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10/12/2018

Tiffani vai jogar voleibol na nossa Guattaca liberal


[Artigo destinado ao público acadêmico]

A questão toda ainda é o livro de 1999 que tanto incomodou Habermas, Regras para o parque humano, de Peter Sloterdijk.  O que preocupa a jornalista Mariliz Pereira Jorge, sobre se a trans Tiffany cabe ou na Super Liga de Volei Feminino (Folha, 20/01/2018), nada mais é que um subtema do que foi exposto no livro.

A jornalista trata a questão como algo sobre fisiologia e de como haverá dificuldade, daqui para diante, em sabermos o que fazer com as categorias “feminino” e “masculino” em Olimpíadas e coisas assim. A abordagem de Mariliz Pereira Jorge é válida, uma vez no jornal. Mas, se vamos um pouco além do jornalismo, Tiffany é apenas ponta de iceberg para um fato inegável, posto na obra toda de Sloterdijik: não podemos mais pensar as coisas divididas entre natureza e cultura, temos de apelar para o conceito de antropotécnicas (1), e isso à medida que os humanos estão, desde o nascedouro, mostrando que são gerados para fora das caixinhas em que colocamos rios, pedras, deuses, árvores e vários animais. O dito “homem” possui uma forma de se fazer, tanto no campo da filogênese quanto no da ontogênese, que lhe é própria. Desse modo, engenharias que adentram o corpo humano não são exteriores a nós, ao nosso fio condutor histórico como grupo social, mas apenas um grau a mais de nossa evolução, um tópico a mais dentro dos tópicos das antropotécnicas.

Há quarenta anos o basquete de elite era jogado por pessoas que não eram os de tipo Capitão América, como é o caso hoje. As antropotécnicas fizeram os super-heróis dos quadrinhos ficarem até mesmo aquém de jogadores de basquete, e de outros esportistas. Em termos de ciência, podemos isolar fatores: alimentação, invenções de maquinarias de treinamento, melhor conhecimento de fisiologia do esforço, trabalhos com hormônios, aumento da capacidade de enfrentar doenças etc. Mas é preciso notar, também, que já faz algum tempo que, ao menos nos Estados Unidos, as clínicas médicas especializadas realizam aquilo que o filme Guattaca expôs bem. Aliás, que se note, Guattaca é de 1997.

Estamos, desde Platão e até agora, criando formas normativas para o “parque humano”, ou seja, para o nosso criadouro, para a nossa “invernada” e posterior moradia ou “clareira” (o termo de Heidegger que Sloterdijk readapta). Procuramos, desde Platão, sempre interferir na geração de grupos diferenciados e hierarquizados de composição do parque no qual vivemos. Nosso trabalho de puericultura, pedagogia e engenharia genética e robótica não são coisas separadas de nosso trabalho de organização política, ou melhor, de biopolítica, diríamos agora, com Foucault ou Agamben.

Por isso mesmo estamos, sim, diante do que Sloterdijk chamou de “desconforto poder de escolha”. Esse desconforto, em 1999, foi posto como o que ocorreria num futuro próximo: “(…) em breve será uma opção pela inocência recusar-se explicitamente a exercer o poder de seleção que de fato se obteve” (2). Ora, vivemos isso com a “situação Tiffany”. Quem teria a coragem de dizer que Rodrigo, após se transformar em Tiffany, teria de deixar de jogar voleibol? Um pedido assim deveria levar Tiffany a não praticar mais nada que lhe foi ensinado como ser humano, nem mesmo ler e escrever, nem mesmo falar! E isso ninguém veria como justo. Quem teria a coragem, sendo inteligente, de criar uma “olimpíada Trans” ou coisa do tipo? As divisões “masculino” e “feminino”, como categorias esportivas, vão sendo alteradas como tudo que diz respeito ao corpo humano, ao homem, já vem sendo alterado na nossa Guattaca atual, aliás, bem menos sombria que a do filme. Mary Rorty, a filósofa viúva de Richard Rorty, tem dito que a questão toda da “eugenia” é que ela é feita de modo liberal na América, e não pode ser feita de modo tão tranquila na Alemanha por razões óbvias: em casa de enforcado não se fala em corda. Mary Rorty assim explica exatamente em texto em que comenta, brilhantemente (diferente da bobagem feita por Habermas), o Regras para o parque humano, de Sloterdijk. (Veja aqui, na revista Redescrições).

As Olimpíadas serão apenas o modo mais visível da nova organização do Parque Humano que está se fazendo aqui ali, em que a América e a Europa vão atuar de maneira completamente diferente daquela maneira dos que atuaram, até agora, os criadores de ética que viveram o nazismo, e que foram traumatizados pela “biologia” de Hitler. Nunca deixamos de intervir nas cargas genéticas, nunca, desde Platão. Faz parte das antropotécnicas as técnicas de disposição genética de modo a nos fazer funcionar melhor. Tiffany é jogadora de voleibol. Quem iria proibi-la? Quem irá proibir que possamos criar pessoas-Tiffany já desde a infância? Quem iria proibir pais de buscarem uma clínica de “melhoramento” corporal para o feto na barriga, de modo que ele, se quiser, venha a ser um bom jogador de voleibol ou coisa parecida.

O “assunto Trans”, já não mais na caixinha da “discussão sexual”, mas no âmbito da organização humana como humanos, abre uma nova era filosófica. E faz parte, também, do paralelo assunto sobre “pessoas que gostam de pessoas”, que tratei em vários artigos e, em especial, no O novo contrato sexual (Folha de S. Paulo)

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

(1) Veja esse assunto exposto em Para ler Sloterdijk (Via Veritá) e Dez lições sobre Sloterdijk (Vozes), ambos de minha autoria.

(2) Sloterdijk, P. Regras para o parque humano. São Paulo: Estação Liberdade, 2000.

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One Response “Tiffani vai jogar voleibol na nossa Guattaca liberal”

  1. Leni Sena
    20/01/2018 at 21:32

    Preciso ler mais o senhor

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