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27/03/2017

A volta do fim do aluno afeminadinho (Whiplash)


Vai me dizer que você não cruzou com esse tipinho na escola? Veja “Whiplash”, em cartaz.

O “aluno afeminado” – esse nome nada tem a ver com opção ou orientação sexual. Um afeminadinho é o aluno para quem tudo é humilhação, bullying e outras coisas desse tipo. Tudo o ofende. Se o mandam estudar Marx, ele fica sentidinho e escreve uma cartinha para a Veja ou para o Pondé, dizendo que há um professor que está querendo “doutriná-lo”. Se o mandam estudar Weber ele diz que o professor é “neoliberal” e não considera as “necessidades sociais dos mais pobres”. Caso o professor fale alguma palavra com conotação sexual ele faz biquinho. Caso o professor perca a paciência com ele porque ele não larga o celular, conversa em aula e chega atrasado, então ele diz que o professor é “autoritário”. Ele não quer fazer prova porque se trata de um ensino “competitivo” que vai levá-lo a ficar deprimido. Ele pode se matar?

Quando o professor conta uma piada ele não ri e quer processar o professor, pois nessa hora, do nada, ele inventa que pertence a alguma minoria que sempre está aprioristicamente ofendida com a piada – com qualquer piada! Ele é de uma comunidade religiosa que não quer aprender evolução e sim criacionismo, ou ele não pode assistir aula em uma certa hora porque a igreja dele não deixa. Ele faz universidade mas segue o pastor analfabeto! Tudo é motivo para ele falar que a escola o oprime e que cria para ele situações de desrespeito. Em suma, esse é o estudante que no passado chamávamos de “loser”, e que era o “afeminadinho” ou o “viadinho”, na conta do personagem de Simmons, o professor regente, no filme “Whiplash” (ele capricha em outras denominações também, para dar margem ao desenrolar da trama: “judeu”, “chupador de pau” etc.).

Ele, o afeminadinho, tem dominado a cena, mas seu reinado vai acabar. Alguns professores estão do seu lado

Simmons em Whiplash.

Simmons em Whiplash.

porque são professores também derrotados, fracassados iguais a ele. Mas a onda está mudando de lado. Nos Estados Unidos já há indício de que independentemente de política, existe uma tendência em não dar crédito mais para chorão que, não raro, é um aproveitador.

O filme “Whiplash” está sendo elogiado pelo público, e isso tem a ver sim com a dureza de um personagem que é professor. Há um cansaço da sociedade americana em relação ao aluno que se aproveita da ideologia do “afeminadinho” protegido. Há um cansaço social e acadêmico em relação aos diretores e reitores que o protegem – que os compram com festinhas e dinheiro para DCEs ou grupinhos de pressão de direita ou de esquerda, conforme o momento.

Essa onda de afeminadinhos comandantes de escolas vai começar a minguar. Logo logo aquele tipinho de aluno que cria grupos de vagabundos cujo único objetivo é atacar professores bons e exigentes novamente vai voltar a não ter vez. Porque não podemos ter mais uma geração de fracotes chegando ao poder. O fracote é fracote também intelectualmente, essa é a desgraça – ele foge da escola, não aguenta disciplina, conta papo mas, na verdade, não enfrenta a competição do ensino. Uma vez adulto vira autodidata! Ou seja, vira estúpido, retardado que pensa que entende o que lê. É a escória da sociedade. Uma nação com muita gente assim não vai adiante.

Cena de Whiplash: Aqui!

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

Post scriptum I. O texto acima trata de “afeminado”, não do mimado. O mimado é alguém que teve quem o mimou, o que não é caso. O afeminado não, ele é uma condição natural dentro do registo da filosofia, tomando aí o mundo grego como referência.

Afeminado não é mulher ou homossexual. Afeminado é o oposto de viril. Na “Oração Fúnebre de Péricles” (trabalhada neste aspecto por Hannah Arendt, e por mim em livro pela Cortez, sobre Sócrates) fica claro isso. O mundo grego é viril e não afeminado, embora possa ser completamente homoerótico. Ou seja, o afeminado é o preso à natureza, uma espécie de esteriótipo da condição de fêmea, que pela gravidez se prende aos ditames da natureza e cai sob a indisciplina desta, enquanto que o viril pode sair disso, fazer cultura, dado que é livre. Fazendo cultura cria a disciplina, as regras, enfim. A Grécia é lugar de uma cultura viril, sendo que em Esparta até a mulher se torna viril. Em Atenas a mulher deve ser viril quando necessário, e pode ser sempre, quando estrangeira.

Tentei manter o rigor da terminologia, mas me esqueci que alguns leitores não participam dessas noções. No meu tempo de estudante era mais fácil, pois a “Oração Fúnebre de Péricles” era matéria da aula de história e de português. Mas …

Post scriptum II. HOMOFOBIA. Há muito tempo sabemos, bem antes da atuação maravilhosa do Jean Willis no Congresso, que homossexual em geral vem de cultura que o grego chamaria de viril. E ISSO mesmo que tivesse qualquer característica corporal que o identificasse com alguma tribo que carrega esteriótipo. O saber popular chegou a caracterizar isso através da brincadeira: para ser gay aqui é necessário ser muito macho. Quando um gay acusa corretamente a violência (que mata travestis no Brasil) de homofobia ele é viril, não afeminado ou fazendo mimimi. Quem é inteligente sabe disso.

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22 Responses “A volta do fim do aluno afeminadinho (Whiplash)”

  1. Lucas
    05/02/2015 at 09:25

    ora, então o aluno que enfrenta e não aceita um professor rude como ele poderia ser considerado viril?
    e em relação a piadas, a mesma liberdade que alguem tem para contá-las o outro tem para não gostar delas.
    e sim, essa exaltação do viril é uma critica ao feminino, e logo, à mulher. como não encarar como machismo o fato do termo ‘afeminado’ ser usado pejorativamente? como não encarar como machismo o fato de uma mulher (ou um gay) ter que agir como homem?
    agora uma pergunta não retorica: você não achou a atitude do professor (do filme) sádica?

    obs: sei que voce vai me chamar de afeminado, mas não me importo…rsrs

    • 05/02/2015 at 23:27

      Lucas você NÃO SABE o que é um afeminado. O artigo não é sobre esse assunto sobre o qual você escreveu. Leia várias vezes, veja o filme, vá amadurecendo. Talvez uma hora dê um insight e você entenda do que se trata o texto. Não é sobre isso que você abordou. Nem passa perto.

  2. José
    01/02/2015 at 10:26

    As pessoas estão muito sensíveis, então é preciso medir muito a palavra em sala de aula para não ferir as sensibilidades dos pupilos.

    • 01/02/2015 at 11:10

      Elas estão insensíveis, o mimimi é birrinha, não sensibilidade.

  3. Thiago Carlos
    30/01/2015 at 02:27

    Paulo

    Acabei de assistir o filme e me tocou como um soco no estômago dado pelo Fletcher ao mesmo tempo que me deprimiu devido algumas pessoas que reagiram mal à certas passagens do filme. Em um dos comentários sobre a crítica feita pelo filme, alguém disse que o professor parecia estar fazendo uma “apologia ao darwinismo social” e a “violência psicológica”. O típico mimimimi…

    • 30/01/2015 at 12:08

      Thiago! Claro o filme é para pegar o mimimoso mesmo. Não é uma filme de direita. É que a coisa do mimimi está enchendo o saco de todo mundo. Está passando. Esse filme mostra que o americano já está de saco cheio.

  4. 27/01/2015 at 10:22

    O Wagner falou que no setor público a coisa ainda pode ser diferente, mas pelo que vejo nas universidades públicas aqui do sul, o cenário é o mesmo. Na Ufrgs, por exemplo, os alunos da área das ciências humanas são insuportáveis, ao estilo Hitler/Stalin, querem ditar as aulas e os colegas e para isso, intimidam com o grito. Foi na USP que invadiram a aula do professor direitoso que defendia a ditadura. Na Rural, bem, não preciso nem falar nada.
    Os espaços acadêmicos estão sendo tomados por ideologias, o que é péssimo. Quando vejo vários estudantes reunidos com o objetivo de calar alguém, ao invés de suscitar o debate, tenho vontade de pegar um lança-chamas e sair queimando o rabo de todo mundo. Talvez um dia eu faça isso. Deve ser divertido.

    • 27/01/2015 at 15:17

      Giovane não vale a pena queimar rabo! É melhor ficarmos no nosso grupo.

  5. Roberto William
    26/01/2015 at 10:35

    Seu artigo me lembrou dessa paródia! heheh
    https://www.youtube.com/watch?v=mARR1UO0OBo

  6. LMC
    26/01/2015 at 09:39

    Tem também aquele
    afeminado-que não ´
    estuda em faculdade-
    que fica com raivinha
    porque os cartunistas
    do Charlie “blasfemaram”
    a sua religião favorita.
    Alguns deles escreveram
    pras seções de cartas
    dos leitores de jornais
    e revistas.

  7. José Silva
    25/01/2015 at 16:07

    Esse caso da piada já aconteceu comigo em uma aula. Tinha acabado o conteúdo programado para aquele dia, pra descontrair fiz uma piadinha boba das diferenças entre o homem, a mulher e o viado que tinha visto no programa do Jô.
    A sala era do 3º ano do ensino médio, uma menina foi á diretoria e falou que eu era homofóbico.
    Resultado: A diretora comeu meu rabo, disse que eu deveria ser menos ofensivo.
    Falta bom humor ao mundo.

    • 25/01/2015 at 18:38

      Caso fosse um diretor comendo seu rabo, não a diretora, você seria homofóbico e viado! Mas isso é ser professor, não ter mais autoridade para nada. Mas isso não vai ficar assim não. Tenho esperança que possamos reagir.

  8. Geraldo de Pinda - Filósofo
    25/01/2015 at 16:01

    “Você nunca pode se banhar duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez não haverá água”.

    • 25/01/2015 at 18:38

      Não tem nada a ver com o artigo, mas é de boa inspiração, pois mostra como Alckmin leu Heráclito.

  9. José
    25/01/2015 at 11:21

    Uma vez dando aula, nem lembro bem o comentário que fiz, mas não foi nada de mais, ouvi uns gritos de “machista” no fundo da sala. É um patrulhamento muito exagerado.

    • 25/01/2015 at 12:52

      José você teve sorte que ficou nisso! No geral, esse pessoal emburrecido tenta agir policialescamente de fato.

  10. Wagner
    25/01/2015 at 11:14

    Acredito que esse tipo de aluno vai contra, primeiramente, os alunos que gostam de professores exigentes. Eles tomam conta da sala, costumam ocupar a liderança e comissões de representação, e fazem linha de frente contra os alunos “puxa -saco” e os professores do “mal”. Falo isso pois já passei pelo ensino privado e o diploma, para esse tipo de aluno, é mera mercadoria comprada à prazo. Acredito que no setor privado as coisas sejam bem piores.
    Tive bons mestres e doutores, mas quem acabava por ditar o ritmo eram os alunos com o argumento da mensalidade nas mãos.
    Talvez, no setor público, consigam diminuir a influência desses alunos. No setor privado, as coisas tendem a piorar.

    • 25/01/2015 at 12:54

      Wagner a coisa está se igualando, os professores bons não reagem, pois muito do que ocorre é armado pelos professores ruins.

    • Wagner
      25/01/2015 at 18:13

      No caso dos professores, seria algo relacionado à doutrinas e disputas de posicionamentos políticos?

    • 25/01/2015 at 18:34

      Wagner nada disso, apenas identificação com o fracasso.

  11. 25/01/2015 at 10:43

    Devo dizer, meu caro Ghiraldelli, que você é corajoso neste seu artigo sobre os “alunos afeminados”, cujo “conceito” entendi muito bem. É que também existem diretores afeminados, o nosso Estado é afeminado em nome de um conceito que, no mínimo, tem sido muito mal empregado para encobrir e justificar situações que a sociedade e o Estado não querem enfrentar: a tal INCLUSÃO! Em nome disso, nada pode ser excluído, inclusive a burrice, a vagabundagem, a preguiça, a falta de respeito, compromisso, etc.

    Fica aqui uma observação que não tenho nada contra a inclusão dos que realmente precisam e devem ser incluídos e não discriminados! Acho que os inteligentes entenderam.

    • 25/01/2015 at 10:56

      Chico acho que agora você está começando a me entender!
      Bem, Chico, como vê, não discordávamos tanto quanto você pensava. E eis aí você às voltas até com a palavra inclusão!

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