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21/11/2018

Tudo agora é “fascismo” é?


[Artigo para o público em geral]

Países que foram marcados por ditaduras de direita bem caracterizadas possuem uma ou mais gerações que aplicam para quase tudo que não gostam o qualificativo “fascista”. A Espanha é assim. O selo de Franco ficou. A cultura argentina, por sua ligação com a Espanha, possui gente assim. Portugal é menos, mas há muita gente lá que viveu o regime de Salazar e que para tudo que vê de errado, aponta o dedo e diz “fascista”. No Brasil é diferente. Mas a qualificação meio tola apareceu por aí sem eira e nem beira.

Não tivemos aqui uma ditadura fascista nos moldes europeus. Vargas começou com amores pelo fascismo, mas se transformou num populista de esquerda. O regime militar instaurado em 1964 tinha vários defensores neofascistas, mas nunca funcionou de fato como uma ditadura fascista. O fascismo é totalitário, não admite diferenças. Sua principal característica é a ideia de preservação (ou instauração) da hierarquia por razões de ordem racial, em favor de “higienismo social” – esta é de fato sua marca nuclear. Se isso vai ser levado a cabo por um grupo (fascio) ou por um partido ou por um führer no comando do Estado, é uma questão secundária.

Por isso mesmo, é um erro crasso começar a agir feito um robô desregulado que, ao ver qualquer coisa que não gosta, começa a gritar “fascista”. Esse histerismo torna a pessoa que assim age uma tonta, uma pessoa que não pode querer ser professor. Se uma pessoa sem instrução faz isso, damos desconto. Mas se gente que diz que fez o curso de filosofia ou história começa a agir assim, e até escreve livro usando de tal postura de cabeça dura, aí é necessário intervir e explicar: “calma lá senhorita, calma lá senhorito”.

Ninguém é fascista por querer ver Lula preso em uma solitária; muito menos se é fascista por fazer um discurso exaltado contra os que defendem a legalização do aborto. É bem razoável e nada fascista querer ver um corrupto pagando seu delito e é perfeitamente possível, sem ser reacionário, alguém achar que o aborto é crime contra indefeso. Muito menos se pode dizer que leitor da Veja é fascista, pois a revista tem muitos leitores e, se todo fossem fascistas, não estaríamos vivendo no Brasil com uma Constituição liberal. A forma com que a direita extremada se expressa, dogmaticamente, pode ser irritante, mas a falta de inteligência da esquerda mequetrefe, ao qualificar tudo de fascista, é triste, pois em geral vem de gente que diz que estudou. Será mesmo que estudou?

Um liberal conservador pode favorecer atitudes fascistas. Claro, ele pode começar a se indispor diante de toda e qualquer política social de equalização social e econômica e, ao fim e ao cabo, ir muito mais à direita do que ele próprio poderia querer. Mas,  ele pode muito bem assim agir por conta de acreditar que uma política social equalizadora está funcionando como um populismo, e em nenhum momento pode estar advogando que os homens das mais diferentes raças e origens não possam ser iguais perante a lei. Mas a senhorita e o senhorito que chamam tudo de fascismo acabam não sabendo notar as complexidades da vida. Aliás, que se tenha claro: o povo alemão nunca se tornou nazista. A guerra os arrastou para cerrar fileiras com Hitler. Mas nazista mesmo era a SS – um agrupamento de bandidos corruptos. Todos sabemos que Hitler assassinou os generais alemães contrários a ele.

O fascismo não é um sadismo. Uma afirmação desse tipo é, na boca de um filósofo ou um historiador, uma incrível bobagem. Sade é Sade, não é Mussolini. O fascismo não é um desejo de eliminar o que se desconhece. Qualquer um de nós, desde que o mundo é mundo, já reagiu de maneira violenta diante de algo desconhecido. Se o fascismo faz aparecer atitudes primitivas, isso não quer dizer que toda e qualquer atitude primitiva é fascista. Não é essa atitude que caracteriza o fascismo. O fascismo também não é cegueira. Ao contrário, o fascismo tem os olhos bem abertos: ele procura saber quem é quem entre as minorias para, então, estabelecer o padrão que quer privilegiar, e que seria o padrão – inclusive em termos de biotipo – da raça superior, daqueles que devem procriar e criar os jovens de uma nação promissora, rainha entre outras nações etc.

Quando deixamos de lado nossos cuidados semânticos, abandonamos a filosofia, caímos no pior senso comum. Hoje no Brasil há gente demais falando “fascista” para tudo. Essa gente precisa se re-instruir. Se são professores, então, mais ainda deveriam mudar e melhorar. Nunca é tarde para parar de zanzar e pegar um livro para estudar e completar a formação que não tiveram.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

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13 Responses “Tudo agora é “fascismo” é?”

  1. LMC
    21/05/2018 at 14:27

    Ih,quando houve aquelas
    exposições de arte com
    obras sexuais e gente nua,
    vários leitores da Veja,na
    seção de cartas estavam
    condenando,pra variar.
    É “pedofilia”,etc,etc,etc….

  2. Francisco
    04/05/2018 at 04:49

    A qualidade da formação é o que menos importa para muitos estudantes, por conseguinte, futuros professores. Se o meio mais eficiente para que o reconhecimento acadêmico seja alcançado consiste em recorrer a resumos, decorar falas do professor, colar na prova, publicar qualquer bobagem, tudo bem, não é feito qualquer juízo moral em relação aos meios empregados durante o processo de formação. A academia forma muitas autoridades, mas apenas alguns intelectuais.

    • 04/05/2018 at 08:53

      Francisco, a academia forma os únicos intelectuais que temos.

  3. Augusto P. Bandeira
    29/04/2018 at 11:45

    “…muito menos se é fascista por fazer um discurso exaltado contra os que defendem a legalização do aborto.”

    Perfeito! Certa vez o Prof. disse que não ver o que há de verdade em discursos que são – ou pareçam – ideológicos é burrice.

    Deve ser muito ruim ser chamado de fascista por não ser burro!

    • 29/04/2018 at 11:51

      O fascista é sempre burro, mas o burro nem sempre é fascista. Agora, chamar qualquer um de fascista, no Brasil, virou uma forma de dizer “não gosto”, é a forma do burro de esquerda dizer “não gosto”.

  4. João Bosco Renna
    29/04/2018 at 07:36

    Uma vez eu vi você falando isso o principal trabalho do filósofo é diferenciar termos, E você também já disse que o filósofo é escravo do conceito, porém o conceito correto delimitado tecnico realmente filosofia é uma questão semântica, Eu fiz um vídeo inspirado em você sobre a burrice eu aprendi com você que a burrice existe, e que filosofia diferenciar ela do que é inteligente, a filosofia diferencia-se senso comum de ciência diferencia senso comum de filosofia diferencia moral de ética, diferencia racionalismo de empirismo, diferencia a mitologia de religião, diferencie ética moral e direito etc

  5. Bruno
    29/04/2018 at 00:48

    Ela escreveu um livro “Como conversar com um fascista” e correu quando viu um. Nem ela acredita em sua teoria.

    Outra coisa é a pronúncia. Eles não pronunciam “fascista”, mas “faxista”, próximo do italiano. Fosse assim, o certo seria traduzir fascismo por feixismo, já que a palavra fascio significa feixe.

    Não sei se é ignorância minha, mas prefiro pronunciar “fascismo” mesmo.

    De resto, Paulo, não sei se essa questão da hierarquia de raças se aplica ao fascismo. Acho que está mais próxima do nazismo. Creio que o fascismo estaria mais próximo de um liberalismo conservador extremado, algo que poderia até ser chamado de “darwinismo social”.

    • 29/04/2018 at 02:06

      Bruno, fascismo e nazismo não possuem diferença quando à questão racial.

  6. LMC
    28/04/2018 at 15:36

    Só no Brasil onde tem gente que pede
    golpe militar(só quando o governo
    é de esquerda).Vê se nos EUA ou na
    Europa,alguém pedir isso publicamente?
    Isso lembra o filme Bananas,do Woody Allen.

  7. LMC
    28/04/2018 at 12:42

    O Karnal tem uma semelhança com
    o PG:ele responde o que perguntam
    no Facebook dele,como o PG faz aqui
    em seu site.

    • 28/04/2018 at 14:16

      LMC: não para quem faz pergunta inteligente. Já vi muita gente me dizer que ele desaparece quando a pergunta é um pouco mais complexa.

  8. Luis
    28/04/2018 at 12:35

    “Por um acaso vocé esta defendendo a classe dominante e opressora, a classe média burra que odeia pobre? Esse texto é uma retórica típica de fascista mesmo.” – Diz o promotor da justiça social.

    Me impressiono com alguns doutores em universidades públicas, que tem sua contribuição positiva na comunidade acadêmica, e acham que estão em constante luta social. Tudo é uma relação oprimido e opressor. É como se parte do cérebro funcionasse bem e a outra estivesse morta.

    Entretanto, “voltou” forte o pensamento de comunistas comedores de bebê, satanistas. Aqueles em prol da ditadura militar estão tentando imitar o clima pré 64. Os idealizadores de comunistas e fascistas formam um belo casal.

  9. lucas
    28/04/2018 at 11:34

    Tem até um livro de uma douta que se intitula filósofa que nos instrui de como conversar com um fascista, e não é para menos que depois essa ilustre pensadora defendeu o assalto.

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