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16/07/2018

A farsa da interdisciplinaridade e flexibilidade curricular da Reforma Dilma-Temer


[Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico]

Há uma bobagem pedagógica correndo o mundo. E o Brasil adora pegar carona nesse tipo de trem. Trata-se da diluição da grade curricular montada pelo positivismo do século XIX. Interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, transversalidade e outros nomes gerados por pedagogos descabeçados – sempre ciosos de maquiarem a escola com mais uma moda cosmética – afrontam nossa inteligência. Por quê? Por que esse tipo de coisa é ruim?

Simples: toda vez que alguém cria algo que tenta servir como alternativa à grade curricular gerada por divisões disciplinares, o que há de pressuposto é a divisão disciplinar. Ou seja, não há “inter” ou “trans” ou “transversalidade” se não há, antes de tudo, uma cultura de métodos, objetivos e circunscrição das disciplinas. Posso saber que filosofia e matemática combinam ou que história e física combinam. Claro! Se não sei isso, não posso ser professor, pois atestaria o desconhecimento do conteúdo do ensino básico, especialmente o ensino médio. Todavia, só sei como as combinações são feitas se, antes de tudo, sei como as especificidades funcionam.

Vamos à questões práticas, de sala de aula.

Posso aprender o plano cartesiano em matemática e, em filosofia, saber como Descartes criou a geometria analítica segundo uma nova metafísica, que Heidegger chamou de “metafísica da subjetividade”, segundo uma noção de evidência que é tipicamente a evidência da matemática e da geometria. Todavia, na aula de filosofia, Descartes me dá um saber técnico para que eu entenda a diferença entre o pensar medieval e o pensar moderno; mas na aula de matemática, Descartes me dá técnicas que se transformaram em técnicas algébricas, de passagem da geometria para álgebra, que eu devo dominar para lidar com funções e equações. O trabalho conceitual é semelhante, mas a prática de exercícios técnicos de um saber e de outro são diferentes. Se entendo o que é uma função, como ela me auxilia na previsibilidade, entendo o pensamento moderno no seu desejo de prever acontecimentos de modo preciso – faço isso na filosofia. Se entendo uma função a partir de poder operar com ela, então posso eu mesmo fazer previsões – faço isso na aula de matemática. Filosofia e matemática andam juntas, mas um treinamento cai para o campo da aula de filosofia e outro cai para o campo da aula de matemática. A disciplinaridade sólida é a base para qualquer conjunção interdisciplinar e quejandos.

Qualquer professor que não sabe a metafísica de Descartes não deveria ensinar sua matemática e vice-versa. A interdisciplinaridade tem de estar na cabeça do professor. Todavia, professor de filosofia continua sendo de filosofia e de matemática continua sendo de matemática, por conta de objetos, procedimentos, técnicas de circunscrição, que levam a treinamentos diferentes. O que faz um professor dominar técnicas de manuseios diferentes, sob uma base comum, e sua boa formação. O aluno vai tendo aulas específicas, e o ideal é que ele, na cabeça dele, adquira a capacidade interdisciplinar. Com bom professor ele adquire isso de modo natural, sem que escola precisar organizar uma vida muito diferente do que já faz. Quando tento enfiar a interdisciplinaridade na escola, ou qualquer coisa desse tipo, é porque meus professores são mal formados, eles próprios não sabem a origem de seus saberes. Quero resolver a deficiência deles por conta de reformas na grade curricular. Perda de tempo. A grade curricular X ou Y não resolve nada. Sem professor competente, com cultura geral sólida (e para tal é preciso pagar bem o magistério, para que a carreira atraia a melhor mão de obra), posso montar qualquer grade curricular: não vai funcionar. E se começar inovar com modinhas, a tendência é piorar. Pois aí nem a praxe segmentada ocorre.

O Brasil quer, através da Reforma do Ensino Dilma-Temer, pegar o bonde da bobagem da ideia de que alunos devem montar sua grade curricular e que devem integrar saberes. Mas isso faz sentido nos países onde se paga bem o professor, onde o ensino por disciplinas é universal e com tradição etc. Num país como o nosso, que quando começou a pegar a tradição de um bom ensino médio, logo o destruiu com várias LDBNs ridículas, deveria pensar em coisas de menos coqueteria. Perdemos a tradição e agora queremos inovar a partir da perda, do zero, do nada. Isso é ruim. Mas, para gente como Dilma e Temer, a “mulher sapiens” e o “homem amigo do homem da mala”, tudo vale. Equipes do MEC vindo de gente assim, não pode dar certo.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.

PS: a reforma do ensino médio de Temer é a de Dilma. Escrevi sobre isso em 2014, na Folha de S. Paulo, quando ela anunciou tal reformar e quando falou de tirar a filosofia e a sociologia do ensino médio.

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2 Responses “A farsa da interdisciplinaridade e flexibilidade curricular da Reforma Dilma-Temer”

  1. LMC
    20/04/2018 at 15:56

    Quando falam de Dilma,lembro
    daquela entrevista chapa-branca
    que ela deu pro Jô Soares.
    Coincidência ou não,o programa
    dele na Globo começou a afundar.
    Dilma é uma gênia genial,mesmo.

    • 20/04/2018 at 22:16

      O programa do Jô jamais afundou. Jô deixou a Globo porque estava doente. Você fala demais do que não sabe.

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