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20/02/2020

A professora


“Irene Tricai faleceu”. Bem, isso foi minha mãe quem disse. Duvido! Mesmo sendo informação da minha mãe, contada cara a cara, duvido. Como que uma pessoa que colocava o abecedário no quadro, todos os dias desenhado com o mesmo capricho, poderia morrer? Ela estava protegida contra tudo, pois tinha poderes mágicos. Sim, ela tinha um pacto com poderosas divindades. Caso contrário, por que escreveria todo o abecedário em branco, colocando em vermelho somente “K”, “Y” e “W”? Esquisito não?

Até hoje fico pensando o que o William Haddad imaginou quando viu o “W” em vermelho! Nenhum de nós havia nascido com uma letra “estrangeira!” logo início do nome! Seria aquilo algum aviso, alguma marca? Ele deve ter ficado apavorado, ou orgulhoso! Tenho certeza que também ele duvida que a “Dona Irene” possa ter morrido.

Outra coisa que confirmava que aquela senhora tinha dons especiais, em ligação com entidades poderosas: ela disse no primeiro dia de aula para fazermos bolinhas no caderno. Fomos fazendo, fazendo, fazendo … e pimba, em poucos dias as bolinhas viraram letras! Uma bolinha e uma perninha esquisita e … abracadabra! Surgia um “a” cursivo! Como que uma simples bolinha desenhada podia, repentinamente, ter um som e com aquele som, com aquele traçado, virar a primeira letra que nos colocaria em contato com o mundo do livros? Era o “a” de “abelha”. Era muito importante, pois caso não fosse, não seria desenhado logo no início da Caminho Suave, compondo o próprio corpinho da abelha. Anos depois, quando alfabetizei minha filha com a Caminho Suave, em apenas quinze dias, usei todos os truques da Dona Irene. Mas usei como truque aquilo que ela usava como autêntica intervenção de anjos. Êta Dona Irene encapetada (tive de dizer!) que conseguiu fazer com que fôssemos todos, sem perder nenhum, da “abelha” à “zebra”. Então veio a “festa do livro”. Saímos da cartilha e fomos para o “primeiro livro”. Baita festa receber o “primeiro livro”. Foi uma cerimônia mesmo!

O mais estranho mesmo da Dona Irene, e que sempre me fez acreditar que ela tinha passe livre entre os daimons, e que certamente ela mesma tinha um próprio, é que ela podia reunir o desenho de duas laranjas por meio de um desenho que não era o de laranja. Ela desenhava algo como “2”! Ora, “2” podia ser duas laranjas ou duas maçãs. Mas esse tal “2” também aparecia sozinho, sem ser … nada! Apenas “dois”! E podia também aparecer para dizer que havia duas coisas determinadas, duas “bananas”. E nem era necessário ter as bananas ali na sala ou desenhá-las no caderno! Ora, essa Dona Irene heim? Podia ser outro serviço senão “coisa mandada”, essa mulher?

Durante o ano, lá no início da década de sessenta, nas salas térreas do CENE, a “Dona Irene” seguiu fazendo mágicas, bruxarias e coisas do tipo. Uma pessoa assim, com tantos poderes, com uma paciência angelical, com um olhar severo e doce ao mesmo tempo, pode até sumir de circulação, ficando lá no Céu, n’alguma Constelação. Afinal, com tantos poderes, ela deve ter vindo mesmo de lá. Agora, dizer que morreu, isso é uma bobagem, minha mãe se enganou.

A foto da “Dona Irene” está lá, no álbum de formatura de ginásio de minha mãe, elas foram colegas, depois trabalharam juntas no CENE. Bando de professoras, todas vestidas de professoras todos os dias. Naquele tempo os professoras se vestiam de professoras mesmo. Isso também era coisa que vinha “de cima”, de algo nada terreno.  Só pode ser!

Paulo Ghiraldelli, 58 anos, filósofo.

 

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8 Responses “A professora”

  1. Aline Campitelli
    16/10/2015 at 15:53

    Com os olhos cobertos de lágrimas termino a leitura desta bela homenagem.
    Sou neta da Dona Irene e ontem no Dia dos professores comentava em uma mesa de amigos: ” Eu poderia esquecer o aniversário da minha avó mais jamais de parabeniza-lá pelo seu dia como professora!” Era com enorme orgulho que nos contava quantos alfabetizou.
    Sim meu anjo da guarda virou uma estrela, mas se mantém eterna em usas belas ações.
    Obrigada.

    • 16/10/2015 at 15:55

      Aline que Deus guarde sua avó e você e sua família!

    • Mara Guido Udler
      16/10/2015 at 21:55

      Oi Aline, a tia mal conseguiu ler em voz alta pro tioy Jerry…parei no meio de tanto soluçar…

      Descanse em paz querida tia Irene e desfrute da companhia dos seus entes queridos ai nos domínios de Deus!

      Obrigada Paulo, por tão linda homenagem…

      ?Mara

    • 16/10/2015 at 22:12

      Mara, não foi uma homenagem, apenas um texto sincero. Obrigado por lerem.

  2. Idália
    16/10/2015 at 12:52

    Que bela homenagem Mestre!
    Ver o seu reconhecimento a essa Professora primária, me enchecheu de orgulho, sabe?
    Parabéns por escrever aquilo que desejamos ler! Parabéns por exercer tão bem essa nobre profissão.
    Em casa vou repassar, daqui não posso.
    Um maravilhoso fim de semana pro senhor e os seus!

    Idália

  3. vera bosco
    15/10/2015 at 15:37

    Lembrei-me da Irene de Manuel Bandeira quando São Pedro diz “Pode entrar,Irene.Você não precisa pedir licença.”

  4. José Silva
    15/10/2015 at 14:20

    Da escola tenho várias lembranças, primeiro namoro, matar aula pra fumar, ou ir ao cinema, os amigos que já não tenho contato. Essas coisas que parecem quase obscenas, ou jurássicas nos dias de hoje.
    De professores lembro com carinho até do velho Braguim de matemática, senhor sisudo e exigente que me colocou de recuperação várias vezes. Lembro do professor Vagner de história e do Tony, que com o giz e a lousa apresentavam a história da humanidade, acontecimentos espetaculares, grandes pirâmides, guerras, a juventude encantadora dos anos 60 e suas revoltas. A professora Alessandra de português na quinta série, e suas pernas provocantes. Primeira atração sexual que tive. Das tias do pré que me ensinaram a ler e escrever no caderno de tarja verde.
    Lembrando desses e outros professores, dá um negócio ruim quando vejo professor sendo agredido em manifestações…

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