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16/11/2018

Nossa democracia pode morrer?


[Artigo para o público em geral]

Nossa democracia pode morrer? Pode! Mas sua morte, se ocorrer, tem menos chance de vir por golpe, como em 1964 ou em 1937, do que vir por movimentos contínuos de perdas de direitos individuais.

A democracia grega era o governo do povo. A reunião dos representantes dos demos  para deliberar sobre questões de toda a polis criou a democracia, o governo dos demos ou do povo. Nessa democracia, a ideia de liberdade era a ideia da liberdade da polis de fazer valer tais decisões, sem que outra polis interferisse. Ora, não é assim que vemos a democracia de hoje. A democracia de hoje está associada a uma doutrina que o grego não conheceu, a doutrina liberal, ou seja, a doutrina da criação e preservação de direitos individuais.

O liberalismo esteve presente na Revolução Gloriosa, na Revolução Americana e na Revolução Francesa. Ajudou na luta contra o Antigo Regime e deu substância à democracia moderna. Associamos o liberalismo ao livre comércio e à doutrina do individualismo gerada no contexto do Iluminismo. Em geral, empurramos a Igreja para fora desses novos tempos, por conta de sua associação com o mundo feudal e com o Antigo Regime, mas, se olhamos com cuidado para o cristianismo, veremos – principalmente se recorrermos às visões se Hegel e Nietzsche – que este foi o grande alimento do liberalismo.

O cristianismo trouxe uma religião de ligação de Deus com o indivíduo. Uma ligação de um Deus-Pai com cada Filho, por uma relação “interior”. Gerou a figura do indivíduo com “exterior” e “interior”. Forjou a ideia de vida privada, do burguês moderno. Mas, lá na base, já se pronunciava como uma doutrina da democracia moderna, como um liberalismo avant la lettre, com a Parábola do Bom Samaritano. O samaritano era um indivíduo bom, no interior de uma comunidade que via os samaritanos como todos maus. E foi ele quem acolheu o homem caído e ferido. Ele, vindo de um grupo desprezado, é que cumpriu a lei da misericórdia. Nessa parábola estão postas as ideias básicas a respeito da consideração do indivíduo e das minorias, que se tornaram a base para o liberalismo desenvolvido, que veio a dar nova substância para democracia.

Se os Direitos Humanos foram criados após a II Guerra Mundial como doutrina a ser seguida pelos diversos países, segundo a formulação da ONU, isso ocorreu exatamente pela presença do cristianismo no interior do liberalismo, e do seu sucesso na formulação de Constituições variadas no Pós Guerra.

Quando a democracia começa a morrer? Não quando deixamos de votar somente, mas, principalmente, quando a Parábola do Bom Samaritano não conta mais nem entre os que se dizem cristãos, e quando o Estado já não tem defensores aguerridos dos Direitos Humanos. É quando aparecem os fascistas que dizem que “Direitos Humanos são para Humanos Direitos”, e não para todos.

Paulo Ghiraldelli Jr. 61, filósofo.

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17 Responses “Nossa democracia pode morrer?”

  1. Augusto P. Bandeira
    12/11/2018 at 17:22

    A democracia está sob risco por sua própria natureza: permitindo que pessoas ou grupos com ideias, a princípio, antagônicas à democracia cheguem ao poder pelo voto popular. Se for por esse ponto de vista, então é aceitável afirmar que qualquer democracia está sob risco (incluindo a Brasileira).

    Existem formas mais sutis de matar a democracia, por exemplo comprar praticamente toda oposição para anulá-la e, consequentemente, anular a vontade popular de quem a elegeu; artificializar obstáculos ao cumprimento das leis; centralização do poder comprometendo sua divisão tripartite; culto à personalidade do líder; monopólio do Estado pela indicação para postos-chave de pessoas alinhadas com uma agenda; quase monopólio da Academia para reverberar a verdade que o poder deseja propagar e anular qualquer contestação; utilizar os recursos da democracia para fomentar regimes ditatoriais – em suma, se apossar da democracia para erodi-la desde dentro.

    Já imaginou se um líder e/ou partido assim conseguisse ser retirado do centro do poder executor?

    A mudança de legenda e/ou persona implica pode implicar sim em mudanças nos graus de ameaça à democracia, contudo afirmar que a democracia corre mais riscos apenas porque o quadro partidário foi renovado (e o novo líder respeita as instituições porque é oriundo delas) é, no mínimo, leviano.

    A democracia brasileira não está sob (o mesmo) risco (que em governos anteriores).

    Ficou melhor assim?

  2. Eduardo Rocha
    08/11/2018 at 17:31

    Paulo. Não sei se compreendi um texto de Kant. Em A Paz Perpétua ele diz que “não se pode esperar que reis filosofem, e nem que, filósofos façam política, virando reis”. Kant acreditava que o pensamento está sujeito à corrupção do poder, o que desvirtuaria as ideias dos filósofos? Mas se o filósofo está tão próximo de um político, logo o rei deveria ter o filósofo como conselheiro? Platão não diz justamente o contrário? Que a atividade filosófica e política não se misturam? Pelo que eu entendi Kant não considera a possibilidade de um filósofo “fazer” política, mas como alguém que não pode esquecer questões ou fazer vista grossa para coisas, discursos que podem estar conectados com a sociedade, a cidade e a política. Diz ele “É imprescindível, porém, para ambos que os reis ou os povos soberanos (que se governam a si mesmos segundo as leis de igualdade) não deixem desaparecer ou emudecer a classe dos filósofos, mas os deixem falar publicamente para a elucidação dos seus assuntos, pois a classe dos filósofos, incapaz de formar bandos e alianças de clube pela sua própria natureza, não é suspeita da deformação de uma propaganda”.

  3. Sérgio
    08/11/2018 at 05:27

    Só pra lembrar o que você já falou, não somente o roubo e a hipocrisia associados ao governo do PT e seus apoiadores, mas também a postura arrogante, impositiva e sem autocrítica de muitas pessoas de esquerda, não todas, em vários setores da sociedade, que querem que os outros tenham a sua visão do que é a luta por mais direitos e menos desigualdade em um país que tem demonstrado ser mais conservador do que pensávamos. Não que eu seja conservador ou que as buscas por vários direitos capitaneados pela esquerda mesmo radical não seja justa; de fato, são lutas justíssimas e imprescindíveis, mas da maneira como é feita, e depois a esquerda brasileira se juntar pra em vez de votar nulo, votar no Haddad ou Ciro. Pra mim, isso não faz sentido, e espero que o PT acabe como partido.
    Uma pergunta: Por que a democracia não pode ficar na mão dos liberais? Primeiro não precisamos no Brasil de um mercado pungente pra depois fazer essa crítica? Essa crítica do Sloterdjik vale mesmo para o Brasil, não seria uma crítica para os países ricos? Não vejo uma boa democracia sem um mercado livre e forte levado adiante pelos liberais.
    Pergunto e afirmo essas coisas reconhecendo a minha ignorância e sabendo que eu preciso ler muito ainda. Desde já obrigado…

    • 08/11/2018 at 14:25

      Eu não disse democracia nas mãos dos liberais, mas liberdade.

  4. Augusto P. Bandeira
    07/11/2018 at 22:01

    Moro será o ministro da Justiça, o STF continuará a ser Supremo, o presidente eleito afirma categoricamente que a Constituição será seu norte e a Organização dos Estados Americanos não detectou qualquer anomalia no processo eleitoral.

    A esquerda perdeu moral? Sim. Mereceu? Com certeza, mas pode fazer boa oposição.

    A democracia no Brasil, definitivamente, não está sob risco!

    • 08/11/2018 at 00:02

      “A democracia não está sob risco”. Foi uma ironia, não? Caso não, foi burrice.

  5. rick luchesi
    07/11/2018 at 20:02

    claro, professor!… o senhor tem razão. aliás, quanto à homossexualidade no reino unido, o grande físico e matemático inglês, alan turing, precursor da computação,acusado e preso por “pederastia”, que o diga. ele não suportou o baque e acabou se matando comendo uma maçã envenenada, em 1854. a homossexualidade só deixou de ser crime no reino unido, em 1867. e na índia, que foi colônia britânica, neste ano.devemos ter da história, não apenas uma visão sincrônica, mas também, diacrônica.

  6. Mariana
    07/11/2018 at 17:12

    “Mas, há verdade nisso, de que a democracia de fato corre risco? Em parte, sim. ” (10-10-2018) “Nossa democracia pode morrer? Pode! ” (06-11-2018).

  7. LMC
    07/11/2018 at 10:48

    Não,a esquerda não perdeu moral
    por causa do que o PT fez.É porque
    está na modinha ser reaça macaqueando
    o Trump nos EUA.Quando Obama disse
    que Lula era “o cara”,nossa direita espumou de raiva.

    • 07/11/2018 at 12:39

      Ah sim, antipetismo por conta da roubalheira não vale nada. Putz!

  8. 07/11/2018 at 09:56

    Todos os cristãos que apoiam as ideias hediondas do Bolsonaro ( e de qualquer governante do estilo dele) deveria ler este texto e reler a Bíblia.

  9. Gustavo R.
    07/11/2018 at 02:10

    Bem colocada a citação da parábola, Paulo. Importante frisar que o homem caído na estrada não podia ter sua origem ou posição social identificadas, uma vez que fora surrado, despido e deixado desacordado pelos ladrões que o surpreenderam na estrada. Assim, nem pelas roupas nem pela fala podia o homem ser identificado, de modo que ele representa, como você bem exemplificou, o ser humano (titular dos direitos humanos) em si que, por tal condição, e apenas por ela, fora tomado como “o próximo” pelo samaritano, que não hesitou em cumprir integralmente o shemá para com ele, independente de quem se tratasse.

  10. Patrícia Aparecida Barbosa da Silva
    07/11/2018 at 00:30

    Parabéns!

  11. rick luchesi
    06/11/2018 at 23:15

    Paulo, os países do dito “primeiro mundo”(não gosto desta denominação), especialmente odidente europeue eua, só se tornaram inteiramente democráticos após a segunda guerra mundial, com a adoção, de maneira mais abrangente, depois de várias reformas, do sufrágio universal, direto e secreto. ainda no século xix, agusto comte, pai do positivismo e da sociologia, considerava a soberania do povo uma “metafísica nebulosa” e o voto popular uma “doença social”! quanto à democracia, considerava-a um mero expediente da burguesia para “enganar” os trabalhadores.

    • 07/11/2018 at 01:10

      Rick as coisas não são assim. A gente nunca sabe se está vivendo numa democracia. Pois logo que conquistamos direitos, descobrimos que falta mais. Veja: só em 70 negros e brancos começaram a se integrar nos Estados Unidos. E a homossexualidade como crime continuou por muito na Inglaterra. Veja que nós, brasileiros, só a colocamos fora do catálogo de patologia há pouco tempo. Etc etc etc.

  12. Marcos Calixto
    06/11/2018 at 22:51

    Brilhante texto! Essa polarização se deve muito aos eleitores evangélicos, que deram força a candidatura do Bolsonaro, mesmo ferindo princípios básicos do cristianismo.Não esqueço que na campanha passada eles apoiaram o Aécio Neves Quando dividiu o País naquele momento.

    • 07/11/2018 at 01:10

      Não necessariamente, lembre-se que o roubo do PT por anos fez a esquerda perder moral.

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