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25/09/2018

A verdade da facada


[Artigo para o público em geral]

Pascal tinha uma forma inteligente, porém falha, de acreditar nos milagres de Jesus. Ele dizia: como que doze homens diferentes poderiam ter inventado os mesmos milagres? E se a mentira tem perna curta, como eles puderam combinar que iriam, ao longo dos anos, falar as mesmas coisas sobre Jesus? Então, olhando essas possibilidades, Pascal dava crédito aos milagres de Jesus.

A forma com que Pascal checava as verdades sobre Jesus não é ruim do ponto de vista lógico. Mas, do ponto de vista do conteúdo e da história, são furadas. A história de Jesus é oral, escrita por fontes de datas distintas, e com pouquíssimos registros oficiais fora do próprio círculo cristão. A própria existência de Jesus histórico e a crucificação carecem de informações que o historiador crítico, atualmente, requisita.

E o homem foi à Lua? É verdade ou um grande plano teatral dos americanos? E o Holocausto? Um plano diabólico dos próprios judeus para se tornarem credores morais do mundo?

Quando os americanos e russos começaram a descobrir os campos de concentração, exibiram fotos tiradas pelos próprios nazistas a respeito da barbárie. Colocavam essas fotos em murais nas pequenas vilas alemãs, inclusive para que os alemães descobrissem o destino de seus parentes. Algumas pessoas olhavam e diziam: “é tudo fruto da invenção dos americanos, eles são experts na indústria cinematográfica, nossos soldados não fizeram isso!”.

O mesmo ocorreu na URSS quando os americanos pousaram na Lua. Muitos órgãos do governo soviético soltaram boatos nas ruas de Moscou: “mais uma vez a indústria cinematográfica, a ilha do faz de conta dos americanos, está tentando enganar o mundo”. Na época, em 1969, vi a coisa acontecer, o passo do homem na Lua. Estava no Rio de Janeiro com meu avô, vendo pela TV. Voltando para interior, escutei dos caipiras sabichões: “tudo truque”. Quarenta anos depois escuto gente falando “tudo truque”. Ou seja, caipira não aprende com Pascal uma das regras para ver se algo é truque ou não: o número de pessoas enganadas e, agora, o número de celulares enganados. Há as possibilidades disso? Essa simples pergunta resolve 95% das dúvidas. Isso sem contar a regra de ouro de Pascal: como combinar uma farsa tão grande envolvendo tanta gente? Essa técnica não serviu bem para Pascal, mas serve para nós, hoje, ao menos como ponto de partida para nos tirar de teorias conspiratórias. Mas exige cabeças não muito entortadas!

Comecei com Pascal e não com caipiras emburrecidos. Mas, no meio disso, citei os que não podiam ver por conta de cegueira patriótica e cegueira ideológica – que é a mesma coisa, no fundo. Tudo isso faz com que pensemos, usando um pouco de filosofia, sobre como há ou não possibilidade de darmos crédito para uma grande teoria da conspiração. E eis que chegamos à facada do Bolsonaro, o mito (!)

Para qualquer pessoa normal, acima dos doze anos de idade, não há como a Rede Globo em associação com Bolsonaro (!) fabricar uma mentira do tamanho da exigida para que a facada fosse falsa. É muita gente. Falta de luvas em médico de hospital do interior, no Brasil, não é anormal. Falta de sangue em facada, menos ainda. Hemorragia interna não faz a pessoa jogar sangue. Dá para chegar sequinho em qualquer lugar. Qualquer pessoa normal e inteligente sabe disso. Mas, apesar disso, há gente que parece ser inteligente (não tanto quanto Pascal), que está postando na Internet sobre a “farsa da facada”. Milhares de jornalistas no mundo todo sendo enganados, não é? Inclusive os agentes especiais de espionagem americanos, ingleses e russos, estariam sendo enganados. Todos! E o Bonner teria feito uma reunião com centenas de empregados da Globo, e com as outras emissoras (!), para todos confirmarem a mentira, não é assim? Reunião secreta, sem vazamentos, sem celulares! O método de Pascal, se aplicado aqui, é infalível. O fato está aos olhos de todos, não é história oral do passado. E com o raciocínio de uma criança sadia de 12 anos, a teoria da conspiração se esvai fácil. Nesse caso, Pascal serve para não deixar que tontos fiquem mais tontos!

O que faz então gente de esquerda, que até pouco tempo achávamos que eram menos sujeitas às teorias da conspiração de caipiras e da direita, começarem a ceder a uma tal estupidez? Bem, talvez seja gente igual ao Cabo Daciolo e ao próprio esfaqueador, gente que vê o mistério da Maçonaria dominando o mundo e que, um dia, ao escutar alguém do PSOL falar em “revolução”, entrou no partido, mesmo sendo seguidor do analfabeto doido do Olavo de Carvalho. Precisamos de tudo isso para entender essas pessoas que acreditam em teoria da conspiração? Claro que não. Precisamos de menos que isso. Precisamos, mesmo, apenas observar como que a ideologia age nos miolos das pessoas. No nosso e no dos vizinhos – se ainda não estamos de todo emburrecidos.

Vejam só que recentemente até mesmo uma pessoa inteligente, da linhagem de Pascal, virou piada: Marilena Chauí dizendo por aí que Moro havia sido treinado “pelos americanos” para vir destruir o PT e prender Lula. Lembram? Também ela, em 2013, disse que as manifestações de rua eram de “alienados” (sabichões adoram essa palavra), que estavam dominados pelos meios eletrônicos. Lembram disso? Ela poderia ter dito assim: Moro fez cursos nos Estados Unidos, ele tem uma visão de Direito que tem a ver com outra realidade etc., mas ela não fez isso, ela realmente ligou Moro a atos de decisão como no tempo em que ela, jovem, falava do “imperialismo ianque”, lá na rua Maria Antônia dos anos 60. É na falta de nuances que percebemos o quanto uma pessoa já não pensa.

Tudo indica que a busca da verdade, quando feita por gente obcecada, produz pessoas cada vez mais distantes das verdades. É uma doença intrínseca à própria verdade, dizia Nietzsche. É que quanto mais se busca a verdade, mais existe a tendência de querer encontrar chaves teóricas de infalibilidade para se ter êxito nessa perquirição. Sai-se da busca da verdade por aproximação e se endossa a verdade que seria alcançada pela abrupta iluminação. Cresce então o desejo de deter uma teoria que não deixe errar, que promova a iluminação. Busca-se o Olho de Deus. E eis que a Teoria (etimologicamente theoria vem de contemplação dos deuses o feito dos deuses), sendo assim, com tais características de infalibilidade, só pode vir junto de ideologia. É típico da ideologia dar a alguns homens os poderes dos deuses. Então, quando menos se espera, só a ideologia está funcionando. E aí, de posse da ideologia, a pessoa sabichona se acha superior aos outros. Pela primeira vez ela sente que pode estar acima dos outros. Fica eufórica. Desse modo, ela se vê sabendo mais que todos, se sente superior, e não pode mais ver com os olhos nus; só pode ver com os olhos da ideologia, que, afinal, lhe dá esse novo status perante seus colegas, família etc. (como quando alguém se torna pastor do bairro ou “comunidade”). Ela imagina (ou busca imaginar) que não está sob efeito de ideologia, e que tem a posse de uma doutrina metodológica para destampar a caixa de verdades. Tudo o que outro não pode ver, ela vê! Tudo que só ela, agora, vê! E se o que ela vê é a industria cinematográfica “dos americanos” funcionando, ela está a um passo de ver algo parecido também fazendo das suas. O que é parecido com Hollywood no Brasil senão a Rede Globo? Pronto! Tá feito a mística. A petezada adora isso, e vai de embrulho nessa forma capenga-religiosa de pensar. Muitos da esquerda, então, vão por essa via. E eis que a direita e os caipiras saem de cena para deixar a esquerda doentia subir no tablado. Cada um tem seu direito de ficar doido!

E isso é até vantajoso, para o sentimento dessa gente de esquerda de cérebro de percevejo! Pois se Bolsonaro estava roubando da esquerda endoidada e emburrecida o monopólio de xingar a Rede Globo, a facada vista como farsa pode reacender as bobagens e voltar a colocar tudo nos eixos. Gente como Marilena Chauí pode respirar: PT versus Rede Globo + Direita = vida normal. Só isso vale. Qualquer outro arranjo não encaixa. Essa é a equação que o esquerdista entende. A cabecinha dessa gente de esquerda acaba ficando a mesma que a do Cabo Daciolo.

São todos, os que inventam teorias da conspiração, iguais ao personagem de De Niro em “Taxi Driver”, e são todos parecidos com o Cabo Daciolo e com o próprio esfaqueador de Bolsonaro. Em parte, parecidos com o Bolsonaro! Estes fanáticos agem em nome de Deus. Os que propagam a teoria da conspiração também. Deus vive dando ordens para gente assim, dos dois tipos, que, afinal, são um tipo só. Deus adora essa gente, tanto é que fala com eles diretamente!

No meio disso, só uma coisa vale, a graça do bonequinho “pula pirata” que lembra aos bolsonaristas que o que salvou Bolsonaro foi o estatuto de desarmamento. Caso não existisse esse estatuto, o esfaqueador seria atirador. Será que Bolsonaro vai aprender a lição? Gostaria que sim, mas duvido. Embora a barriga dele seja mole, a cabeça dele é dura.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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9 Responses “A verdade da facada”

  1. newton
    10/09/2018 at 11:03

    o general augusto heleno declarouque o tresloucado que efetou o ataque ao candidato faz parte de um “complô marxista”.

    • 10/09/2018 at 11:18

      Ha ha ha esse Heleno ainda vive em 64! É um tonto.

  2. JOSÉ FERNANDO DA SILVA
    09/09/2018 at 07:42

    De meu ponto de vista, o caso de “amolecimento cerebral” mais grave (e imperdoável) é o da Marilena: ela se dedicou a maior parte da vida a estudar Spinoza (filósofo que combateu as ideias inadequadas produzidas pelo pensamento imaginativo, e também propôs um caminho para se superar a servidão das paixões pela via da transformação destas numa força ativa), no entanto, de modo recorrente a vemos vociferar apaixonadamente ideias inadequadas (o exemplo que você deu acima é lapidar).

    • 09/09/2018 at 10:52

      José, esse é um caso que entristece demais. Mas eu conheci ela jovem, e confesso, pensando hoje, dá para notar que poderia ocorrer o que ocorreu.

  3. F_2018
    08/09/2018 at 13:37

    Claro que sei Prof. Paulo. A opacidade dos tempos atuais tende a enlevar-me em comentários pouco producentes. A facada não foi uma farsa. Abraços.

    • 08/09/2018 at 17:25

      Todos nós temos a obrigação de sermos nada producentes, você tem razão.

  4. LMC
    08/09/2018 at 11:22

    Marina,Ciro e Alckmin foram solidários
    não com Bolsonaro,como muita gente
    pensa,mas com a democracia.

  5. F_2018
    08/09/2018 at 04:19

    Moro fez curso nos EUA e, por este motivo, tem uma visão do Direito relacionada a uma outra realidade. Mas, desde o Caso Banestado até a presente Lava-Jato são ricos os elementos factuais de apreço deste Direito, estudado pelo Juiz, ao PSDB e ao empresariado, ligado a este partido, que sustenta a jogatina da corrupção. Não é conspiração. É apenas mais uma página da disputa pelo modelo político e econômico, conservador ou progressista, a se instituir no país.

    • 08/09/2018 at 10:10

      Meu caro, acho completamente desnecessário o seu comentário. Você sabe disso né? Obrigado.

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