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25/09/2018

Bolsonaro incomoda Pondé (sexualmente)? De volta aos conceitos de Nietzsche


[Artigo para o público em geral]

Não gostava de Pinochet. Quando Franco, lá na Espanha, agonizou, não tive pena. Não tenho nenhum apreço pelo torturador Brilhante Ulstra. Nenhum dos generais que presidiram meu país entre 1964 e 1985 me agradaram – me deram duas prisões. Tenho absoluta certeza que se tivesse vivido na Itália de Mussolini, não o apreciaria. Acho que se eu vivesse na China durante a “revolução cultural” de Mao, teria perdido minha biblioteca, casa e talvez a vida. Tenho pavor de discussão em partido de esquerda tradicional, e às vezes até não-tradicional: discute-se horas, mas a decisão já foi tomada, por todos, pois a doutrina já diz tudo de antemão. Ideologia cansa, mata, escraviza.

Tudo isso não me faz deixar Nietzsche para cair na água cancerosa que consome Pondé, que é o ressentimento. Digo aqui esta palavra, “ressentimento”, no exato sentido que Nietzsche a emprega. Trata-se do anti-Amor Fati. Significa a não compreensão do estatuto ontológico do divergente, a não aceitação de que as pessoas possam ter uma escala de valores que não é nada patológica, ou não mais patológica que a nossa escala de valores, que consideramos a normal e saudável. Pondé não aceita a esquerda. Mas agora, como a direita não é encabeçada por ele, e como ele tem medo de passar vergonha entre seus pares, ele resolveu não aceitar Bolsonaro. Pois Bolsonaro é positivo, e Pondé é vazio.

Escutei Pondé num vídeo, numa voz de rádio, e ele reclamava pela falta de “centro”, e colocava Bolsonaro como o resultado de situações só negativas. Cansaço da democracia, desencanto com os políticos, reação às políticas de minorias, visão simplista por conta de “tudo isso aí” etc. – isso produz Bolsonaro. Explicação tola. Segundo ele, Bolsonaro não existe por si só, existe só pela falta na alma de seus eleitores.

Pondé é de direita, e até gosta de figuras deploráveis no espectro conservador. Mas não aprova Bolsonaro porque não consegue entender que a direita que o ex-militar representa é composta por pessoas que são real e fielmente conservadoras, possuem valores conservadores, e não estão nessa opção por “falta”, mas por terem tais valores como valores positivos, como o que é válido. Acreditar que um racista é racista por carência, por falta, por desinformação ou por não ter, ainda, se transformado racista no sentido que Pondé gosta (quando ele próprio ataca minorias), é um erro fatal. Uma das coisas que a filosofia deveria ensinar, mas com Pondé ela falhou, é que as posições todas de Bolsonaro e de seus eleitores mais assíduos é legítima no sentido da sua positividade (ainda que ilegitimas no sentido de imorais e ilegais em alguns casos, como no quesito racismo). Elas, tais pessoas bolsonaristas, não mudariam de posição se fossem “iluminadas”. Elas poderiam mudar de candidato, mas não de posição, não radicalmente. Os conservadores possuem direito à existência simplesmente porque de fato existem, e muitos são capazes de nos mostrar que o mundo pode perder muito sem eles, pois não seria esse mundo no qual conseguimos ser gente.

Tudo que Pondé acredita vem de um ressentimento que se assemelha ao de Bolsonaro. Mas há uma diferença. O ressentimento de Pondé é que vem da falta. Ele é reacionário por conta de um vazio de alma. Ele está impedido de ver qualquer coisa boa na Terra, qualquer coisa válida para o futuro – a não ser ele próprio fumando e funcionando como doutrinador do pessimismo. Ele não consegue entender que o ressentimento do Bolsonaro não é o seu, não é o ressentimento identificado por Nietzsche. Pois Bolsonaro tem uma agenda completamente positiva para o país. Eu não gosto dela, mas ela não é uma agenda pessimista, vazia, gerada pela alma vazia de eleitores. Ela é gerada positivamente por conta de seus eleitores acreditarem que uma sociedade hierarquizada de modo rígido, sem igualdades proporcionadas pelo poder público, é uma sociedade que trará bem estar para todos. Não se bate continência no quartel só de modo vazio, por não ter nada mais que fazer. Na maior parte dos casos, bater continência é um ato  positivo, de uma obediência que se mostra necessária para a construção de um futuro melhor. Eu não gosto de bater continência, mas quem não disse que já não obedeci ordens, quase que cegamente, por acreditar que as ordens nos dariam vida melhor?

Não quero viver em um país em que a ideologia de Bolsonaro se espalhe e se torne hegemônica. Mas não considero que uma moça como a Janaína Paschoal, vinda de um lar de monarquistas, e que não tem um coração vazio, não esteja acreditando que uma ideologia que favorece a hierarquia (e a honestidade, que ela acredita estar no lado oposto da esquerda) é algo bom para todos. Ela está fazendo o que está fazendo não por falta de opções. A direita bolsonarista existe. Pondé gostaria de chefiá-la, mas ninguém o seguiria porque ele é o ressentido blasé, enquanto que Bolsonaro é o ressentido (ou melhor, o raivoso) produtivo. Pondé não tem agenda para o futuro a não ser em benefício próprio. Bolsonaro tem uma agenda para o futuro que ele acredita que será para o benefício da nação.

A democracia liberal tem suas vantagens, pois ela reconhece as divergências sociais. Ela acredita que, junto com a sociedade de mercado que traz atualmente todas as divergências para uma certa harmonia dada pela sociedade de consumo, pode aplainar emoções e fazer a tolerância de Locke continuar sua saga. Por isso a democracia liberal não diz que o melhor para ela são os partidos de centro. Ela diz que o melhor para ela é que a disputa se faça no âmbito do positivo. Ela aposta que a sociedade de consumo é maior que as divergências políticas. Ela permite até que Bolsonaro vença, como Trump venceu. A democracia liberal condena o pessimista blasé, tipo Pondé, a ser um tipo de bobo da Corte dos intelectuais.

Claro que os Estados Unidos são uma democracia liberal com instituições sólidas e o Brasil não. Mas, o Brasil está inserido na sociedade de consumo que segue regras próprias, e engoliria o Bolsonaro tanto quanto engoliria o Boulos. Não suportar extremos, como o caso do Pondé, é a posição que Nietzsche mais desprezava. É a posição clássica dos fracos, segundo Nietzsche. Pondé é o fraco apontado por Nietzsche. Bolsonaro é melhor que ele. Principalmente porque Bolsonaro não se parece com uma geleia que fuma cachimbo, que é uma imagem realmente degradante.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.

Veja o vídeo: https://youtu.be/LHj8SGGY29U

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3 Responses “Bolsonaro incomoda Pondé (sexualmente)? De volta aos conceitos de Nietzsche”

  1. LMC
    20/08/2018 at 12:00

    O Boçalnaro é igual ao Jânio,só
    falta a vassoura.E também igual
    ao Collor,já tem o apoio do
    Alexandre Frota.E a Janaína uma
    vez disse que é presidencialista.
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  2. Eduardo
    20/08/2018 at 10:40

    O engraçado é ver o Pondé falando sobre o “macho” que vai desaparecendo na sociedade, quando ele mesmo fala fino e quebra a munheca!
    Esse macho que ele vive reclamando é positivamente ocupado pelo Bolsonaro, muito mais do que pelo próprio Pondé. Isso o incomoda muito! rsrsrsrs

  3. Guilherme Hajduk
    19/08/2018 at 23:04

    Bela observação acerca do pessimismo negativo do Pondé, Ghiraldelli. Nunca tinha visto o conservadorismo por este lado, tanto o do aspirante a Schopenhauer brasileiro e piorado quanto o do Bolsonaro. Eu experimentei um extremo momento de compaixão pelo Bolsonaro e seu fiel escudeiro, o Cabo Daciolo, enquanto assistia ao debate na RedeTV! De verdade, sem brincadeira, eu realmente senti muita pena deles naquele momento trágico em que os dois ficaram juntos no centro do palco. Enquanto todos os outros candidatos se preocupavam em falar de questões políticas e econômicas (reformas), principalmente as de curto prazo, dada a situação da nação, os “dois idiotas em apuros” ficavam perguntando um para o outro coisas banais de âmbito moral, pois só queriam saber de colocar suas opiniões morais, sobretudo religiosas, em pauta e dá-las como moralmente corretas (talvez esse seja o tal do “empenho por distinção” que o Nietzsche falava; querer colocar no outro a sua marca). — O país no caos em que se encontra, quem é que vai ficar discutindo se o verde é mais bonito do que o azul! Como se fosse o Presidente o responsável por aplicar a moral em um povo! — Foi aí que pude ver nitidamente que são apenas dois idiotas que estão apavorados com medo de perder suas confortáveis tradições morais no caminho do porvir. Eles estão desesperados! O Cabo delirava em rede nacional — me pareceu sob efeito de cocaína… — e o ex-capitão estava visivelmente abatido — talvez até pelo fato de ver o nível deplorável em que o seu companheiro chegou, a ponto de ter delírios e gritar com uma bíblia velha e suja na mão! — Eu me senti mal por eles… São só dois conservadores perdidos, com medo do futuro e vendo o que eles sempre acreditaram se desintegrar, ao mesmo tempo que a crise política e econômica do país só piora. Enfim! Não é bom eles tentarem colocar suas mãos aonde eu não possa ver, porque eu entendo que eles são diferentes de mim…

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