Go to ...

on YouTubeRSS Feed

23/10/2017

Arma e nudez. Problematizando o argumento de Janaína Paschoal


Antes de mais nada: que não se crie chifre na cabeça de cavalo. Janaína Paschoal é minha amiga. Uma boa intelectual. Uma bela flor jovem do pensamento liberal uspiano. Justamente por isso, posso divergir dela, ao menos pontualmente.

Nas redes sociais Janaína afirmou que o nu é bem vindo entre adultos, mas que ela teme que o caso do MAM possa conter um elemento em desacordo com a lei. Afinal, o ECA protege a criança não de fatos, mas também de possíveis fatos. O que ela diz com todas as letras é que no caso da criança, ainda que acompanhada da mãe, poderia haver um toque no pênis do ator e uma consequente ereção, durante a performance de “Bicho”, de Lygia Clark. Estaria aí configurado o fato indesejável. Janaína atenta então para o caráter preventivo do ECA que, aliás, em geral, é odiado pela direita política.

Em e-mail trocado comigo, por outros assuntos, Janaína lembrou-me que ela é a favor do direito de cada cidadão portar arma. Deu a entender, inclusive, que esse porte poderia ser facilitado a ponto de invalidar as restrições do desarmamento atualmente posto. Nesse caso, ela abandona seus desejos de previsibilidade em favor do cuidado com a criança, inclusive contra as estatísticas. Ela vê perigo numa potencial ereção de um artista profissional em público, mas não vê perigo na arma em casa, sempre ao alcance de crianças e, enfim, nas mãos de um pai que, nós sabemos, se irrita facilmente e acaba dando tiros em inocentes. Aliás, tiro em não-inocente é também sempre uma desgraça. Por isso mesmo a própria política, oficialmente, insiste em falar para a vítima de assalto não reagir.

Vejo então que Janaína escorrega no pré-conceito, e pode estar avaliando as coisas a partir do preconceito. O órgão sexual do adulto, diante da criança, numa situação completamente pública, com a mãe presente e num lugar de ensino que é o museu, se torna mais perigoso que o revólver solto na casa, estando na posse daquele que, todos os dias, vemos matando gente com essa arma, por conta de briga no trânsito. Aliás, nesses últimos dias, vários policiais militares atiraram em mulheres e filhos. Olha só, gente preparada para ter arma mata entes familiares. E então, gente despreparada, como seria?

A questão toda de Janaína é que ela quer salvar a criança do que vem pelo futuro. Bela inspiração rousseauísta, do proto-romantismo moderno, e que combina com certo iluminismo uspiano que Janaína, como eu, guardamos e veneramos. Todavia, eu não endosso Rousseau – o da criança pura como ideal e o do bom selvagem como fundamento do contrato – sem lambuzá-lo em Nabokov – o homem que ensinou que Lolita é uma criança, sim, mas perversa (escrevi sobre isso em vários livros e artigos dos anos noventa, a partir de uma interpretação do conto Pinóchio).

O MAM e outros museus e teatros cultivam arte, não pedofilia. Isso é assim por definição. Aliás, uma definição que não tem mostrado nenhum caso concreto que foge à regra. Ninguém jamais veio denunciar um museu por casos reais de abuso sexual. E desta vez, todos escolarizados entenderam, o homem nu era de fato uma peça e a mãe estava lá para proporcionar uma aula de educação artística sobre o corpo tornado peça. Escrevi sobre a metafísica do trabalho de Lygia Clark, aqui mesmo neste site. Aliás, a arte serve para instruir filosoficamente o público leigo em filosofia, e inclusive as crianças. De certo modo, é pretensão da arte, no século XX, substituir a filosofia, sendo ela própria filosófica. O filósofo e crítico de arte Arthur Danto denominou essa situação de “fim da história da arte”. É uma loucura obsessiva reduzir a apresentação no MAM a uma peça que não foi apresentada, aquela denominada “O monstro pênis devorador de crianças”. Essa peça, na qual a ereção do artista pegaria todos desprevenidos, menos Janaína, não existirá jamais, não num lugar de arte profissional como o MAM.

A arma é diferente, ela por definição cultiva a morte. A exceção da arma é o tiro esportivo. Aliás, o tiro esportivo, quando transformado na caça, também significa morte e crueldade. A arma não precisa ganhar o olhar da previsibilidade para que saibamos que ela, por si só, é uma tragédia anunciada. Com uma arma acerto minha esposa, meus filhos e, se não fizer nada disso, ainda faço a má educação de meus filhos. Criança que cresce vendo o pai empunhar arma como quem empunha o controle remoto da TV, isto sim, me parece algo deseducativo. Com uma arma acerto o bandido? Raramente. As estatísticas mostram que sempre que levanto uma arma para o bandido, saio perdendo, inclusive a arma. E o que é pior, quando ganho, acertando o bandido, eu perco. Pois vou para um processo judicial que estraga minha vida, e/ou fico à mercê da vingança de uma gang. Nunca ganho com uma arma na mão.

Janaína parece não perceber que o princípio liberal que segue a faz cuidadosa num ponto, quase que mostrando uma não compreensão do trabalho de um artista, e ao mesmo tempo a torna extremamente descuidada num outro ponto, que é justamente aquele que ela não deveria poder passar por cima. Ela, por ela ser advogada, vê todos os dias o âmago da violência, inclusive e principalmente contra crianças no âmbito familiar. E o revolver, nesse caso, cumpre sua função.

O liberalismo é uma doutrina que só tem validade quando não quer ser deus, ou seja, servir para todos os casos indiscriminadamente. A filosofia, nessa hora, se obriga a trair a  si mesma e nos ordenar a pensar caso a caso e ver nossas possibilidades de responsabilizarmo-nos pela previsibilidade inteligente, não pela previsibilidade do que adotamos como perigoso a partir de pré-conceitos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60. São Paulo, 09/10/2017

Paulo Ghiraldelli  é filósofo, professor e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalha como escritor e cartunista e tem presença constante na mídia imprensa, falada e televisiva. Atua junto com Francielle Maria Chies no programa Hora da CorujaFLIX TV. É professor de filosofia aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trabalha atualmente como diretor e pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). É professor pesquisador convidado na Faculdade Paulo VI, da Igreja Católica, em filosofia.

Tags: , , , , , , ,

2 Responses “Arma e nudez. Problematizando o argumento de Janaína Paschoal”

  1. bony
    10/10/2017 at 12:03

    Estou criando uma lei pra passar no congresso nacional em carater de urgencia: proibido brochar em puteiro, evitando–se assim a configuracao de crime de falta de erecao, perda de tempo das profissionais do sexo e, tambem, consequente danos psicologicos causados as mesmas (desculpe, estou sem o teclado em portugues).

  2. Matheus
    09/10/2017 at 11:29

    Janaína só tem me decepcionado pós-impeachment.

    É ótimo ter alguém pra mostrar nossos equívocos, espero que ela continue te lendo e que compreenda onde está tropeçando.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *