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21/05/2019

A pátria educadora odeia os que educam


Só agora entendi o lema do governo federal “Brasil pátria educadora”. A reação do MEC ao espancamento público de professores pelo governo do Paraná me explicou tudo. 

A nota do MEC foi pífia. Foi do tamanho do salário do professor. Foi recortada segundo o que a maior parte da sociedade brasileira, inclusive a imprensa, pensa dos professor: alguém que bisbilhota na vida nossa quando somos crianças e, então, fica sabendo de nossas fraquezas, aquelas que por nunca conseguirmos crescer não temos coragem de assumir. Nossa sociedade odeia o professor. É um problema cultural de fundo psicanalítico.

No Brasil o professor é tratado como um mal necessário, mais mal que necessário. Em uma conversa particular, a maior parte dos brasileiros confessa acreditar não ter aprendido nada com professores. São todos autodidatas. O autodidatismo é tido como virtude em nosso país, o único do mundo a pensar assim. Ninguém quer admitir que é bom no que faz porque teve treinamento e formação. A escola não pode ser maior que cada um de nós porque cada um de nós nasceu gênio. Em uma terra assim, onde se comemora o improviso, a falta de planejamento, a genialidade do samba, do futebol e de nossas conquistas espaciais do Prêmio Nobel em física a dar com pau que temos, não há mesmo espaço para gente como eu, que até hoje tenho amizade com as professoras do meu ensino fundamental. Sim, eu passei todos os anos do ensino fundamental ganhando medalhas delas. Não sou ressentido, exatamente por isso! Tive êxito. Uma boa parte dos brasileiros, mesmo com êxito, sempre sai chamuscado da escola, nunca cresce, nunca supera os desenlaces particulares que tiveram com professores, especialmente professoras.

Mesmo entre nós, filósofos, que dependemos da confraria para sermos o que somos, pois filosofia não é ler somente, e muito menos rebolar na política dando opinião tresloucada, não somos capazes de publicar textos conjuntos com nossos professores ou textos de crítica de nossos professores. Isso não tomado como o que se deve fazer. O isolamento ou falso isolamento é a regra. A invejinha é a melhor pedida.

“Ninguém aprende com ninguém”, no Brasil até professor diz isso! Até mesmo os professores que apanharam dizem isso. Eles mesmos não valorizam a escola e não se valorizam. Tanto é que, não raro, eles mesmos, em discursos, tratam a questão salarial desvinculada dos problemas pedagógicos e instrucionais, como se salário não fosse um elemento educacional, mas algo de responsabilidade dos sindicatos. E estes, sabemos bem, cavalgam bem quando o saco é amortecido pelo pelego.

O que o MEC pode fazer decisivamente, sem ilusões, para ajudar a educação brasileira ébrasil criar o sistema de bolsas para os recém concursados, de modo a ampliar o salário mediante notas e desejos de estudar mais, associando isso a sabáticas. O próprio concurso já é uma nota a ser usada. Os melhores colocados já deveriam entrar com bolsa, de modo a não abandonarem a profissão logo em seguida, como o que ocorre. Atualmente, os professores na ativa não são tirados da parte melhor dos próprios concursos selecionares, exatamente por causa da evasão.

Mas, no episódio recente, o MEC deveria ser rápido e decisivo. Um governador sem qualquer noção de civilidade torna a profissão de professor algo mais desprestigiado ainda, pois ninguém vai mais querer ser professor se for inteligente, depois das fotos da repressão publicadas. Então, o próprio ministro Renato Janine Ribeiro deveria dizer para si mesmo: “Puxa, sou homem, macho, vou até ao Paraná, quero conversar pessoalmente com o Richa, ele não pode bater nos professores da Pátria educadora”. Um ministro professor deveria sentir as pancadas que os professores levaram na própria carne, se tocar, e reagir se pondo junto com os professores de um modo claro, inclusive simbólico.

Não consigo entender essa fraqueza moral do MEC, talvez tão ruim quanto a barbárie moral e profissional do governador do Paraná.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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One Response “A pátria educadora odeia os que educam”

  1. Luana
    30/04/2015 at 22:20

    Perfeito! A classe dos professores foi ainda mais humilhada e as tentativas de justificar essa barbaridade por parte de Beto Richa são nojentas.

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