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25/03/2017

Afinal de contas, o que é bullying?


Todos nós nascidos nos anos cinquenta conhecíamos a regra paterna, que valia até para as meninas: “voltou chorando por conta de apanhar na escola, apanha dobrado em casa”. Não sei se criamos uma geração muito boa com tal regra. Eu tomo lá meus remédios psiquiátricos!

O certo é que no meio do movimento libertário, mas também autoritário dos Sixties, toda regra da dureza do pós-Guerra foi contestada. A juventude do mundo ocidental dizia: “faça amor não faça a guerra”. Claro, alguns foram, nos anos setenta, após a frustração do Maio de 68, para o terrorismo de esquerda. “Faça a guerra contra a Guerra, já que Eles, os capitalistas, não querem nos deixar fazer amor” (o correspondente no Leste foi a Primavera de Praga). Ou seja, muitos que pediram o fim da dureza não souberam fazer outra coisa senão apelar novamente para ela. Talvez por isso o slogan dúbio, quase hipócrita, “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”, atribuído a Guevara, tenha feito tanto sucesso.

O slogan atual do movimento anti-bullying que domina o mundo ocidental, ao menos nas classes médias, é diferente: “só vale amolecer, de todos os lados, com ou sem ternura”. Uma reação aos tempos duros do passado, mas também um aspecto do “fim do comunismo”, ou seja, uma época em que todo mundo precisa ser ativista de alguma boa causa, dado que os partidos comunistas, que iriam trazer o mundo melhor, reconheceram que só trouxeram pesadelo. Um adendo: não sou contra boas causas, eu mesmo sou ativista de proteção animal, sou vegano, advogo campanhas de generosidade pelo Avazz etc. Todavia, isso não me faz ficar cego contra o fato de que estamos, como diz Sloterdijk, em uma “sociedade da leveza”, do entretenimento, com tempo livre e tecnologia sobrando, o que nos coloca em busca de algum peso social, algum stress, para não perdermos o chão. Temos de ter narrativas ontológicas. Não à toa a filosofia voltou a falar em ontologia, após Rorty ter negado sua utilidade. Temos medo de nos tornarmos leves demais, Ícaros capazes de cair por irem muito alto, perto do Sol. Nosso ativismo faz parte desse medinho.

Assim, procuramos a leveza dada pelo fim do que chamamos de bullying, mas fazemos disso um novo serviço pesado, um novo stress, de modo a vivermos com alguma coisa séria num mundo onde tudo é não sério, tudo é entretenimento, tudo é um eterno lidar com o dedão no celular caçando Pokemons. Afinal, quem diria que um dia iríamos escrever só com o polegar?  (Que fique claro que eu não faço isso, não cheguei a tal grau de deterioração corporal).

Não é difícil em uma época assim gerarmos alguma coisa que soa ridícula para uma geração como a minha, que imagina que realmente lutou por coisa séria no sentido de tirar a seriedade do mundo. Muitos de nós não apanhou dos pais como nossos pais apanharam de nossos avós. Muitos dos pais de hoje, filhos já da minha geração, nunca nem ouviram falar em surra em casa. Mas teme um passado que não viveram, querem que os filhos vivam sem qualquer violência, e isso às vezes os leva ao campo da indistinção entre o que é a violência suportável e o que é a violência a ser realmente extirpável. Tirar a possibilidade de criar anti-corpos dos bebês é um perigo que conhecemos bem. Tirar formação de casca dura em nós é algo gradual. O capitalismo liberal exige que sejamos gentis uns com os outros, pois trata-se de viver na sociedade de mercado, o que pressupõe não termos inimigos, só concorrentes. Que mantenhamos a Carta dos Direitos Humanos em pé e em expansão, que sejamos só ternura sem qualquer endurecimento, que possamos dizer que mulheres iranianas são oprimidas, que rejeitemos o fanatismo do ISIS, que tenhamos algum respeito pelo feminismo, que assinemos alguns pedidos do chamado politicamente correto – afinal, gente como eu, ainda é meio que simpáticos a ideais de solidariedade vindo das esquerdas. Todavia, ainda assim, sabemos  que um campo de imunidade novo não se cria do dia para a noite, mas com muito cuidado na administração do mimo que, enfim, é o que nos fez e nos faz humanos. O mimo é paulatino. Uma vez abrupto, ele pode simplesmente fazer os humanos, ou qualquer ser vivo, perder o que Freud chamou de “princípio de realidade”. Viramos então bolas de gás capazes de estourar e perecer diante da mínima agulhada.

A reação de certas pessoas ao movimento de extirpação do bullying é, então, a de dizerem que estamos criando uma geração de afeminados, incapaz de enfrentar tempos duros e até desafios normais da vida. Sim, estamos mesmo. O homem atual de classe média, que estamos gerando, é mais feminino, e a mulher mais masculina, e ambos são menos capazes de enfrentar o stress dos anos cinquenta e sessenta. Há até uma geração que não aguenta mais a escola de uma maneira bem superior ao modo como nós não aguentávamos. Os pais de hoje chegam a ver bullying até num tapinha que um colega dá no filho, tirando o boné deste! Mas, ao mesmo tempo, sabemos que às vezes tais pais não reprimem seus filhos se estes cutucam a ferida de um colega homossexual, nem reprimem quando estes adestram um negro para que ele venha a defender a sociedade sem cotas. Muitos pais brancos ainda querem que o negro negue as cotas e se torne branco por decreto individual, para quebrar a cara. Muitos pais deixam o bullying correr solto, quando o bullying é mesmo bullying.

Não é questão de optarmos pelo meio termo, o famigerado melhor lugar dos médios, dos medíocres, mas sim de observamos com cuidado o quanto podemos trocar o leite materno por um leite artificial e, ao mesmo tempo não perder a formação de anticorpos que possibilite, ainda, que uma criança vire uma criança. Não podemos criar homens que possam morrer de um simples resfriado. Sabemos fazer isso? Eis aí a dura tarefa de uma pedagogia inteligente, instruída.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. Paulo Ghiraldelli, 18/09/2016

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Filósofo