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17/12/2017

A clínica de Hitler aguarda você!


Se não tivéssemos acoplado a noção de subjetividade moderna à noção de interior, e feito de ambas o lugar da verdade sobre nós, não teríamos criado a psicologia com a força que ela tem nos dias de hoje. Então, não estaríamos agora nesse briga sobre se a psicologia pode ou não pode dar a palavra mais útil a respeito de nossos desejos íntimos e, portanto, nossa sexualidade.

Mas nós modernos somos os que se apoderaram da ênfase cristã na subjetividade como interioridade e, então, estamos agora presos diante de decisões de um juiz brasiliense que se transformou no guardião da Cidade regida pelo Rei-Psicólogo. Esse juiz quer decidir sobre se o que vale é a Constituição da Cidade, ou seja, a regra da Organização Mundial da Saúde (OMS), que diz que homossexualidade não é desvio ou doença, ou se é o despotismo esclarecido do Rei-Psicólogo, que quer ele próprio decidir caso a caso, a seu bel prazer, se pode ou não fazer uma terapia de “reversão sexual”.

Esse juiz luta pela autonomia da ciência. E carrega consigo grupos evangélicos, repentinamente autonomeados como iluministas, ou seja, como pessoas que querem garantir a liberdade da ciência. Nesse afã, o juiz e seus grupos de apoiadores, então, dizem que a clínica é laboratório, que ali é que a ciência se desenvolve, e desse modo transforma todos os pacientes e futuros pacientes em potencial cobaias. Por esse regra, esse juiz defensor da “cura gay” e seus apoiadores seriam pessoas que jamais fechariam uma clínica do tipo daquela de Roger Abdelmassih, caso ele não tivesse abusado sexualmente das clientes, mas somente feito “experiências” sobre reprodução humana.

Na verdade, tanto o juiz da “cura gay” quanto seus apoiadores, são pessoas bem conhecidas do filósofo Friedrich Nietzsche. Foi ele quem escreveu que a ciência não pode ser deixada livre. De fato, a ciência não pensa, ela não tem consciência crítica moral. Quem age como tal é a filosofia, e às vezes a religião. Mas, nesse caso, os religiosos e o juiz optaram pelo estranho princípio de não cercear cientista, de deixar que clínicas funcionem como laboratórios, e que toda pessoa angustiada por pressão social, possa ser vítima das pirotecnias de pseudo estudiosos que certamente podem usar da fragilidade humana para dizer que a “reversão sexual” é o que há de mais moderno no momento. Como disse um evangélico na Folha de São Paulo: é necessário deixar a psicologia cuidar dos “desvios” se há pessoas sofrendo com tal coisa, e queira optar pela heterossexualidade. O tal evangélico, do alto da sua cultura de pseudo-leitor de Judith Butler, decretou o fim do conceito de sexualidade!

Toda vez que a ciência feita por cientistas quer se livre, eu tremo de medo. Toda vez que ciência quer ser livre e chama evangélicos para a protegerem, aí o meu tremor vira pavor. Todos devemos nos apavorar diante dessa ciência repentinamente liberta pela liberdade criada por Hitler. A liberdade do experimento. O experimento que espera cobaias aflitas a cada esquina de nossas cidades.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Autor entre outros de Para ler Sloterdijk (Via Vérita, 2017)

3 Responses “A clínica de Hitler aguarda você!”

  1. 26/10/2017 at 22:17

    Nos EUA, nas primeiras décadas do século passado, em plena vigência da famigerada eugenia, existiram os “tribunais biológicos”, um triste prelúdio do que viria acontecer, vinte anos depois, do outro lado do Atlântico, na Alemanha nazista, com Hitler e o holocausto de seis milhões de judeus. Leiam o livro de Edwin Blake, “A Guerra contra os Fracos: a Eugenia e a campanha norte-americana para criar uma Raça Superior, obra vencedora do Prêmio Pulitzer de 2003. Infelizmente, esgotado, mas pode ser baixado em PDF, na Internet.

  2. Hilquias Honório
    22/09/2017 at 17:00

    Quando se trata de crueldade, os obscurantistas viram adeptos da ciência. Se for pra maltratar cães e ratos em laboratórios, ou se meter na sexualidade alheia, vale tudo “pelo progresso”. Tudo isso, para, no momento seguinte, algum deles dizer que a Terra é plana. Nesse caso a única fuga da armadilha do Rei-Psicólogo é pela via da política, já que pela educação tá difícil. Mas vale a pena levar adiante textos como esse.

  3. 22/09/2017 at 12:45

    Prof Paulo,

    Em relação à foto veio-me em mente uma especulação já antiga feita pelo Prof Luíz Mott segundo a qual o famoso frei franciscano Maximilian Kolb, morto nas câmeras de gás no nazismo, teria sido gay ou, pelo menos, desejavam desmoralizá-lo como gay. De fato, existe iconografia do santo com o triângulo rosa, como na sua foto.

    Em relação à alegação de Nietzsche, de que a ciência não pode ser deixada livre, creio que esse seja tema frequente no campo da bioética, especialmente quando trabalhamos temas polêmicos como manipulação de embriões.

    Gosto de ler suas coisas.

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