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25/05/2019

A direita em busca de sua imagem jovem ou A direita hormonal em ritmo de aventura


Terminada a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos trouxeram para a Europa o Plano Marshal, de reconstrução do velho Continente. A ajuda chegou também, claro, ao Japão. Até o Brasil ganhou o seu quinhão: A siderúrgica de Volta Redonda e um velho Porta Aviões, o Minas Gerais. Manteve-se único e servia mais como peça de visitação do que qualquer outra coisa. Lembro-me bem dele. Quando garoto meu pai me levou para percorre-lo, junto disso veio uma “aulinha” sobre o Plano Marshal, sobre como que seríamos bons se pudéssemos viver no estilo da “classe média”, ou seja, no estilo dos americanos.  Eles eram os donos da ideia de classe média.

Mais do que muita gente, meu pai sabia bem o que era o American way of life. Nos anos cinquenta e início dos anos sessenta, esse dístico não tinha a ver com o consumismo – não como o identificamos hoje. Tinha a ver com uma imagem da construção do homem do futuro próximo. Aquele que Nietzsche disse que havia inventado a felicidade. A maioria das crianças da minha época cortava o cabelo na base da tigela ou, então, deixando um topetinho na testa, um tanto ridículo. Meu pai punha-me no barbeiro e dizia: “corte americano”. Era diferente. Tínhamos de nos parecer com John Wayne ou coisas do tipo. Seríamos machos, brancos e fantasticamente héteros – de preferência esportistas. Seríamos honestos, leais aos pais, indivíduos par excellence (como pede o meu amigo Calligaris) e, enfim, gentis com as moças. Nem todos nós conseguimos tanto, quando viramos jovens e o modelo, mesmo da direita, já era mais cabeludinho, como o caso de Clint Eastwood.

Contra essa imagem do jovem de direita, surgiu o jovem ou hippie ou militante. Cabelos compridos, um blazer, barba ou não barba conforme o momento, e tênis. Os anos setenta embaçou tudo, pois na esquerda e na direita venceu o brega e o espalhafatoso. Eu mesmo tinha uma calça rocha com boca de sino: 53 centímetros de diâmetro! Eu era de esquerda.

Nos anos noventa, no entanto, contra toda a profusão de estilos, por conta do surgimento das “tribos urbanas”, a direita inventou o estilo Yuppie. Neoliberalizinho. Cabelo aparado, terno apertadinho de cor discreta junto de uma pequena maleta e sapatos bem brilhantes. O menino bem sucedido até antes da hora! O jovem executivo – contraponto ao estilo do universitário desleixado, militante de esquerda, e contraponto ao velho curtidor da vida, símbolo do Paz e Amor dos anos sessenta e setenta. O hippie, por sua vez, virou “hipongo” – estilo decadente. E também se queria que se tornasse decadente o sindicalista universitário ou o militante de esquerda. O fim da URSS de fato começava a dar seus frutos.

Mas a direita não conseguia emplacar com seus estilos. Era difícil para a direita substituir o estilo durão. A direita não conseguira atrair os jovens. A rebeldia jovem parecia que nunca se adaptaria ao estilo da direita. Além disso, o cinema logo colocou o yuppie como vilão – o filme Ghost marcou época. Não podemos esquecer do personagem, o traidor, representado por Anthony Howard “Tony” Goldwyn. Ele era um típico yuppie.

Como tantos pais na esquerda ou na direita, eu não repeti com meus filhos o que meu pai fez comigo: não levava-os para fazer o “corte americano”, nem tentava inovar deixando-os cabeludinhos. Punha-os para cortar cabelo, tanto a menina quanto o menino, segundo o que a moça lá que se metia a fazer o serviço mandasse. Ela dava “a moda”. No entanto, a direita continuou procurando o seu estilo. Queria encontrar um modo de vestir a juventude. Queria dar um padrão de comportamento, de modo que o jovem pudesse aderir e se dizer de direita. O que se desejava era encontrar um estilo de ser de direita e ao mesmo tempo ser jovem. Nasceu então a Direita Hormonal. Ela é uma espécie de resto do neoliberalismo. Ela mistura estilos: “somos do mundo, somos iguais, somos simples”. “Não somos filhos de executivos ricos” (embora sejam, não raro!). “Mas somos jovens e, portanto, no nosso estilo há algo de desleixado, marcante, simples demais, folgado”.

O que é a Direita Hormonal? É gente que faz de si mesma um personagem. Alguém que não fala de si mesma na terceira pessoa, mas até gostaria. São personagens que obedecem as regras dominantes do mundo mercadorizado, mas que se posicionam contra algum tipo de status quo, mesmo aparente, para que a fama de rebelde se espalhe.

O jovem de direita não tem idade, tem hormônios. O importante é ele ir contra a cultura estabelecida pelos clássicos, em especial o que ele toma como “esquerdismo”. O importante é ele falar contra professores, contra ideais de igualitarismo e, em especial, contra as tendências liberacionistas de mulheres, gays, negros e outras minorias. Não raro, ele alimenta tendências anti-intelectualistas mundiais: fundamentalismo religioso, não acredita em vacinas e, se deixar, possa de burraldo terraplanista. Assim, é fundamental que ele se vista com um tom que mescla o sóbrio comum e o desleixado, algo que represente o não-estilo, o não fechado, o não uniformizado. Trata-se da rebeldia de imagem. A direita jovem não tem idade. Tem apenas silhueta: como pança ou sem pança.

Os estilos da Direita Hormonal se fazem sentir em um Pondé e um Lobão. Em um Roger e um Danilo Gentili, ou em um Kim Kataguiri e um Mamãe-Falei, ou então em um Caio Coppola, ainda que este, com aquele tipo de boca, esteja mais próximo das hienas do filme Rei Leão. Aceita-se mulheres? Não! Mas é possível aproveitar algumas que se fazem de afoitas, no estilo-sem-estilo de Joice Hasselman e Janaína Paschoal. Aceita-se negros? Sim, contanto que sejam bem obedientes a brancos e comunguem ideias de direita, em especial aquelas que corroem o movimento negro. Aqui, um detalhe: o negro, nesse caso, nunca pode manter seu cabelo, tem de sempre estar de corte novo. Mudar sempre é uma forma de ser negro sem sê-lo. Aceita-se quem bate no próprio pai? Sim, Lobão é bem vindo. Qual o lema: “fracassados do mundo, uni-vos”. Unem-se em torno da meritocracia, mas são os não vitoriosos nesse esquema.

O importante nessa direita hormonal são os hormônios! Eles, o jovens e não muito jovens dessa direita precisam parecer rebeldes – isso contra o que eles mesmos caracterizam como o “intelectual” (o professor) ou o “esquerdista” (qualquer um que fale em igualdade de oportunidades). Criam fantasmas velhos e novos para se colocarem na oposição. São oposição sendo situação! Comportam-se como os contestadores radicais do momento. Podem fabricar o comunismo, para serem anticomunistas, ou podem mostrar o feminismo em versão caricaturesca, para serem antifeministas. O importante é atrair jovens no sentido de ganhar os que precisam deixar os seus hormônios fluírem. Finalmente a direita conseguiu não ser repressora, ao menos à primeira vista, pois parece ser libertária no sentido de dar combate a tudo que nos fez sermos civilizados. É da direita, agora, o direito de falar em “mal estar na civilização”. Oh! Às vezes ela chega até mesmo a aceitar os gays – ou se não pode fazer isso, então apela para um estranho celibato ou abstinência, como é o caso dos meninos do MBL. Aqui, nesse caso, funciona o lema: Caio Coppolla não copula.

O mais ridículo dessa direita hormonal, em sua ânsia por um estilo próprio, é terminar sob o jugo de um desescolarizado e débil mental, tipo Olavo de Carvalho, e sob o comando político de um capitão reformado que anda de camiseta e chinelo, não para ser popular, mas para ser o que é, um mandado embora do Exército. Bolsonaro não é o parteiro dessa direita, é seu sepulcro. Essa direita, nesse estilo, não vai durar muito, pois ela tem como ícone um Nando Moura, a expressão máxima da bozolândia, do Bozo palhaço mesmo. E isso é efêmero demais. A direita eterna nunca será outra senão a de John Wayne.

Paulo Ghiraldelli Jr., 62, filósofo.

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12 Responses “A direita em busca de sua imagem jovem ou A direita hormonal em ritmo de aventura”

  1. 26/03/2019 at 18:07

    Professor, eu ja te acompanhava antes, mas não conhecia blog do senhor… Eu estou achando essas criticas que você faz ainda mais interessantes aqui!

  2. 26/03/2019 at 15:51

    A direita sofre em simpatizar com a juventude pela falta de proposições e ambições revolucionarias e rebeldes, diferentemente da esquerda, porém a qual acaba não se sustentando quando este jovem influenciado torna a vida adulta, numa fase mais “lúcida”. O senhor concorda?

  3. 09/03/2019 at 11:38

    Ótimo Texto Professor!

    Como Poderá Governar esta Direita sem muita bagagem Filosófica, Cultural e Histórica? Qual será Futuro desta “Direita Hormonal”?
    Preocupante a Postura destes Cidadãos.

    Na Seção / Menu de “Posts” só consigo ver até o Post do Dia
    4/18/2018, teria como verificar ou mudar para ter acesso a Todos os Posts anteriores a esta data (2017 / 2016 / 2015, etc.).

  4. Paulo Vitor Piñeiro da Fonseca
    05/03/2019 at 12:33

    Prof. O que o senhor acha da obra filosófica do Louis Lavelle e do eric voegelin ?

    • 06/03/2019 at 01:16

      Não sou um leitor assíduo. Conheço pouco. Os temas que eles trabalham não são afeitos aos temas que eu trabalho.

  5. andre ribeiro filho
    03/03/2019 at 13:27

    O ZOÊRO É MÊIO ESQUISITO…. ÔÔÔ Professor…. tem um bar perto da minha casa….. é uma mistura de bar com lanchonete…. e sempre que eu passo por alí…. perto desse bar…. o zoêro geralmente tá com sede…. e aí… eu peço nesse bar uma garrafinha de água mineral sem gás…. e com um copinho descartável…. e os atendentes até já me conhecem…. eles trazem a água pra mim mesmo antes d”eu pedir…. é legal pois a gente fica jogando conversa fora… principalmente zoando sobre o governo do Bolsa… e eu até brinco comigo mesmo mentalmente …. falo assim…””” vai botar os “”rim”” pra trabalhar…!!! “””” ÔÔÔ Professor…. até aí não tem nada demais…. pelo contrário… é até uma coisa bem saudável…. pior se fosse cachaça…. mas tem um porém nessa história….ÔÔÔ Professor…. o ruim dessa história é que tem “”horas”” que o zoêro passa por esse bar e não está com sede…. e aí… na minha cabeça… esse consumo quase que diário…. dessa água….nesse mesmo bar… já deixou de ser uma maneira de saciar a sede… e já se tornou praticamente uma mania pra mim…. e o zoêro fica pensando…. eu fico mêio receoso de “”passar direto”” por esse bar e não beber a água…. sei lá…!!! vai que pode acontecer alguma coisa… quem sabe…. alguma coisa desagradável…. ÔÔÔ Professor…. eu sei que isso é caso de psicólogo…. mas vai que a reforma da previdência acaba sendo aprovada porquê eu passei direto e não bebi a água nesse bar…. ÔÔÔ Professor…. o zoêro de vez em quando toma uma providência pra contornar essa situação….. de vez em quando… quando tenho saco…. eu dou a volta no quarteirão…!!!! o zoêro perde um pouquinho de tempo…. mas eu fico tranquilo com isso…. isso me faz continuar confiante pra secar esse governo….

  6. andre ribeiro filho
    02/03/2019 at 11:15

    Oi Professor…. tudo bem com o Senhor…????

  7. mathaus
    02/03/2019 at 08:39

    no meio “chofen” o termo que resume isso tudo é “poser” a criatura mais baixa da cultura pop.

  8. Orquídea
    01/03/2019 at 22:44

    Eles [os novos direitistas] são uns “sem sal nem açúcar”, isso sim.

  9. Eduardo Henrique
    28/02/2019 at 20:32

    Faltou nessa lista de pessoas que sofrem de “diarreia mental”, o Alexandre Frota. Este é o “grande” troglodita dessa direita que está aí.

    Abraços!

  10. Tony Bocão
    28/02/2019 at 08:44

    Texto muito legal dá para fazer um paralelo com aquele seu vídeo sobre Zé Presidente e mal humor daquele garoto da Pan. Aliais parabéns pelo sucesso no youtube, muito legal a plaquinha dos 100 mil!
    Mas por favor, imploro que não deixe de escrever de vez em quando nesse blog!! Aproveite o dia!!!

  11. 26/02/2019 at 00:26

    Excelente artigo. Faz uma revisão estética, do discurso, da retórica, dos antigos métodos da “nova” direita Brasileirahttps://guitarrasbrazil.blogspot.com/

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