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17/12/2017

A elite da universidade


A universidade forma um físico. Seu trabalho pode ser na indústria, no ensino ou na pesquisa, ou seja, neste último caso, na própria universidade. Sua vida diária é o estudo. Estuda para continuar estudando. Sua vida depois de formado pouco muda. Continua sem muito dinheiro, caso venha de lares não ricos. E continua gastando suas horas no “queimar a pestana”. Todos os brasileiros querem essa vida? Não! Então por que os brasileiros inventaram de achar que a universidade é “para todos”? Não é! Não é mesmo, e isso simplesmente porque os brasileiros não querem uma vida assim. Só poucos desejam isso. Uma elite.

Há elites intelectuais em todos os países. E elas são formadas por pessoas que optaram por uma vida que a maioria não gostaria nunca de ter. A elite de um país é feita pelo que diz a palavra: eleitos. Mas ser eleito, no caso, é como mais ou menos o eleito a ser gato-deus no Egito antigo. Tem uma aparente vida de luxo, mas vai para o sacrifício.

Quando nos anos sessenta se dizia que a universidade brasileira era elitista, se é que se dizia isso, o que se estava reivindicando é que a universidade pública pudesse acolher mais gente do que até então acolhia. Pois elas eram poucas. Muita gente ficava de fora não por ser pobre ou rica, mas, antes de tudo, porque mesmo obtendo nota para passar, não conseguia vaga. Historicamente isso gerou o “problema dos excedentes”. Hoje não. Hoje todo mundo consegue uma vaga, mas não escolhe bem seu curso, faz o que não gosta só para ter “nível universitário”. Faz o que está ali mesmo, pertinho de casa. Isso garante status, ao menos para alguns, e para os que não conseguem status, garante um salário maior no emprego, mesmo não fazendo nada, nesse emprego, que tenha a ver com o que aprendeu na escola. O Brasil virou o país do “meu filho tem que ser doutô”. Então, que faça advocacia ou engenharia num curso noturno qualquer, para trabalhar no Xerox da esquina com o título de “doutô”. Há milhares de moças e moços com diploma de Direito que não passam no exame da OAB, trabalhando de office boy em escritório de… advocacia? Não, mas como secretária(o) de dentista.  E há um bocado de dentista que arranca a própria unha na hora que vai arrancar um dente. Confunde seu dedo próprio com a boca do paciente.

Por conta disso, dessa febre de “doutô” (ou pior, do rapaz ou moça que faz mestrado e doutorado para ser professor universitário e virar, sem qualquer vocação, em “doutô” também!) os professores universitários bons tem de aguentar em sala de aula essa leva de pessoas que não gostam do ensino, não gostam de física ou matemática ou história ou filosofia ou seja lá o que for. Não gostam de nada. Fizeram um ensino médio péssimo e entraram na universidade pela via de um qualquer “Enem da vida” (o vestibular que só elimina quem zera!) e acham que, sem qualquer saber, podem fazer faculdade. Dizem: “eu passei, mereço estar aqui!” Se são requisitados a estudar, dizem então “que elitismo!”. Daí começam a se unir às reivindicações legítimas, mas agora desviadas em sua finalidade, de minorias que vomitam a palavra “elitismo” para tudo.  O resultado é que cada grupo minoritário, hoje, acaba jogando contra si mesmo, pois pede não a democratização do ensino, mas a rasteirizaçao do ensino. Desrespeitam professor. Não querem ler o que é indicado, não se dedicam, preferem gastar em cerveja que em livros, não conseguem sequer assistir filme legendado (sim! Não acompanham!). Todo dia são vítimas de “machismo”, “autoritarismo”, “racismo”, “lavagem cerebral” e coisas do tipo, e fazem biquinho e então não estudam. São contra a “elite”. São os que assistem horrorizados como o professor do filme Whiplash. São os que seriam, no passado, os “fracassados de berço”, ricos ou pobres.

Ora, mas de que elite se está falando, quando há a acusação de “elitismo” na universidade? Os conservadores são elite? Não são. São tão energúmenos quanto os “progressistas”. Aluno hoje quer usar de saber político, que é um saberzinho de nada, para forçar o professor a deixá-lo passar sem saber nada. Uns fazem isso contra a esquerda e outros fazem isso contra a direita. Desculpa nos dois casos para não estudar. Nem podem estudar. Entraram ali sem condição de cursar nada, e não gostam de estudar. Jamais enfrentariam a vida do indivíduo que quer mesmo se formar bem e exercer a profissão na indústria ou no ensino ou na própria universidade. Os de esquerda são os que ficam na moradia estudantil, no consumo de droga e vomitando Tchê Guevara – sim, autor de frase é mais fácil. Os de direita voltam para casa, não ficam na moradia, mas agora citam algum Ronald Reagan, que virou teórico para essa gente que lê o mesmo tanto que os leitores de Tchê Guevara, e causam a mesma balbúrdia. Consomem a mesma droga, só que mais cara que a da moradia estudantil. São duas ralés iguais.

São esses revoltados que ficam falando em “elitização”, eles são “contra elitização”. Eles são os que acham que podem ser filósofos sem diploma, mas querem o diploma de economia ou coisa assim, talvez, para serem empregados de uma loja de venda de CDs. É isso. É a terra do “doutô”. Todo mundo tem que ser “doutô”. “MC doutô” – vocês verão.

É difícil explicar para uma população que perdeu a noção do que é saber um saber, que a universidade não é local de justiça, mas de ensino.

Paulo Ghiraldelli Jr. 57, filósofo.

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9 Responses “A elite da universidade”

  1. Luana
    10/06/2015 at 10:05

    Sim, estudantes universitários que chegam e saem da aula quando bem querem ou só para não ganhar falta, não tem consciência do que é estar numa universidade e não tem nenhum respeito pelo seu professor. Depois, chega o final do semestre e fazem biquinho para o professor.

  2. Maximiliano J. Paim
    24/05/2015 at 22:28

    E ainda quem se propõe a uma conversa com alguém de nível universitário e só se houve “cada um tem a sua opinião”, e fim de papo. É como um soco na boca do estômago. Que povo orgulhoso da sua sabedoria!

    • ghiraldelli
      24/05/2015 at 22:44

      O relativismo é uma filosofia maravilhosa como filosofia. Mas o relativismo banal, de senso comum, é um lixo. Esse povo de “nível universitário”, desse tipo, não honra a universidade.

    • 28/12/2015 at 08:54

      Paulo, se você se refere ao relativismo moral, nem mesmo o Bernard Williams, que é um não-objetivista, consegue engolir essa teoria. Para ele, trata-se de ‘uma heresia antropológica. A teoria mais absurda do campo da Ética.”

      Veja a argumentação dele em Morality, an introduction to Ethics.

      E, outra coisa: Por que exatamente um filósofo necessita de um diploma universitário? Como ficam os eruditos e intelectuais? É realmente conveniente chamar qualquer iletrado de filósofo apenas por ter cursado filosofia?

    • 28/12/2015 at 10:14

      Stachka o filósofo precisa da universidade, o diploma é consequência, não existe nenhum filósofo sem universidade. A prova está nisso que você falou aí sobre o Bernard Williams, você leu e não entendeu. Se tivesse feito uma escola, não teria escrito esse erro. Agora, se não conseguiu fazer por ser um fujão, um fracassado, você pode tentar uma terapia e, então, tendo alta, voltar à escola. Ou ao menos tentar entrar.

    • 06/01/2016 at 18:33

      Paulo, obrigado por responder.

      1. Você leu Bernard Williams na universidade? Posso jurar que pelo menos 90% dos filósofos brasileiros nunca leram uma obra do autor. Mas minha questão é: eu preciso de um professor para me ensinar a ler Bernard Williams?

      Em segundo lugar, poderia especificar o erro de interpretação do qual você fala?

      A argumentação de Williams é simples, pois trata de considerar o relativismo moral a partir de três proposições:

      1. Que o ‘certo’ significa ‘certo para uma sociedade’.

      2. Que o ‘certo’ para uma sociedade deve ser entendido a partir de uma visão funcionalista.

      3. Que, por assim ser, é errado (não-certo) para o indivíduo de uma sociedade condenar os valores de outra sociedade.

      A incoerência óbvia aqui é que na terceira proposição utiliza-se uma forma não-relativa de ‘certo’ totalmente desconexa em relação àquela utilizada na primeira proposição.

      Para citar Williams:

      “This is relativism, the anthropologist’s heresy, possibly the most absurd view to have been advanced even in moral philosophy.”

      Que conclui:

      “(…) the view is clearly inconsistent, since it makes a claim in it’s third proposition, about what is right and wrong in one’s dealing with other societies, which uses a non-relative sense of ‘right’ not allowed for in the first proposition.”

    • 06/01/2016 at 18:56

      Nenhum relativista filósofo faz esse raciocínio que ele atribui ao relativista, esse é o erro. Nem quem se inspirar em Nietzsche ou Rorty ou Davidson etc. Os céticos e relativistas não duvidam da verdade, duvidam do conhecimento. Os relativistas NÃO dão o passo 3. Williams enfia isso para derrotar um relativista que nenhum dos relativistas chamados assim usa. “Certo” para uma boa parte dos filósofos contemporâneos é um elemento de “elogio”, de incentivo, do tipo “continue”, “avante” etc. Os usos de verdadeiro por Rorty e Davidson ajudam você a ver como é fácil escapar de Williams. A maioria dos chamados relativistas hoje usam algum tipo de saída pragmática associada a algum deflacionismo, então, não usam nunca o termo certo nesses termos. Aliás, usam o “certo” já exatamente como fez James, para escapar do perigoso termo “verdadeiro”. Williams foi meio malandro. Dewey cometeu erro parecido com o que ele aponta, quando debateu com Russell. Mas os relativistas assim chamados, depois de Dewey, não mais fizeram isso. Os philosophical papers de Rorty e os de DAvidson resolvem isso. No meu Introdução à filosofia de Donald Davidson, há esse percurso. Em outros artigos meus por aí há isso também. ACho que num livroorganizado pela Susana de Castro ou coisa parecida.

  3. Legalzinho
    24/05/2015 at 19:51

    Mas Paulo, até que faz sentido cobrar “amor” à profissão de pessoas que vão entrar no mundo acadêmico (pois a universidade não é lugar para sangue sugas ou incompetentes) mas na engenharia ou no mercado financeiro a maioria está aí para ganhar dinheiro. Não se pode escolher uma profissão somente pelo que ela te traz financeiramente?

    • ghiraldelli
      24/05/2015 at 22:45

      Legalzinho, meu texto não fala nada sobre “amor à profissão”, ele diz da consideração para com a vocação própria e respeito ao saber.

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