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25/09/2018

Márcia Tiburi e o desaparecimento do Romário


[Artigo para o público em geral]

Cazuza queria uma ideologia para crer e viver. Errado. Se há algo que devemos colocar na lata do lixo de nossas jornadas é a ideologia. Ideologia é doutrina, mas com um componente perverso: ela conta uma verdade estreita que se quer passar por universal e, nisso, forja uma proposta de crença que pouco ajuda na vida sábia.

Veja o exemplo: um garoto negro e pobre estuda por sua conta própria, enfrenta as maiores dificuldades e consegue um bom diploma e um bom emprego. É uma verdade. Esse fato ocorreu com o fulano X. Mas é uma verdade estreita. Acreditar que todos os negros, com o preconceito vigente em nossa sociedade (fruto da escravidão duradoura), podem conseguir o que X conseguiu, é ceder não à doutrina do mérito, mas à ideologia do mérito. A ideologia conta essa verdade estreita apresentando-a como universal, e então oferece uma tal opção – o esforço pessoal – como o ingrediente para a política social e educacional de um país. Não funciona. O resultado é que o negro continua sendo preterido e, então, o preconceito aumenta: sua ausência nos melhores postos é vista como fator de indolência. Preconceito amplia preconceito. Eis a bola de neve da ideologia.

Outro exemplo: um garoto negro consegue vencer na vida por conta do auxílio de uma política para minorias, a de cotas ou outra qualquer do mesmo tipo. É uma verdade. Muitos assim fazem. E eis então que a doutrina do mérito é desclassificada, vista como elitista em um sentido perverso, e ela é retirada em favor de outros critérios. Aqui, a doutrina da equalização se torna ideologia, e massacra a doutrina do mérito, talvez por conta desta ter se apresentado na forma de ideologia. Eis o fenômeno: ideologia e contra-ideologia. Ora, mas contra-ideologia é também ideologia. O preconceito se vira contra a doutrina do mérito e o resultado é uma sociedade que perde os parâmetros para classificação intelectual. Eis a bola de neve da ideologia.

Se observarmos esses dois exemplos e tudo que neles está implicado, podemos perceber bem como que a ideologia cega. A saída é um pouco de filosofia: capacidade de reflexão crítica no sentido de expulsar verdades estreitas que querem se universalizar sem legitimidade.  Capacidade de implementar soluções pensadas, criteriosas, que se ajustem para o melhor resultado.

Sabemos que ideologia cega as pessoas. Mas, em geral, aplicamos essa “cegueira” como referente ao olho do espírito, ao intelecto. Todavia, esse cegueira pode ser literal. Os olhos físicos e a percepção que, enfim, em parte depende deles, também se abala. Uma pessoa que está dominada por um discurso estreito, que a faz andar como robô, pode deixar de ver aquilo que todos estão vendo. E volto a dizer, o “ver” aqui é literal. Foi o que ocorreu com a moça Márcia Tiburi, que tentou a filosofia, tentou a TV e agora tenta a política (ela precisa definir o que quer ser na vida!).

Ela é candidata do PT ao governo do Rio de Janeiro e, como tal, carrega o chamado discurso pronto. Aquilo que no meu jargão é a “cabeça cheia”. Foi para um debate na TV e fez um discurso em favor do negro. Foi para fazer o que tinha que fazer, sem refletir, no exclusivo caminho ideológico, que diz que a sociedade não tem negros no poder e muito menos candidatos negros. E foi isso que ela disse na TV: não há negros candidatos aqui. Do lado dela estava o ex-jogador Romário, negro famoso, deputado e também candidato. Como ela não enxergou o homem ali? Como que ela conseguiu ficar num ambiente, olhando para todos, e não ver Romário, ou vê-lo sem notar que era ele, Romário, negro?

É que o discurso do partido havia lhe dito que o capitalismo é perverso, e que não há negros candidatos. Não há e não pode haver. Pois se aparece algum, então o capitalismo não é tão perverso quanto deve ser para a ideologia que ela professa. E então ela não enxergou nem mesmo o Romário, que todo mundo conhece, que é famoso, e que estava ao lado dela! Curiosamente, a ideologia dela, para salvar no negro, o fez desaparecer de seu raio de visão. E Romário teve de avisá-la de sua presença. Um caso inusitado.

Cazuza estava errado. A Tiburi e as pessoas que se deixam levar por ideologias, mais ainda.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

PS1: Márcia Tiburi tem se tornado famosa por engolir ideologias. Aqui mesmo neste blog tenho um artigo em que comento o fato dela não conhecer Marx, e tomar o capitalismo como um regime que ensina todos a serem ladrões.

PS2: Vi Márcia Tiburi em um vídeo em que ela se dedicou a falar do cu (sim, ânus) durante uma hora. Dado sua postura sempre grotescamente narcísica, eu imaginei que ela seria uma pessoa que se acha o umbigo-do-mundo, mas então pensei que, no caso dela, seria preferível adotar a imagem de cu-do-mundo.

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7 Responses “Márcia Tiburi e o desaparecimento do Romário”

  1. Aristeu Chamberlain
    15/09/2018 at 16:57

    Confesso que ainda não li a obra integralmente. Apenas o folhei rapidamente, li o prfácio de Jean Wylys e mais um ou outro capítulo. Adquiri-o na semana passada, via Internet.Assim que me sobrar um tempinho, vou lê-lo com atenção redobrada, após ler alguns artigos do senhor a respeito da autora. Talvez tenha feito um juízo um tanto precipitado sobre o teor do livro, pois até o momento tinha muito pouco conhecimento sobre as posições político-ideológicas dela. A única coisa que sabia a respeito da moça era o fato dela ser candidata ao governo do Estado do Rio nas próximas eleições, pelo PT. No mais, pelo sim ou pelo não, penso que não fiz uma má compra, pois pelo menos a leitura servirá para eu fazer um contraponto, uma espécie de resenha crítica da mesma. Obrigado.

    • 15/09/2018 at 19:59

      Meu amigo, ler a Tiburi? Não! Não mesmo! Meu tempo é precioso. Eu tenho de fazer essas coisas por ofício, você está livre.

  2. ARISTEU CHAMBERLAIN
    14/09/2018 at 22:38

    mas, professor, o livro dela, “como conversar com um fascista””, é um verdadeiro libelo antifascista!FIQUEI SABENDO QUE ATÉ JÁ FOI TRADUZIDO PARA 46 IDIOMAS, ENTRE LELES, O CHINÊS MANDARIM E O ÁRABE. SÓ NO BRASIL QUE ELE TEVE UMA VENDAGEM PÍFIA, PORQUE O BRASILEIRO NÃO GOSTA MUITO DE SE MIRAR EM SEU PRÓPRIO “ESPELHO”!

    • 15/09/2018 at 11:32

      Aristeu, livro de militante sempre vende. O mundo é de gente que quer seguir outros. Se você ler verá que é um livro com vários conselho fascistas. Aquela moça adora ser seguidora, veja a relação estranha dela com o Lula. É uma relação de serviçal. Triste.

  3. LMC
    20/08/2018 at 11:55

    Romário é sonegador igual o
    Neymar e tem o apoio do PR
    do Valdemar Mensalão.Rarará!!!
    Quem fica parado é poste!!!

  4. Pedro Possebon
    19/08/2018 at 12:52

    Cara, até eu achava que o PT valia mais do que a Márcia Tiburi…

    Comentando o início do texto, há um movimento chamado Acredito (uma espécie de MBL Progressista) que é fundado por vários jovens que nasceram pobres que pelo “estudo por sua conta própria” e conseguiram bons diplomas. Mas a narrativa deles é a de que eles tiveram muitas oportunidades de todos os lados (professores, fundações filantrópicas e, inclusive, universidade mais abertas para estudantes latinos) e acreditam que por meio da política eles podem fazer com que esses tipos de oportunidades podem chegar a mais pessoas. Acho que vale a pena acompanhá-los 🙂

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