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20/10/2018

Candidatura Bolsonaro é fruto da nossa piora educacional?


[Artigo para o público em geral]

É difícil para os liberais autênticos – com John Dewey à frente, sendo seguido no Brasil por Anísio Teixeira e Paulo Freire – não concluir que a democracia depende de boa educação em ampla escala. Essa certeza nunca foi colocada em cheque, ao menos em teoria, pelos liberais autênticos. Os Estados Unidos foram a nação que mais levaram a sério um tal postulado. Mesmo muitos anos após Dewey ter propagado uma tal crença, Obama e Clinton acreditam nisso, e propagam essa “verdade americana”. Mas nossos liberais, aqui no Brasil, não são autênticos, não acreditam nisso, nem quando professam.

Nos anos setenta a pedagogia ganhou uma literatura de certa sociologia marxista-durkheimiana que se ocupou de tentar negar essa crença liberal. Educação como algo capaz de construir a democracia, causar transformações, sustentar um estado de direito democrático-liberal, foi algo fortemente contestado por autores como Bourdieu e outros. Através de estudos sobre o sistema educacional francês, essa sociologia concluiu que mais estudo dos filhos não criava gente melhor de vida que os pais. Os liberais ficaram impactados. Mas não deveriam. Afinal, essa literatura não afirmou que mais cultura não fazia diferença na formação de ideias não fascistas.

Essa literatura de esquerda, hoje, não é mais moda. O livro A reprodução, de Bourdieu e Passeron, não é a coqueluche do momento. A crença na educação voltou. A maior parte da população e os políticos dizem que a educação é essencial, e que a vida democrática depende disso. Mas se isso está na retórica da maioria, não está na prática.

A questão central, que é o salário do professor, não recebe a atenção dos liberais. E quando a esquerda vai ao poder, ela age igual a esses liberais: adora fazer “reformas pedagógicas”, mas nunca atuam no sentido de dar uma injeção salarial capaz de mudar o cenário de vivência do professorado. Há um bloqueio sobre esse assunto. Pode-se falar da boa escola, pode-se até falar da necessidade de uma melhoria da formação do professor. Mas o salário não é falado. Não é tocado. Nem no discurso e menos ainda na prática dos governos. A ideia básica é a de que o magistério tem a ver com certo sacerdócio, uma ampliação do serviço da mãe, transformada em professora. Não é difícil ouvir isso da boca não só de liberais, mas também de gente de esquerda. Cid Gomes e Alckmin, só para citar dois exemplos, cobraram do professor certo sacerdócio. E Haddad, por sua vez, fez um piso para o magistério que se tornou, depois, não só uma camisa de força, mas uma medida pela qual ele não lutou (como sempre, aliás – e por isso seu apelido é Sr. Ejaculação Precoce).

Salário de professor é tabu. Todo mundo no Brasil acha que a educação boa se faz com melhoria nas escolas mas não com bom salário para o professor. E por isso ficam encantados quando encontram algum estrangeiro que aqui vem para nos ensinar pedagogia! Em todos os empregos, há a crença de que o salário melhor atrai as melhores cabeças. Mas, no campo escolar, se alguém diz isso, é chamado de mercenário e é contestado inclusive por pedagogos oficiais e, claro, por governantes na direita e na esquerda. Até o próprio professor, não raro, aparece para dizer que ele trabalha sem visar dinheiro. Ser professor é ter vergonha de ser trabalhador, de querer salário, de admitir que só com bom salário se tem boa mão de obra. Nada é mais duro de se quebrar que essa mentira vinda do Brasil colonial.

De 1985 até 2018 não tivemos cuidado com a educação, no sentido da melhoria do salário do professor, de modo que ela pudesse acompanhar o regime democrático. Agora, não temos como saber o que nos inquieta: teríamos nós evitado ter de voltar a se ocupar de gente como o nefasto Bolsonaro, caso nossos professores tivessem sido melhor pagos? Pragas fascistas como a xenofobia, o racismo, a homofobia, o desprezo aos pobres, a incapacidade de reconhecer direitos trabalhistas, o machismo violento, a ideia única da privatização – tudo isso teria diminuído se tivéssemos cuidado da educação de uma  forma melhor, desde 1985? Ou não?

Gente como Bill Clinton e Obama já estiveram no Brasil para dizer, nesta questão, um sonoro “sim!’. É gente de fé na democracia liberal e na sua associação com a educação como fator de proteção da democracia. É gente que sabe bem que Trump ganhou, mas não no voto popular. Essas duas lideranças são odiadas por figuras brasileiras que acham que a universidade só seria boa se ensinasse valores conservadores, e que o autodidatismo é que vale. O que vinga na nossa direita é sempre a ideia de fugir da escola, aliás, de onde alguns desses teóricos da nossa direita realmente fugiram, e não raro por conta de não conseguirem passar de ano.

Esses conservadores, essa direita que posa de intelectual e até querem o título de “professor”, adora uma militância ideológica: faz com que muita gente não consiga sequer entender o JN da Globo, pois dissemina uma série de mentiras anticientíficas e bobagens de todo tipo. Dizem que nazismo é de esquerda e, se descuidamos, falam que a Terra é plana. É gente que cria bolsonaristas e Daciolos a dar com pau! São os que dizem que mães e avós, se criarem filhos sozinhas, os farão bandidos precoces. Claro, esses que dizem tal bobagem sabem que a família tradicional nunca existiu, e que, então, levantando uma tal retórica, ela nunca poderá ser rapidamente desmentida, pois comparada com o que nunca foi real. Nunca existiu o paraíso da família tradicional que afirmam que existiu. Esse pessoal inventou um modo de não ser contestado, digamos assim, cientificamente. Mas, não inventou um modo de nos tirar a impressão de que se tivéssemos realmente um professorado mais bem pago, com capacidade de ler mais, não teríamos alunos menos propensos a engolir preconceitos.

O problema é que não conseguimos convencer nossos políticos que não são de direita, sobre a questão salarial dos professores. Sempre perdemos essa guerra.

Paulo Ghiraldelli Jr. 61, filósofo.

Foto: Paulo Freire e Anísio Teixeira, tendo no centro John Dewey

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24 Responses “Candidatura Bolsonaro é fruto da nossa piora educacional?”

  1. letícia mársico
    07/10/2018 at 12:16

    o vice de Bolsonaro acaba de declarar que o neto ´dele “é bonito devid ao branqueamento da raça”. depois da “mistura de raças” como algo negativo, do ponto de vist biológico, agora ele refere-se ao “branquemanto da raça” como algo positivo, pelos mesmos motivos. esse senhor tem ou não tem um pezinho lá no “darwinismo social” e no eugenismo? nem me refiro mais à eugenia de francis galton, propriamente dita.

    • 07/10/2018 at 20:19

      É uma eugenia velha, que nada tem a ver com o que se faz hoje nos laboratórios. É algo do início do século XX.

  2. Luciano
    02/10/2018 at 14:37

    Todas as falácias são contadas com um ar de petulância. Pessoas cheias de si, as tomam como verdade absoluta. Acham que estão lacrando. E assim vamos caminhando pro abismo.

  3. danilo
    28/09/2018 at 20:45

    também acho, professor. e continuo assistindo aos seus vídeos no yotube todos os dias. gosto muito.

  4. danilo
    28/09/2018 at 12:08

    ele já disse que quer restaurar a “ordem e o prgresso”, rompidos depois de tantos desmandos “esquerdistas” da agenda “marxista cultural” da escola de Frankfurt, com a tententativa de implantar o “”comunismo” no brasil, não mais pela tomada violenta do poder, via revolução armada, mas sim, pela infiltração e manipulação dessas ideiasem todos os setores da sociedade.

    • 28/09/2018 at 12:31

      Danilo, nem na Guerra Fria alguém colocaria isso num programa. Os bolsonaristas são débeis mentais, afinal, são pessoas “instruídas” pelo Olavo de Carvalho, o cara que não passou no terceiro ano da escola básica.

  5. Ronaldo Ângelo
    27/09/2018 at 23:28

    Li o plano de governo do Bolsonaro no filiaweb e uma das proposta é erradicar a ideologia de Paulo Freire no Brasil. Está escrito lá com todas as letras. Achei um absurdo.

    • 27/09/2018 at 23:51

      Prá você ver o nível de ditatorial da coisa.

  6. Thiago Carlos
    26/09/2018 at 19:56

    Para o igor:

    Juventude nenhuma justifica o voto no bolsonaro.
    Eu tenho 27 anos e nunca cogitei em hipotese nenhuma durante toda minha vida de adolescente ate agora como um adulto jovem, como voce, votar em alguem com as caracteristicas e os ideias que esse senhor representa.

    Nao esconda sua incapacidade e seu radicalismo nefasto por tras da sua juventude.Essa desculpa virou tendencia ultimamente.

  7. LMC
    26/09/2018 at 11:10

    Ora,PG.Tem escolas públicas no Brasil
    que não tem quadras esportivas,mas
    jogamos dinheiro fora fazendo uma
    Olimpíada e uma Copa do Mundo!Pode
    isso,Arnaldo?

  8. Ariel Lázaro
    25/09/2018 at 20:55

    Apenas Cid Gomes colocou o professor na posição de “profissão por amor”. Alckmin nunca disse nada parecido, é uma informação fake (https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2018/09/03/verificamos-alckmin-professores/). Tirando isso, seu texto permanece inalterável, é exatamente esse o quadro em que estamos.

    • 25/09/2018 at 21:00

      Ariel, eu estava presente no discurso em que ele disse isso, portanto, não é informação de segunda mão. Esqueça essa conversa de querer achar que estou nisso de filosofia por militância ou brincadeira. Essa conversa de checar internet para falar dá zebra meu caro. A internet é grande, mas não é meu mundo somente.Ele disse exatamente isso: a greve dos professores prejudica a sociedade, os pais etc., aí ele deu o exemplo dele, como professor da faculdade de medicina, que estava lá não para ganhar dinheiro.

  9. Igor
    25/09/2018 at 13:57

    Paulo, caso o Bolsonaro venha a fazer um bom governo tu o elogiarás?
    Racionalmente o Ciro parece ser uma boa opção, mas intuitivamente prefiro o Bolsonaro. Bolsonaro transmite confiança e é isso que explica os 30% dele. E outra, Bolsonaro é corajoso, isso é essencial em posição de liderança. O que ele promete, uma equipe de gente qualificada, é o mais básico em qualquer gestão, caso ele consiga uma boa equipe, começarás com o pé direito.
    Eu queria entender o porquê dele te causar tanto pavor?
    Obs: Eu sou jovem, 22, perdoa-me a ignorância, talvez você tenha toda razão, mas só o tempo dirá.

    • 25/09/2018 at 15:53

      Igor, eu sou uma pessoa inteligente e conheço Bolsonaro. Não dá para ele fazer um bom governo. Ele é malufista, fascista e burro.

  10. LMC
    25/09/2018 at 12:11

    Só pagar bem os professores não
    adianta.Uma biblioteca,uma quadra
    de esportes e um laboratório de
    ciências é básica pra qualquer
    escola dita decente.

    • 25/09/2018 at 15:54

      LMC você escreveu isso como gozação, não foi? Ou resolveu ser burro?

  11. Eduardo Henrique
    25/09/2018 at 10:37

    É de fato um absurdo o que fazem com os profissionais da educação no Brasil. Trabalho numa loja de comércio no Rio de Janeiro e tem uma funcionária que é professora de português e trabalha como caixa (no regime intermitente) nessa loja para poder complementar sua renda. Um ABSURDO uma professora ter que passar por isso!

  12. LMC
    24/09/2018 at 17:18

    Quase todo Presidente do Brasil fala o que
    não deve,Henrique,tirando JK e Jango.Mas
    o Trump ganha de todos eles.

  13. Henrique
    24/09/2018 at 11:19

    Bolsonaro bate os recordes dos impropérios, no entanto, acho que ele não é o único, quem não se lembra das pérolas de Dilma?

    • 24/09/2018 at 14:28

      Henrique, a burrice da Dilma é de outro tipo.

  14. josé fernando
    24/09/2018 at 09:00

    Penso que Jarbas Passarinho, quando ministro da educação, foi o grande mentor da destruição de nossa educação. Uma das consequências do legado da ditadura é que hoje já não temos mais um quadro sólido de professores para mudar esse quadro atual. Um exemplo: boa parte dos que lecionam matemática e física atualmente no ensino médio são alunos de graduação de engenharia e TI, jovens fazendo um “bico” para complementar temporariamente sua renda (não há comprometimento verdadeiro e menos ainda a consciência de uma missão pedagógica). Só mais uma coisa: discordo de você quando afirma que professores, por ganharem mais, se dedicariam mais à leitura. Minha experiência no âmbito das salas de professores é desalentadora: poucos usam o tempo livre para ler (p.ex. o intervalo de uma aula vaga em sua programação): a maioria (imensa) se dedica ao whatsapp e às polêmicas políticas e futebolísticas.

  15. LETÍCIA MÁRSICO
    23/09/2018 at 23:52

    respeito a contribuição de anísio Teixeira à educação brasileira, mas ele defendeu a EUGENIA, AO LADO DE RENATO KHEL E MONTEIRO LOBATO…

    • 24/09/2018 at 01:31

      Letícia, não mesmo! Informe-se melhor sobre essas questões. Se você hoje for numa clínica para preparar um filho seu, para que ele não tenha doenças, você estará fazendo um processo eugênico. Cuidado em usar nomes aleatoriamente.

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