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16/12/2017

Identidade de gênero. Um verbete didático (*)


Gênero, órgãos sexuais e orientação sexual são três coisas diferentes. A confusão entre elas e, não raro, a sinonímia falsa delas nos coloca problemas de linguagem que ampliam preconceitos e nos fazem incapazes de lidar com a vida à nossa volta.

Gênero tem a ver com a nossa identidade social. Em geral, na sociedade ocidental, falamos em dois gêneros, e usamos os termos “homem” e “mulher” para caracterizá-los. Não existem só esses dois gêneros. Pois gênero é uma construção social. Mais ou menos parafraseando Sartre: trata-se uma maneira de fazer conosco mesmo aquilo que outros já fizeram conosco. Em geral, os dois gêneros fortes, “homem” e “mulher”, colocam uma boa parte das crianças na condição de “menino” e “menina”, direcionando brincadeiras, roupas, trejeitos, repressões e liberações,  e principalmente expectativas dos pais que se tornam horizontes para as crianças. Uma menina do passado podia querer jogar futebol com o irmão, mas seria desincentivada pelos pais e pela escola. Diriam para ela: “isso não é coisa de menina, isso vai deixar você, mais tarde, com corpo de homem”. Felizmente esqueceram de falar isso para a Martha e outras meninas, ou falaram e elas não deram atenção, e aí está o futebol feminino encantando todos. Martha se considera do gênero mulher, e isso porque o gênero mulher, sendo uma identidade social, também ampliou suas paredes para caber “mulheres que jogam futebol”. O preconceito e a falta de entendimento de como o gênero é uma construção social leva alguns, ainda hoje, a dizerem: “ah, essa Martha é lésbica, não é mulher, e ela deve ter uns hormônios alterados, por isso joga como homem, superando outras mulheres”. Parece uma verdade, mas não é algo inteligente de se dizer. É ideologia: aquela falsidade que pode, pelo senso comum, parecer verdade.

Gênero não tem a ver, segundo uma implicação inexorável, com órgãos sexuais, e nem estes tem a ver, também de modo inexorável, com desejos amorosos e sexuais. Ou seja, se gênero depende, em grande medida, da vida social, porque é uma identidade social que nós empunhamos, o nosso sexo tem a ver com os nossos órgãos sexuais internos e externos. Nesse caso, antes que usar “homem” e “mulher”, para os órgãos é melhor usar “masculino” e “feminino”. Fazendo isso, já de início colocamos os órgãos sexuais no campo do vocabulário que, segundo o convencional, define uma classificação tradicional e torna tudo mais inteligível. Claro que há hermafroditas etc., mas “masculino” e “feminino” ajudam bem no mundo animal e vegetal e na simbologia em geral. Todavia, a presença em uma pessoa do órgão sexual feminino (e de aparelho sexual reprodutor feminino interior perfeito) não indica que essa pessoa irá, no futuro, gostar do chamado “sexo oposto”, alguém com órgãos sexuais masculinos. O amor e o desejo sexual se formam a partir de múltiplos fatores, num cruzamento de gostos éticos, estéticos, linguísticos, anatômicos e hormonais variados. Desse modo, alguém com órgãos sexuais femininos pode gostar de pessoas com órgãos sexuais femininos, e uma tal pessoa, inclusive, pode ter as características que definem sua identidade social, seu gênero, como “homem” ou “mulher” ou, então, de vários outros gêneros, que já são aceitos dependendo da cultura. Afinal, travestis, transgêneros, crossdressing e outros tipos são tidos, em vários lugares, gravuras pessoais, recortes com os quais as pessoas se apresentam, fazendo valer a sua identidade de gênero. São sujeitos sociais por conta dessa identidade.

A novela “A Força do Querer” tentou ser exemplar nessas questões. O personagem Ivana (depois Ivan) nasceu e, tendo vagina, foi educada pela mãe para ser menina, ou seja, alguém do gênero “mulher”. Mas Ivana cresceu e negou a sua aparência – seios, rosto etc. Negou seu corpo enquanto voltado para a noção que o gênero “mulher” carrega por meio da palavra “feminilidade”. Ela preferiu uma recorte “mais masculino”, ou seja, quis trocar de gênero. Adquiriu então a condição de “transgênero” – virou um “trans”. Quis inclusive trocar de nome, virar Ivan. Queria ser visto como menino. Mas seu desejo sexual, mesmo tomando hormônios, não foi alterado (não de todo), ela continuou gostando do menino que gostava, e manteve com este um relacionamento sexual através de sua vagina, inclusive engravidando. E este menino, por sua vez, continuou no gênero “homem” e continuou usando seus órgãos sexuais masculinos para encontrar órgãos sexuais femininos.

Muitas pessoas costumam falar em divisões de “natureza” e “cultura”, ou “biologia” e “construção social”, para abordar esse assunto. Dizem que sexo é “biológico” enquanto que gênero, embora pareça biológico, é “construção social”,  e que desejo sexual é, de certo modo, uma fusão da construção social e de hormônios etc. Da minha parte, em termos acadêmicos, prefiro evitar essa nomenclatura. Somos o que somos por conta de antropotécnicas (como definidas por Peter Sloterdijk – ver meu livro Para ler Peter Sloterdijk, Via Vérita, 2017), ou seja, de práticas nossas no campo histórico-evolutivo. Esse termo abre espaço para nos vermos como não podendo ser definido por “caixinhas” estanques, capazes de prever tudo como o positivismo do século XIX desejou.

Além disso, todos estes assuntos, às vezes geram mais preconceito que conceito por conta de que, apropriados pelo feminismo, saem do campo da nomenclatura e estudos e entram para o campo da militância. A luta por emancipação da mulher, não raro, mostra-se uma luta pela ampliação da caixinha chamada “gênero” – como o exemplo que dei de Martha (a filósofa americana Judith Butler se põe nessa linha, onde a flexibilidade da noção de gênero se casa com a luta contra a opressão, a chamada “lutar por igualdade de gênero”). Então, nessa emancipação, um subproduto (às vezes nocivo) é a criação de mais caixinhas, como se fosse necessário que a cada nova identidade social fôssemos obrigados a criar um novo nome para um novo gênero, constituindo então uma nova minoria sociológica, num espectro infinito que, não raro, cria situações grotescas. Por exemplo: na novela Ivana vira Ivan, ou seja, em termos de gênero, é um trans. Mas depois que a transição foi feita, Ivan é Ivan, pode ser posto dentro do gênero “homem”. Se ele continua com vagina, isso pouco importa, porque a identidade de gênero é social, pública, não tem a ver com a intimidade. Quem for namorar com ele o fará no âmbito da particularidade, da intimidade, e aí as pessoas que se descubram! Nesse campo, elas que se falem, se toquem! Na cama a identidade gênero sai e deixa o desejo vir à tona segundo o mistério administrado pela flecha do Cupido). Desse modo, não é necessário criar nomes para “trans”, que de fato não existiriam. Por exemplo, seria ridículo falar “Ivan T”, e não simplesmente “Ivan”.

(*) Rechaço o termo “ideologia de gênero”. Ideologia não é doutrina ou ideário, mas falsa consciência, ao menos nas interpretações mais aceitáveis – e Marx conta muito nisso. O tratamento das discussões sobre gênero como “ideologia de gênero” me parecem uma terminologia de setores conservadores, indispostos quanto ao entendimento das questões antropológicas envolvidas com o tema.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

Foto: Carol Duarte, que interpretou Ivana/Ivan na “Força do Querer”, da Globo. Na novela, ela foi uma transgênero. Na vida real Carol é do gênero feminino e sua orientação sexual, ou seja, a preferência de seus desejos eróticos, é direcionado para mulher, o que em geral chamamos de lésbico.

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5 Responses “Identidade de gênero. Um verbete didático (*)”

  1. Ezequias costa
    03/11/2017 at 14:10

    Boa gostei muito, me tirou uma grande dúvida, parabéns um abraço.

  2. 01/11/2017 at 14:08

    Muito bom o texto, acompanho seu blog o senhor sempre tem uma visão racional que está muito em falta atualmente, gostaria de saber a sua opinião quanto a operação de troca de gênero (ou seja, retirada da mama e genitália, tratamento hormonal etc) em crianças.

    • 01/11/2017 at 14:26

      João, o termo criança é muito vago. É preciso conversar e ver o caso, para saber o grau de maturidade da pessoa. As clarezas sobre o que se quer fazer consigo mesmo não é uma questão estritamente cronológica. No Brasil, até para se tatuar pedimos 18 anos, ou 16?

  3. Matheus
    01/11/2017 at 12:40

    A única ideologia de gênero que já conheci se chama machismo, aquela que diz que “isso é coisa de homem” ” isso é coisa de mulher/’bicha’ “

    • Antonio Paiva Filho
      07/11/2017 at 10:29

      Isso é um fato.
      Aliás, a tal da “ideologia de gênero” é uma invenção de machistas e religiosos para justificar seu combate machista à diversidade e manter caixinhas estanques.

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