja SÓ um dos pontos para essa “guinada à direita” da população brasileira.

  2. MARCELO CIOTI
    11/11/2013 at 10:44

    A coisa no Brasil chegou a um nível insuportável.Confundem opinião
    dos artistas com suas obras.A esquerda critica o Lobão porque ele é
    “apenas um baterista”.A direita critica Chico Buarque porque “ele
    admira Cuba mas tem apartamento em Paris”.Tudo no meio dessa
    discussão entre quem roubou mais e quem roubou menos entre
    “tucanalhas”,”petralhas”,etc.

    • 11/11/2013 at 10:55

      Depende da obra e do artista, para ter validade a crítica que agrupa coisas.

    • Rogério
      15/11/2013 at 18:05

      Pô, Big Wolff, artista???…Rockeiro não é artista e nem músico. Artista , músico, é um Beethoven, um Wagner…agora no Brasil o cara aparece na tv, canta umas musiquinhas, posa de rebelde e já é artista. E o pior que agora o Big Wolff virou escritor, filósofo e olavete debatendo em hangout no Youtube com o próprio “filósofo da águia” huahauahaha!

  3. Cesar Marques - RJ
    11/11/2013 at 00:56

    A ironia do texto do Antônio Prata foi ótima, mas ele também não seria um autodidata? Afinal, ele cursou Ciências Sociais na PUC-SP, mas não se formou. Qual a diferença prática, entre ele e um Lobão da vida?

    Abraços.

    • 11/11/2013 at 01:52

      Cesar Marques, acho que não preciso responder, preciso? Eles aprenderam a ler sozinhos? Não foram alfabetizados na escola? São autodidatas em que? Lobão aprendeu sozinho algo? Bateria? Prata é colunista. Ele foi alfabetizado na escola e é escritor. Ele aprendeu com … será que você não sabe? Sabe, essas coisinhas,essas preocupações que vocês têm com as pessoas, que parecem vir de um incômodo pessoal, me irrita.

    • Cesar Marques - RJ
      11/11/2013 at 02:31

      Professor, sei bem de quem Antonio Prata é filho (Mario Prata), mas só coloquei a questão, porque o senhor esses dias tem batido muito na tecla de que a pessoa se colocar como intelectual, sem algum tipo de formação, não é muito saudável. A opinião que o senhor tem sobre essa questão em relação ao Lobão eu já sabia, mas queria saber em relação à pessoas com a mentalidade arejada tipo o Antonio Prata.

      Sua resposta foi muito satisfatória, professor, grato pela interatividade.

      Abraços.

    • 11/11/2013 at 02:51

      Não há autodidatismo no Antonio Prata, ele não exerce nenhum profissão ou atividade pela qual não tenha tido escola.

    • Alexandre Junqueira
      12/11/2013 at 07:25

      Paulo, qualquer um de nós, professores, já estávamos percebendo muito antes isso que hoje se apresente nos meios considerados letrados da sociedade brasileira. Infelizmente eu também, como professor, já me convenci de que a escola pública e a carreira do magistério deram os seus últimos suspiros de vida há muito tempo. Daqui pra frente o quadro será esse analfabetismo funcional que vemos por aí afora.

    • 12/11/2013 at 15:36

      Alexandre, eu já fiquei preocupado antes. Depois menos. Mas agora, mais.

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